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A educação sob risco

 

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

Sempre me pergunto sobre qual seria o melhor legado que poderia deixar para a minhas filhas. A resposta veio depois de um bom tempo de reflexão. — Preciso deixar algo para as suas vidas. Algo que as habilite a enfrentar a vida com todas as suas nuanças. Esse algo é a educação. Apesar de não ser uma especialista no assunto acho que tenho a obrigação de, pelo menos, escrever algo sobre o tema. Ao fazê-lo, alguns dados me assustaram sobre a triste realidade do ensino brasileiro.

Para complementar, decidi colocar na íntegra a belíssima crônica de Cris Leão, que de forma muito simples, sutil e ao mesmo tempo profunda, trata da importância da educação dentro de casa.

 

 

 

Educação sob risco

 

Cada vez mais cresce a minha preocupação com o futuro de nossos filhos. Apenas 0,6% das escolas brasileiras têm infraestrutura próxima do ideal para o ensino, segundo uma pesquisa de um grupo de professores da Universidade de Brasília, a UnB. Esse é apenas um entre dezenas de dados alarmantes. São diversos os fatores que proporcionam resultados negativos. Um exemplo são as crianças que se encontram na 6ª série do ensino fundamental e não dominam habilidade de ler e escrever. Ainda, 60 % dos alunos da 5ª série não conseguem interpretar textos simples. Sessenta por cento do último ano do fundamental não interpretam textos dissertativos e 65% do 5ª série não dominam o cálculo, 60% dos alunos do que concluem o fundamental não sabem realizar cálculos de porcentagem, segundo a pesquisa.

Minha preocupação vai além dos dados estatísticos, além dos aspectos estruturais e físicos. Ela entra na sala de aula. E o que acontece no seu interior? O que fazem os alunos? Como se comportam? O que ouvem dos seus professores? Que valores lhes são ensinados?

Segundo um artigo de Kelsiane Nunes, a indisciplina e a defasagem de aprendizado dos estudantes são os principais problemas presentes na sala de aula das escolas públicas do Brasil.

A indisciplina não é privilégio das escolas públicas. Em muitas escolas privadas, o professor sofre de verdadeiros "carteiraços".

"Há uma espécie de 'mal-estar' pairando sobre a escola e o trabalho do professor hoje em dia. A própria imagem social da escola parece estar em xeque de tal maneira que os profissionais da área acabam acometidos, por exemplo, de uma espécie de falta aguda de credibilidade profissional", afirma Julio Grippa Aquino, em uma publicação acadêmica, e complementa: "De uma coisa estejamos certos: num futuro bem próximo, o mundo será implacável com aqueles sem escolaridade". Acrescento, com aqueles que tiveram a oportunidade e não a aproveitaram.

A indisciplina, no entanto, não pode ser atribuída apenas ao chamado "aluno-problema", ao aluno desinteressado ou ao aluno "sem-limites", afirma o pesquisador. Esse tipo de aluno existe em toda sala de aula. Ele é um problema e atrapalha muito. Mas são individualidades e não a maioria.

Então, o que é que produz o fenômeno de indisciplina coletiva?

Para piorar o quadro indisciplinar há fatores conjunturais. Linhas pedagógicas dominadas por segmentos ideológicos duvidosos. Professores engajados em partidos políticos, que incentivam indiretamente a atitudes desordeiras, justificando-a como um fomento cultural de insatisfação gerada pelo capitalismo. Fato visto no fim do ano passado nas invasões às escolas por uma minoria manipulada (incluindo alguns que nem estudantes eram), impedindo toda atividade escolar. O passo seguinte dessa ideologização é o de utilizar o estudante para os movimentos de protesto nas ruas. Mas, diga-se protestos, sempre direcionados em favor da ideologia promotora. Protesto para beneficiar uma bandeira partidária.

No meu ver, a indisciplina tem suas raízes no desmantelamento pedagógico a começar pela denominação do professor chamando-o de "trabalhador em educação". A partir daí torna-se bem visível a partidarização da pedagogia, seguida pelos livros didáticos "reescritos" para o "novo ensino voltado ao social". A impregnação desses conceitos de alguns pedagogos amestrados passou à sala de aula. De contestar ideias, o aluno passou a contestar o ensino e a desrespeitar o professor. A situação evoluiu a tal ponto que chamar atenção a um aluno perturbador é um risco.

Em maio de 2016, no interior de Ribeirão Preto, São Paulo, um professor de 59 anos foi agredido por um de seus alunos. Pediu ordem dentro da sala e pediu  que os celulares fossem desligados. Um dos estudantes não atendeu e acabou agredindo o educador de tal maneira, que precisou ficar em casa durante sete dias por conta dos ferimentos. Depois foram constatadas lesões na coluna (da voadora, pontapés e socos), que o obrigou a ficar afastado por mais tempo. Curiosamente, o professor naquela aula estava abordando o problema da violência no Brasil.

