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Rótulo ou Bullying e Cyberbullyng

 

Rótulo ou bullying e cyberbullying

 

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

 Determinado dia, por força das circunstâncias, entrei numa roda de discussão sobre um fato muito incidente nas escolas: o bullying, um novo nome dado já há algum tempo para aquilo que a psicologia chama de rotulagem. 

 

 

O nome não importa. O fato é que se trata de um quadro de atitudes em cima de alguém escolhido como vítima: apelidos atribuídos, rejeição, chacota, gracejos, sátiras, zombaria e até agreções físicas.  

 

 

 

Esse registro é apenas uma observação terminológica, que aqui no Brasil, copiamos com facilidade os modismos verbais. Em outras palavras, às vezes, é um truque semântico, mais ou menos, como um determinado governo estadual para atenuar um aumento de imposto, maquiou o ato com uma troca de palavras: "nova matriz tributária", para evitar a palavra imposto. Adiantou alguma coisa? 

Mas deixando a semântica de lado, volto ao tema. O bullying, segundo Orson Camargo (professor universitário graduado em Sociologia), "é um conceito que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder".

 

 

Conforme Camargo, "o bullying é um problema mundial, podendo ocorrer em praticamente qualquer contexto no qual as pessoas interajam, tais como escola, faculdade/universidade, família, mas pode ocorrer também no local de trabalho e entre vizinhos. Há uma tendência de as escolas não admitirem a ocorrência do bullying entre seus alunos; ou desconhecem o problema ou se negam a enfrentá-lo. Esse tipo de agressão geralmente ocorre em áreas onde a presença ou supervisão de pessoas adultas é mínima ou inexistente. Estão inclusos no bullying os apelidos pejorativos criados para humilhar os colegas".

Já segundo o sociólogo americano, Peter Berger, "a criança privada de afeto e atenção torna-se desumanizada. Mas a criança a quem é concedido respeito vem a respeitar-se. Um menino tido como bobo torna-se bobo, da mesma forma que um adulto tratado o temor devido a um deus da guerra começa a se considerar como tal e a agir como compete a tal figura". Portanto, sem usar o termo bullying, mas rotulagem, o sociólogo argumenta que a vítima assimila a pejoritivade que lhe é imposta. Ele denuncia um crime com a auto-imagem. As pessoas que tratam um indivíduo como um irresponsável, vigarista, egocêntrico e desleixado, colam nele um rotulo.

 

 

Nossas vidas se desenrolam dentro de uma complexa trama de reconhecimentos e não-reconhecimentos. Vivemos melhor quando somos valorizados em qualquer grupo, seja familiar, seja no trabalho. Isso vale para um  jovem na escola. Vale também o contrário, vivemos mal quando atingidos pelo preconceito. Peter Berger sentencia: "A coisa mais terrível que o preconceito pode fazer a um ser humano é fazer que ele tenda a se tornar aquilo que a imagem preconceituosa diz que ele é".

O bullying, portanto, afeta a personalidade. "As crianças ou adolescentes que sofrem bullying podem se tornar adultos com sentimentos negativos e baixa autoestima. Tendem a adquirir sérios problemas de relacionamento, podendo, inclusive, contrair comportamento agressivo. Em casos extremos, a vítima poderá tentar ou cometer suicídio", reforça Orson Camargo.

"No Brasil, uma pesquisa realizada em 2010 com alunos de escolas públicas e particulares revelou que as humilhações típicas do bullying são comuns em alunos da 5ª e 6ª séries. As três cidades brasileiras com maior incidência dessa prática são: Brasília, Belo Horizonte e Curitiba", conclui Camargo.

Estudos indicam que as maiores vítimas do bullying são as de baixa autoestima. É necessário também considerar as profundas necessidades psicológicas do agressor. Há um duelo entre as pessoas que não acreditam em si e as que se detestam. O bullying pode ser o choque entre dois negativos, cada um a sua maneira — de um lado excesso de melindres e de outro, problemas psicológicos e de falta de caráter. Essas ponderações, porém, não são matematicamente exatas por causa da complexidade de cada ser humano.

