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Ouvir os ensinamentos que o meu sangue murmura

 

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

Ouvir os sentimentos que o meu sangue murmura

 

 

Sou fã dos livros do escritor alemão Hermann Hesse, prêmio Nobel em 1946. Seus textos aguçam o interior do ser humano e levam a reflexões profundas. Ao ler Demian, um de seus romances (escrito em 1917), cheguei a copiar um pequeno trecho da página 16: "Não creio ser um homem que saiba. Tenho sempre sido um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que o meu sangue murmura em mim. Não é agradável a minha história, não é sua e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e o sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos".

O texto sugere vários temas. Mas fico com esta frase para minha crônica: "os ensinamentos que o meu sangue murmura".

Na verdade, é uma frase da boca de Emil Sinclair, que é o protagonista e narrador do romance. O jovem é de uma família piedosa e recebeu educação rigorosa. Influenciado por Max Demian, o seu conflito começa. Se rebela contra esses ensinamentos e busca uma vida com liberdade quase absoluta. Descobriu que dentro de pessoas brandas, refinadas, também se alojam monstros. Fantasmas que estão escondidos debaixo do manto da humildade: o fantasma da rebelião, do controle, da chantagem, da irresponsabilidade, da fuga dos deveres, da necessidade de ganhos sem esforço, de aplauso sem mérito. Esses fantasmas, quando libertados, levam a um comportamento irreverente, às vezes, anarquista,violento e perigoso.

De certa maneira, no nosso cotidiano, somos também máquinas triviais de que se podem prever largamente os comportamentos, pois a vida social exige que nos comportemos como máquinas triviais. Adotamos máscaras para encobrir as fantasias politicamente incorretas. Os momentos de crise são inevitáveis, quando duas forças opostas entram em linha de colisão. A crise é um acréscimo de incerteza e de imprevisibilidade. Ela exige uma decisão.

A busca pela própria identidade e o difícil processo de realização pessoal foram temas que Hesse tratou em seu romance Demian e anos mais tarde em outras obras. Suas histórias são cheias de referências a suas experiências pessoais, autoanálise e confissões poéticas.

O jovem Emil Sinclair tornou-se o protótipo do jovem que ouviu os sentimentos que o seu sangue murmurava. E se deixou levar a uma vida sem freios, em nome da liberdade. Com o tempo percebeu, que a liberdade total, no fim também mostra suas grades e algemas. Essa nova vida também não podia dar-lhe um sono sem angústia, nem um conhecimento maior sobre si. Mas, o confronto desses dois mundos, a educação rígida de casa e o abandono dos padrões familiares, trouxe-lhe maturidade. Percebeu que o bem e o mal vivem simultaneamente dentro de todo homem.

A sua juventude que estava em ebulição com o tempo criava novas plumagens. Começa a pairar em torno dele uma suave atmosfera de melancolia. Uma força latente e um realismo atuavam dentro dele em seu pleno vigor. A comunhão com aqueles fantasmas do passado, que cochichavam segredos sombrios, não cessou, o continente escuro de seu íntimo, começou a entender que a busca na vida não tem fim. Os sentimentos continuam a murmurar no seu sangue. Entendeu que as fantasias mudam, os gostos mudam, os ideais mudam, os sentimentos mudam e nascem novas fantasias, novos gostos, novos ideais, novos sentimentos.

Ouvir os sentimentos que murmuram no sangue é uma metáfora, cujos ensinamentos somente entendemos depois de muitas crises pessoais e com muita reflexão.

 

 

 

 

 

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