Dias anteriores, na mesma escola, uma aluno de 7ª série, atacou um professor de Língua Portuguesa. De costas, recebeu vários golpes e uma gravata, jogando ao chão. Os dois episódios foram minimizados pela direção da escola (porque a lei não permite a expulsão). Dias depois os agressores voltaram à escola com a aura de "heróis".

Uma professora com 21 anos de sala de aula, também em São Paulo,  depois de levar um aluno à diretoria, por indisciplina, dias depois apanha da mãe do estudante, que veio reforçada por um grupo de familiares. Fato noticiado pela TV Record.

Contrastando a decadência das escolas brasileiras, nos últimos anos foram gastos grandes somas de dinheiro público em propaganda oficial do ensino brasileiro, naquele ano,  exaltando a "Pátria Educadora".  Uma propaganda que acabou virando piada nas redes sociais.

Há também os que apontam outra causa para a fragilidade disciplinar na sala de aula.  Eles denunciam a letra autoritária do legislador do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que no art. 53 diz que a criança e o adolescente tem direito de ser respeitado por seus educadores. Até aí, tudo bem. Mas o legislador esquece que todo o direito deve ter "mão dupla",  deve valer para os dois lados (direito aos professores, funcionários, diretores).

O jurista Santiago Dantas, afirma que o  principal objetivo da ordem jurídica é proteger o lícito e reprimir o ilícito. Para atingir este objetivo, a ordem jurídica estabelece deveres, que podem ser positivos ou negativos, e que são impostos para viabilizar a convivência social. O ECA, nesse viés, é pobre em atribuição de deveres ao menor (atribuindo-lhe uma infinidade de direitos).

 

Segundo Beatriz Cerqueira em seu blog "O professor fica isolado, humilhado por ter apanhado de um adolescente no seu local de trabalho e tendo que ouvir as palavras politicamente corretas como "prevenção e dialogo", "respeitar o menor",  como se a agressão fosse apenas uma consequência que o professor deve se submeter e aceitar". Da ausência do direito de autoridade vilipendiada pelo ECA, a grande vitima que é o professor acaba se transformando em réu. "Quando uma sociedade assiste inerte seus professores serem agredidos, ela precisa refletir que importância tem a educação em seu desenvolvimento", acrescenta Cerqueira.

 

O sistema educacional brasileiro enfrenta dificuldades numa escala de ordem regressiva, de mal a pior. Não é o bastante enumerar os episódios, lamentar a lei incoerente. É preciso contestar "pedagogismos ideológicos" que sutilmente enxergam como normal um professor apanhar. Justificam o argumento: "O conflito em sala de aula é a manifestação da ordem democrática". Esse argumento pode valer para um debate de ideias divergentes, mas não para indisciplina e agressões

 

Fica bem clara a triste realidade do professor. Trabalhar sob a pressão da insolência, desobediência e falta de respeito, quando não da agressividade injustificada, não só não é razoável, mas é prejudicial para a auto-estima profissional docente. É humilhante quando a mídia escancara a manchete: o aluno procurou o seu "direito" na justiça e "ganhou". Obrigando a escola e o professor a voltar atrás à punição imposta.

 

A ênfase do ensinamento deve estar voltada ao crescimento para a vida, nas aparentes pequenas situações: contar sempre a verdade, pagar o que se deve, respeitar os pais e superiores, comprometer-se com o bem-estar dos outros, ser responsável a partir das pequenas coisas (limpar o seu quarto, dar descarga no banheiro, colaborar na limpeza da casa etc), além de outras ações como cumprir os deveres escolares, não colar nas provas, respeitar os horários, respeitar as filas, respeitar os colegas etc. A boa educação, como descrevia o filósofo Kant, é uma noção humilde, acessível a todas as crianças, mas cumpri-las exige a atividade de uma vida inteira praticando os simples deveres. Para Kant não há educação sem o dever.

Portanto, pedagogias ambíguas que só enxergam direitos e se omitem nos termos de cumprimento do dever são altamente prejudiciais (algo parecido à Constituição Brasileira, que dá a impressão que o cidadão só tem direitos e não precisa de deveres). É uma pedagogia  que exige o esforço na do conhecimento cognitivo e que esquece de cobrar a responsabilidade individual. Tais conceitos abrem as portas à indisciplina, à irresponsabilidade e geram consequências como aquelas apontadas no início desse artigo.

O modelo político que arruinou o país é o mesmo modelo que está arruinando o ensino brasileiro, solapando os deveres básicos de qualquer ser humano (notem bem, falo em deveres e não em direitos). O que aconteceu não foi nada mais que pisar em cima desses pequenos deveres ensinados pela nossa vó. O que se viu foram atos de fraudar números, fraudar estatísticas, encobrir desvios e propinas, a irresponsabilidade com o dinheiro público; atitudes de arrogância, de autoritarismo, de exclusivismo moral. Exibição de virtudes próprias, como aquela declaração egocêntrica de uma figura de proa: "duvido que vocês acham uma viva alma mais honesta que eu!" O ensino brasileiro é um retrato fiel dessas pessoas.

