logo
barraCinza
barraBranca

A Catedral de León A magia da arte na preservação da memória histórica

 

Por Lauro Patzer

 

Conhecer lugares diferentes atende ao eterno anseio humano por novidade. É como ler um bom livro. Abre-se a primeira página. Depois, outra e outras. Aos poucos, desponta a sublimidade de algo grande. De algo que emociona. De algo que arrebata.  

Pois foi essa a impressão que tive ao conhecer a Catedral de León. Aconteceu numa bela manhã de junho. Num sábado. Começo do verão europeu. Havia um céu sem nuvens, muito azul e cheio de andorinhas animadas pelo sol exuberante. Caminhei cerca de 30 minutos do local onde estava hospedado, orientado pelo topo das suas torres, que me serviam como balizadores. A caminhada foi prazerosa, estimulada pela antiguidade das edificações, e, principalmente, por poder contemplar o resto dos velhos muros romanos, sobreviventes de um longínquo tempo. 

Ao chegar, estava diante de um monumento secular, nascido no século XIII, quando o mundo medieval se confrontava com as cruzadas, com os tribunais eclesiásticos, com o absolutismo papal, com o pavor ao inferno. No fundo deste estado de espírito foram erguidas várias catedrais: Colônia, Reims, Chartres, Amiens e a de León, definidas por alguns como verdadeiras preces de pedras.

Parei diante do imenso pórtico. Contemplei-o silenciosamente sabendo que tantas e tantas gerações de homens passaram pelo seu interior: reis, rainhas, nobres, peregrinos, homens e mulheres comuns. Ao entrar, o primeiro impacto foi a policromia da luz solar, que varava os 1800 metros quadrados de vitrais. Um magnífico efeito de cores saídas das 125 grandes janelas. Mas o cenário não foi apenas para os olhos. Havia também a presença de um odor de antiguidade, que inundava toda aquela estrutura colossal. E, ainda, para complementar o ambiente, ecoava serenamente o cântico gregoriano entoado por algumas vozes masculinas, porque sucedia naquele momento o ato litúrgico. De fato, eu não apenas sentia, mas estava num outro mundo, em outro tempo, apenas visto nos filmes. Estava inserido num ambiente tomado pelo arquétipo místico do universo medieval. É isso mesmo. É impossível caminhar no interior de uma catedral gótica sem perceber e sem se confrontar com as dezenas de sutilezas presentes em cada detalhe arquitetônico. Seus símbolos falam das grandes antíteses da existência humana. Dos abismos dogmáticos de um tempo impregnado de medo. E falam de um homem atormentado em busca de absolvição.

Esta é a beleza da arte. É este o gênio do artista. Conseguir traduzir um estado de espírito na edificação de um templo. Fazer com que um ser como eu, depois de vários séculos, pudesse sentir um mundo que apenas sobrevive graças à magia da arte. É assim que a humanidade, por anos, séculos e milênios afora preserva a sua memória.

 

Catedral de León - Espanha

institucional anuncie contato