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Trabalho beneficente de Andréia Paulon Pinheiro

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

Quem é Andréia Paulon Pinheiro?

 

Andreia Paulon Pinheiro tem aquilo que faz de um ser humano uma autêntica pessoa: ajudar os outros. Em um país tão carente de atendimento às necessidades básicas dos moradores das periferias, ela, há anos, está fazendo um excelente trabalho de ação social na Comunidade Limite, no Jardim Marabá, em Porto Alegre, sem ter essa profissão e sem estar vinculada a alguma ONG.

Faz três anos que a conheço. De sorriso fácil, a Andreia é simpática e conquista amigos com facilidade. Tais atributos fazem dela uma verdadeira líder comunitária. Todos os dias é abordada em sua casa por crianças pedindo comida, remédio ou alguma outra ajuda. Seus atos repercutem pela comunidade e o fluxo dos que chegam com suas necessidades, aumenta cada vez mais. Ela não desiste, mesmo que os pedidos estejam acima de sua capacidade de ajuda, ela se desdobra e se agarra à esperança de seguir em frente.

Por conhecer o seu bom caráter e sua índole voltada aos carentes, decidi fazer essa matéria e deixo a Andreia contar alguma coisa de sua vida.

 

Andreia falando:

"Minha infância foi muito difícil. Minha mãe e meu pai vieram do interior de Alegrete, motivados pela falta de trabalho. Para dificultar a situação, eles moraram em uma área alagadiça. Todas as vezes que chovia, víamos a água a entrar em nossa casa. O pouco que tínhamos, a inundação se encarregava de estragar. Cansados disso, meus pais decidiram vir para Porto Alegre com a esperança de vida melhor.

Mas, essa decisão deles, me atingiu. Eles levaram consigo os meus irmãos e eu tive que ficar com a minha avó, em Alegrete.  Essa deliberação foi dolorida para mim. Morei até meus oito anos com ela e tive uma infância muito difícil. Entre as dificuldades, vivíamos amontoados. No pátio da minha vó morava meu tio, que tinha 15 filhos. Ele não tinha condições de sustentar a todos. Assim todos, me incluindo, passávamos fome. Minha primeira infância a vivi em uma situação que chamo de miséria.

As circunstâncias negativas não paravam de aumentar. A minha vó sofria uma doença cardíaca e fomos morar em Porto Alegre. Pouco tempo depois, ela nos deixou.

Alguém pode, nessa altura, perguntar: "e o teu avô?"

"Não o conheci. Ele era de origem italiano e os seus pais o deserdaram por casar com uma negra, a minha avó".

Carrego dentro de mim um sentimento de tristeza. Eu me sentia uma estranha por não ter sido criada por meus pais e não ter convivido com os meus irmãos. Meu pai trabalhava como eletricista e a minha mãe era costureira. O que os dois ganhavam era gasto em comida pela família, pois eu tinha cinco irmãos.

Assim, a minha infância e a minha adolescência, passaram rápido sem eu ter conseguido sair das dificuldades. Para atenuar a situação, nos finais de semana saíamos para vender laranjas e com isso, ajudar a pagar o aluguel do porão onde residíamos.

Aos meus 12 anos fui trabalhar em casa de família e morar no emprego. Foi quando descobri outros valores. Passei a crer no bem e viver uma vida mais espiritual. Hoje não sou rica, mas vivo um pouco melhor. Com esse pouco melhor, acho que tenho a obrigação de ajudar às crianças que não têm nada. Isso me dá alegria e me sinto realizada no que faço. E, olhando para trás, acredito que a minha infância e adolescência sofrida, talvez, me tornaram mais humana. Isso faz com que, cada criança que se dirige a mim, fazendo pedidos, eu me lembro que passei o mesmo.