Portanto, para mudar o ensino é preciso haver uma profunda mudança de mentalidade. Isso leva tempo.

A inteligência, o raciocínio, o conhecimento cognitivo foram chacinados. A sacralização da irrelevância massificada como a proibição de reprovações, a proibição de sanções, rompeu os dois pilares básicos de uma civilização: a disciplina e a responsabilidade pessoal.

Quando um aluno agressor fica impune, nessa hora,  a conclusão é muito triste: a educação perdeu.

 

 

 

Antes que eles cresçam:

pare e observe

 

 

por Cris Leão

 

Meus filhos estão crescendo. João vai fazer 10 anos daqui há 6 meses. Essa frase não sai da minha cabeça. Acho que preciso desses seis meses para me acostumar com a ideia. Não sei mais quanto tempo ainda vou poder chamá-los de “minhas crianças”. Brincadeira. Eu sei sim. Vou chamar eles de pequenos, meus bebês, minha filhinha, meu tesouro, para sempre. É assim que são as mães, não é? E quando você já é mãe por algum tempo, entende que mãe é mãe. Tudo igual.

Mas quanto tempo ainda vou ter eles me levando para festinhas de crianças, me levando para o parque no fim do dia, me levando para andar de bicicleta, para passear no zoológico, me convidando a ser criança de novo e dançar na chuva? Essas perguntas que estava me fazendo ficaram diferentes quando recebi a notícia de que uma amiga, do mesmo barco “mãe Waldorf” está com câncer e pelo andar da carruagem, a jornada dela parece estar no fim. Ela é mãe de crianças ainda mais novas que as minhas. Eles têm 5 e 8 anos. Quanto tempo eles ainda têm com a mãe?

A morte sempre nos pega de surpresa por mais que seja uma antiga conhecida, que sempre apareceu para toda a gente. Mas somos mestres em nos distrair dela. Eu sentei aqui para escrever esse post e tentar aliviar um pouco o que estou sentindo por esses dois pequenos. E ao mesmo tempo lembrar que a vida é cada instante. E como diz Clarice Lispector “se morre”.

Então eu te pergunto: Para que vivemos acelerando a vida? Para que queremos que os bebês sejam estimulados? Para que queremos que nossos filhos estejam adiantados? Com diz todas as mães que conheço: passa muito rápido!

Abaixo minha tradução de alguns trechos do artigo que li sobre Slow Parenting. O exercício de olhar às crianças, apenas observar, é o que tenho feito nesses dias e é o que tem me dado conforto. Afinal o que as crianças nos mostram com seu jeito inocente e sua curiosidade, é que a vida é bonita.

“Eu encorajo os pais a separar um tempo para apenas observar suas crianças, quer eles estejam brincando, fazendo lição de casa, ou comendo um lanche. Tire um tempo para beber alguma coisa com eles. Deixe-se ser lembrado como suas crianças são incríveis. Essa pausa sozinha, mesmo que seja por pouco tempo, pode mudar o ritmo da sua vida”… (John Duffy, psicólogo clínico e autor do livro The Available Parent).

“Crie pequenos rituais com significado. Alguns dias a única maneira de se conectar pode ser dar ao outro cinco minutos do seu tempo nas manhãs. Mas você pode fazer disso, uma maneira de dizer eu amo minha família.”

“Fazer coisas em excesso é exaustivo para mim. É exaustivo para meus filhos. Eu não quero fazer tudo. Porque isso me deixa vazia, ao invés de me deixar preenchida.”

Ah, essa semana capturamos uma pupa de borboleta e deixamos no potinho de plástico. (As pupas não precisam de ar nem de nada, são auto suficientes) Em cinco dias, a borboleta nasceu e as crianças ficaram super felizes de soltar no quintal. Acho que essa é uma boa ideia de brincadeira boa e barata para se fazer com os pequenos. E a gente se lembrar do milagre e das fases da vida.

(publicado em seu blog em 28 de maio de 2015)

 

 

Sobre  a autora da crônica, Cris Leão

É mãe de dois filhos, João e Maria Tereza. Ambos são temas frequentes de suas crônicas. Cris é redatora publicitária com mais de 12 anos de experiência trabalhando em Lisboa, São Paulo, Nova York e Miami. Desde que meu primeiro filho nasceu, a jornada de trabalho de doze horas por dia nas agências parou de fazer sentido. E precisei me reinventar profissionalmente. Já tive uma marca de camisetas, já virei tradutora, já fui professora em faculdade por 3 anos e meio para poder ter férias escolares e mais tempo em casa. Pedi demissão 4 vezes e agora trabalho em casa escrevendo projetos como redatora freelancer, tradutora e fazendo esse blog.

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