O que realmente caracteriza um bullying? Segundo a psicóloga Telma Vinha, as principais características são: a intenção do autor em ferir o alvo, a repetição da agressão, a presença de um público espectador e a concordância do alvo com relação à ofensa. A especialista acrescenta, que o bullying não tem efeito sobre uma personalidade emocionalmente saudável e segura de si. Diz ela:  ''Quando o alvo supera o motivo da agressão, ele reage com segurança ou ignora, desmotivando a ação do autor.'' Em outras palavras, o rótulo cola onde ele consegue ficar grudado.

 

Cyberbullying

 

 

Recentemente, como a expansão da mídia e das redes sociais, surgiu o bullying virtual ou cyberbullying. Trata-se de um meio de um alcance quase universal. Uma difamação em minutos é capaz de espalhar-se pelo mundo inteiro em poucos segundos. A internet tornou-se em um dos mais poderosos instrumentos com atributos de um deus: onisciência e onipresença. As mensagens difamatórias ou ameaçadoras circulando pelas redes sociais  por e-mails, sites, blogs (os diários virtuais) e, hoje, sobremaneira pelos celulares como instrumentos onipresentes. O que, muitas vezes pode ser brincadeira para o autor, poderá provocar danos irreversíveis à vítima.

O cyberbullying encontrou na escola um de seus campos mais férteis. A grande maioria dos alunos está presente nas redes sociais. O compartilhamento de mensagens, fotos, vídeos são características quase universais. É um rastilho de pólvora onde basta uma faísca. "Praticar cyberbullying significa usar o espaço virtual para hostilizar uma pessoa, seja um professor, colega da escola, ou mesmo desconhecidos, difamando, insultando ou atacando", afirma Rafael Pinheiro em um texto publicado em agosto de 2015.  Ele cita um texto de Eduardo Guedes, pesquisador da UFRJ, que identifica nove características desse tipo de ataque: "O cyberbullying normalmente se manifesta em nove formas mais comuns: injúria, difamação, ofensa, falsa identidade, calúnia, ameaça, racismo, constrangimento e até incitação ao suicídio. E pode ser tão simples (simples na ação, mas complexo no seu efeito) como postar fotos tendenciosas, declarações falsas, comentários com a intenção de humilhar ou ridicularizar uma pessoa, mencionar adjetivos pejorativos, insistir em enviar e-mail para alguém que não quer mais contato entre muitos outros".

 

Experiência pessoal

Até aqui levantei conceitos, apontei algumas causas e os principais efeitos do bullying e cyberbullyin. Rotular, difamar e prejudicar pessoas é algo que acompanha as pessoas em todos os lugares e por todos os tempos. Cito como exemplo as milenares castas que existiram na Índia, tendo aos seus pés os párias. Estes sofreram humilhação, zombaria, rejeição, privação, estupro, tortura e por vezes morte cruel (um verdadeiro bullying social). Mas era algo normal e aceitável dentro da cultura indiana.

Hoje, embora proibido pela constituição indiana, a força cultural milenar é mais forte do que o papel legal. Ainda há párias. Estes não podem viver nas cidades, ler os livros sagrados nem se banharem no Rio Ganges, afirma Daniel Cristovão em seu blog.

A teorização sobre o bullying parece não ter fim. Quero afirmar que o problema desse mal não pode ser restrito aos nossos dias. A diferença que o bullying de hoje tem um potencial midiático. E como uma metástase ele se multiplica pelas redes sociais e torna visíveis, às vezes, pequenos lapsos, mas com efeitos devastadores.

Quando criança, a internet estava  recém engatinhando e ninguém falava em bullyng. Os nomes eram diferentes, como já comentei. Sofri esse mal em carne e ossos. Minha mãe precisou tirar-me de uma escola tradicional de Porto Alegre e me colocar em outro educandário por causa dos achaques que eu sofria por parte de alguns colegas. Sentia-me a última das pessoas na sala de aula. Sofria muito. Embora resistindo ao rótulo, ele era mais forte. Eu era fraca e indefesa. E na maioria das vezes, calada. Foi terrível. Assustador. A rotulagem é um mal que penetra fundo de maneira lenta e age como uma metástase para arrasar a vida.

Hoje eu respondo a isso com os meus textos através de artigos, crônicas e livros. É a minha resposta e ao mesmo tempo o meu triunfo sobre essa chaga social, a rotulagem ou bullying.

 

 

 

 

 

 

 

  

 

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