 

O trabalho que está sendo desenvolvido

 

O que a Andréia faz. Ela se engaja na comunidade carente e vivencia as suas necessidades latentes. Penetra fundo nos fundamentos das causas e as consequências da pobreza. Sim, pobreza, palavra que muitos não gostam, por motivos ideológicos, que, no entanto, até hoje não encontrou substituta, porque o seu sentido semântico é atemporal. A pobreza não pode ser atenuada com eufemismos políticos inventados como "excluídos sociais". Pobreza é pobreza e não adianta mascarar a palavra. A pobreza real não é uma metáfora. Um casebre sem esgoto, sem água potável, sem paredes divisórias, sem banheiro, encostado a outros idênticos é algo muito real. A maioria dos seus ocupantes são desempregados, ou que nunca tiveram um emprego. Outros vivem de "bicos" ou na informalidade, que, por sua vez, não ajuda a sair daquele círculo de miserabilidade.

É um mundo muito cruel com a soma de todas as suas anomalias e faltas de comida e moradia; constante violência doméstica, alienação parental, brutalidade masculina e ausência de uma estrutura familiar.

Um mundo onde alguns procuram sobreviver com a cata de lixo, com semblantes que se confundem ao que catam. Mas não deixa de ser um trabalho. E precisamos reconhecer que todo o trabalho carrega em si uma essência de dignidade. Nada disso, porém,  afasta a primeira consequência nas crianças desnutridas, porque sabemos que a deficiência proteica pode causar perda de massa muscular, afetar o funcionamento do coração, prejudicar o raciocínio. 

A Andréia sabe disso. Procura também soluções práticas imediatas. Vai com uma velha kombi em busca de alimento. Enche-a com verduras para distribuí-las. Nos cursos de orientação alimentar é repassado aos moradores a instrução de que das verduras podem ser feitas sopas e outros pratos saudáveis, que abrandam a fome e a desnutrição. Não é o suficiente. Mas já é alguma coisa entre esses seres humanos invisíveis aos benefícios sociais oficiais.

"Nosso trabalho social além dessas atitudes básicas abrange as famílias, ensinamos que, mesmo do pouco, dá para fazer alguma coisa. Levamos, quando conseguimos, roupas e calçados." — afirma Andréia. 

Sua preocupação se renova a cada dia. Terminado um turno, ela precisa pensar no dia seguinte. Essa é a sua rotina. Mas uma rotina que deixa diariamente belos rastos de soledariedade humana. Rastos que podem e devem ser seguidos por outras pessoas. 

 

Minha opinião sobre a Andréia

Depois de tomar conhecimento da Associação Beneficente da Andréia, me sinto na obrigação de divulgar a pessoa e o trabalho dela ao leitores da EXCLUSIVE Brasil Mundo. Ainda, lembrando que no dia 4 de agosto, a Andréia ao lado de outras 26 mulheres moradoras da grande vila Cruzeiro se formaram como PLPs (Promotoras Legais Populares), o que a capacita ainda mais ao seu belo trabalho.

A formatura foi promovida pela ONG Themis (Gênero, Justiça e Direitos Humanos).

 

 

Na foto, Andréia Paulon Pinheiro com suas colegas no feliz momento de comemorar a sua formação junto a ONG Themis. 

 

 

Sobre a ONG Themis

Foi criada em 1993 por um grupo de advogadas e cientistas sociais feministas com o objetivo de enfrentar a discriminação contra mulheres no sistema de justiça. A história da THEMIS  se confunde com as lutas e conquistas das mulheres brasileiras. Sua missão é ampliar as condições de acesso à justiça. É uma organização da sociedade civil com sede em Porto Alegre (RS/Brasil).

Seu trabalho está estruturado a partir de três estratégias principais:

  • Fortalecer o conhecimento das mulheres sobre seus direitos e o sistema de justiça. Para isso, a THEMIS criou o Programa de Formação de Promotoras Legais Populares (PLPs) que capacita lideranças comunitárias femininas em Direitos Humanos, Direitos das Mulheres, bem como explica o funcionamento básico de organização dos sistemas Justiça e do Estado;
  • Dialogar com operadores/as do Direito sobre os mecanismos institucionais que preservam e reproduzem a discriminação contra mulheres. Com este objetivo, foram organizados seminários, cursos, workshops e publicações, trazendo a teoria feminista do Direito para o debate jurídico local, e propondo novas abordagens para o uso do Direito;
  • Advogar em casos estratégicos para proteger e alavancar direitos das mulheres em esfera nacional ou internacional.

 

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