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Sintoma Snowden

 

Edward Snowden tem o privilégio de estar no topo dos noticiários mundiais. Herói para alguns, traidor para outros, tornou-se motivo para polêmicas e acirramentos ideológicos. Entre os que o cultuam está um professor da Suécia, Stefan Svallfors, que o indicou ao Prêmio Nobel da Paz. A mesma indicação foi dada a Bradley Manning, o soldado americano que também vazou informações secretas das Forças Armadas dos Estados Unidos. E uma terceira peça que se encaixa no mesmo mosaico de tendências foi Julian Assange, fundador do WikiLeaks.

 

O que os três têm em comum? O domínio do computador, a invasão aos arquivos secretos, a postura de profetas do mundo livre e o amplo apoio de todas as tendências antiamericanas. 

 

Dos três apóstolos da devassa de conteúdos oficiais e privados, Edward Snowden é o mais recente. Com suas revelações conseguiu provocar estremecimentos diplomáticos entre vários países e ganhou a simpatia de Evo Morales e Nicolás Maduro, que lhe ofereceram asilo político. 

 

A farinha jogada no ventilador por Snowden, na verdade, mais que provocar indignação política, mostra que todos os sistemas de segurança são vulneráveis. Os segredos guardados a sete chaves num mundo conectado e digitalizado correm o risco de vazarem a qualquer momento, em qualquer lugar, para qualquer interessado. Isto vale tanto para a troca de metáforas carinhosas nos namoros quanto para dados sigilosos e estratégicos de segurança. Tudo é rastreável. Paira sobre o mundo a onisciência, a onipotência e a onipresença do deus High Performance Computing onde os chips serão cada vez mais potentes para dispositivos cada vez mais interconectados como computadores em carro e usuários de TV, celular, tablet ou laptop. A tendência é para que um único aparelho exerça todas essas funções. O computador quântico em fase de pesquisa poderá quebrar senhas e invadir sistemas de segurança em qualquer parte do planeta. Em mãos de criminosos, não haveria mais nenhum tipo de segurança nas contas bancárias e transações financeiras.

 

 

Quanto à espionagem, na verdade, ninguém é tão inocente para chorar lágrimas de crocodilo. Na União Europeia também não há imaculados. Só a Government Communications Headquarters (GCHQ), a agência de inteligência britânica, coleta 21 petabites (21 milhões de gigabites) de dados por dia. O governo brasileiro, que tanto se enfureceu com a bisbilhotice americana, foi desmascarado com a revelação de que a ABIN também espiona os ianques. Para o mortal comum seria interessante saber o que cada lado descobriu. Qual é o brasileiro que não gostaria de saber o que os americanos descobriram nos bastidores palacianos? Eu gostaria de saber imensamente o que o pessoal de Brasília faz por conta dos que pagam impostos? Acho que dá para compreender o desespero da turma dos cartões corporativos quando souberam que seus tugúrios foram invadidos.  

 

Já na vida individual, o vaticínio dos ficcionistas da década de oitenta, que proverbializaram a onisciência do grande olho, hoje, ele é o espectro real que nos cerca dia e noite. Muito além da questão da espionagem ideológica, a grande questão do mundo conectado é o risco do fim da privacidade individual.  

 

A síndrome de Snowden é a grande epidemia digital que varre o nosso mundo internetizado. É em primeiro plano uma crise de confiança, quando um funcionário abandona o seu país e passa para o outro lado entregando as cravelhas aos inimigos. É também a insegurança diante do nosso computador, pois nossos e-mails, nossos links, nossas visitas aos sites preferidos, nossas predisposições e nossas senhas podem ser arrematados pelo olho oculto e colocados como a farinha à frente do ventilador. 

O Sintoma Snowden tornou-se o grande surto invisível do atual cenário mundial e um alvo da mais recente obsessão de Phillip Noyce, diretor de filmes como Salt e Jogos Patrióticos, que está idealizando um filme sobre o episódio. Noyce, porém, confessa que ainda não sabe se Snowden aparecerá na tela como herói ou como vilão.

 

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