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Agressões ao longo da vida

Agressões ao longo da vida

Meu antídoto para tratar meus agressores

 

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

Gostei muito de uma publicação da jornalista Mariana Bavaresco. O texto é objetivo, direto e tocante. Evidencia uma ferida eternamente aberta das mais variadas formas de agressões presentes na vida diária das pessoas. A autora não enfeita. Abre-se ao leitor e expõe a sua experiência, ou seja, o seu convívio com as violências, hoje colocadas na mídia com o nome de Bullying.

 

O que ela escreve:

“Resolvi então contar aqui os tantos motivos das minhas mortes ao longo da minha vida. Eu perdi a conta de quantos foram. Todos eles têm rostos e histórias. Todos eles me fazendo sofrer de formas diferentes e todos os dias até que não sobrasse nada aproveitável dentro de mim. Eu perdi verdadeiramente as contas de quantas vezes eu pensei que nenhum motivo – por pior que fosse – valia a minha dor e de quantas vezes eu quis viver isso literalmente e não ligar pra opinião ou para os comentários dessas pessoas. Mas seria mentira se eu dissesse que não doeu. Seria mentira se eu dissesse que por muitos anos depois ainda não me machucava, ainda não doía como se fosse a primeira vez. Ainda dói – mas não pelos motivos que vocês imaginam.

Bullying é normal? Todo mundo já passou por isso? Todo mundo já se sentiu estranho, diferente, sozinho. Será? Eu não sei ao certo se foram 13 ou 30. Mas eu lembro que todos me fizeram chegar às mesmas conclusões: eu não era bonita, eu não era suficiente, eu não era magra, eu não era inteligente, eu não era ninguém. Eu tentava entender, em vão, o porquê da crueldade, às vezes eu acho até que preferia não acreditar que as pessoas eram tão cruéis de propósito, talvez elas fizessem sem querer. Mas quem te ofende sem querer? Quem te vê chorar e não para? Talvez todo mundo se sinta sozinho em um determinado momento da vida. Na minha vida esse momento parecia se estender um pouco mais do que o normal.

Eu lembro bem de todas as vezes que vocês se se escondiam no banheiro pra não ter que brincar comigo. Ou quando eu ouvia que “repetia demais” certa roupa. Ou que as minhas calças ficavam horríveis porque marcavam as minhas “gorduras”. Todas as vezes que ninguém me escolhia pra fazer um trabalho ou todas as vezes que eu chorei sozinha no banheiro até enxergar todo o sofrimento virar um absoluto nada. Era isso. Uma grandessíssima dose de vários nadas que me tornaram invisível, amargurada e vazia.

Eu lembro de querer contar pros meus pais, lembro de querer sentar no colo deles e chorar mas eu não conseguia me abrir. Eu não conseguia. Eu não conseguia me concentrar, eu não conseguia dormir direito, eu não conseguia mais me relacionar, eu já não tinha vontade de ir a festas e muito menos pra escola. Eu me isolei dos meus amigos, da minha família, acho até que me isolei de mim mesma”.

O texto da Mariana é mais extenso. Mas essa parte já mostra a essência do que ela quer contar sobre a agressão.

A agressão não precisa ser um empurrão, nem bofetada. Para mim agressão é tudo aquilo que me faz sofrer, quando não tenho culpa. Como já escrevi alguns meses atrás, quando era criança tive de trocar de escola, porque não concordava com o comportamento da maioria dos colegas. Sempre me colocava ao lado dos professores. Por isso fui “marcada”, como se dizia naquela época e hoje se chama bullyng.

Este é a apenas um exemplo. O bullyng, no entanto, não termina na infância, nem na adolescência e muito menos na vida adulta. O pior dos bullyngs para um adulto é a calúnia. Toda aleivosia machuca. Penetra profundamente. Machucados que tem “rosto e história” como disse Mariana. Fazem-me sofrer de formas diferentes e todos os dias ao ponto de sentir-me um ser desprezível. Sem utilidade. Sem importância. Algo parecido como Kafka retratou no seu livro Metamorfose, quando o protagonista transforma-se numa barata.

Ficar lamentando as agressões não leva a nada. Aprendi que para todo ato agressivo a melhor resposta é o trabalho. É fazer algo relevante. Isto é, eu produzo. Eu escrevo. Faço livros. Este é o meu melhor antídoto para responder aos que me machucam.

 

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