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O menino sírio e outras crianças

 Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

O menino sírio e outras crianças

 

Terminada a Olimpíada e a euforia dos jogos, o cotidiano volta à realidade com as suas muitas faces. Embora já noticiado, quero comentar a imagem daquele menino sírio, de 5 anos que ficou ferido durante bombardeios na quinta-feira passada (18/8) na cidade de Aleppo. 

 

Foto do menino sírio, identificado como Omran, no banco de uma ambulância.

 

A foto rodou o mundo, evidenciando o drama vivido pelos civis em meio à guerra civil na Síria. O garoto, identificado como Omran, foi resgatado de um prédio bombardeado, que em seguida ruiu. O destaque da foto é o estado impressionante da criança, muito suja, coberta de poeira, que se grudou ao sangue ressequido no corpo, parecendo uma pintura surrealista de mau gosto. A repercussão da imagem o transformou em menino símbolo.

Mas por trás dessa história sentimental, o que a maioria da imprensa não vê ou por comodismo, ou por falta de aprofundamento, que a crise motivada pelos refugiados está desafiando a estabilidade de todo o continente. Em fevereiro de 2016, a conferência de ajuda financeira à Síria (país profundamente dividido e radicalizado, em guerra há cinco anos), determinou a doação de 6 bilhões de euros em 2016 e outros 6 bilhões em 2017 àquele país. A Alemanha entrou com 2,3 bilhões de euros, que foi também o país que mais recebeu refugiados em 2015, quase 1 milhão de pessoas. Invevitavelmente, essa absorção gera custos extraordinários ao país (aos contribuintes), o que não agrada a todos. Portanto, escrever sobre um menino, ou sobre todas as crianças vítimas, não deve ocultar a origem de toda a crise e o intenso esforço dos principais países europeus em abrigar os verdadeiros fugitivos. Quem insinua no Brasil, a falta de ajuda humanitára por parte da União Europeia, está desinformado

 

Para quem está atento às histórias de guerra, principalmente na mídia quase onisciente de hoje, uma foto chamativa pode virar em uma imagem icônica. Lembro aquele menino de três anos de idade, cujo corpo apareceu trazido pelo mar, no dia 2 de setembro de 2015. A foto virou um dos assuntos mais  comentados no Twitter. O jornal americano "Washington Post"  classificou a imagem de "o mais trágico símbolo da crise de refugiados sírios do Mediterrâneo". 

Este menino, por sua vez, não foi vítima de um bombardeio, mas de um naufrágio, que tem por trás o lado sombrio dos chamados "coiotes", que lucram com os refugiados. "A travessia do Mediterrâneo é feita em botes ou em embarcações superlotadas, sem os mínimos requisitos de segurança, por traficantes de pessoas. A viagem pode custar mais de R$ 10 mil por pessoa, o que torna o negócio altamente lucrativo - uma única embarcação pode render US$ 1 milhão", comentou o jornal O Globo, denunciando o tráfico humano. Mais tarde identificaram   o menino como Alian, encontrado numa praia turca.

Até aqui não estou escrevendo qualquer novidade, apenas reproduzindo os fatos. A singularidade de um texto começa a partir da opinião pessoal. Segue a minha visão sobre o menino e as demais crianças vitimadas pela guerra na Síria.  

Um sono sem sonhos sobre o travesseiro de pedra. O choro desconsolado entre as ruínas. 

 

A situação de miserabilidade com os seus critérios mórbidos

 

Como mãe de duas filhas, fico arrepiada ao imaginá-las numa situação de refugiadas. Em primeiro lugar o seu ciclo de rotina se encontraria totalmente quebrado. Não teriam mais à disposição os seus smartphones e as mil trocas de mensagens entre amigas e amigos estariam terminadas.

Nem pensar, também, em atender a exigência de uma peça de roupa preferida, pois uma jovem refugiada não dispõe de trocas. Numa guerra, as crianças e os jovens, pelo determinismo das circunstâncias, perdem a sua fartura de opções de vestuário. Todo o conforto desaparece como a espuma ao vento. 

Os hábitos mais comuns, como a ida ao banheiro, deixam de existir. Banho e higiene, nem pensar. O ambiente é agora o de ruínas, de sujeira,  de cheiro de urina e de detritos. Isso também descarta um quarto privativo, uma cama macia. Agora tudo é preocupação.

O clichê de frases de aulas de teoria social, que condenam a vida burguesa, com bordões como esse: "riqueza e abundância não me dão felicidade e não me fazem falta!"... repetidos muitas vezes na retórica ideológica do regente da aula, perdem totalmente a sua essência, por que, em momentos assim, todas as teorias política, todas as ideologias grandieloquentes, caem por terra. A natureza bruta é diferente a todos os artifícios verbais e livrescos. A necessidade básica não aceita palavras, discursos, promessas, vozes proféticas, textos sagrados, consolos divinos. O corpo é natureza física e não pode ser alimentado com o estéril fonema de palavras vazias. A situação de miserabilidade com os seus caracteres mórbidos não é resolvida com consolos verbais. Crianças, jovens e adultos fugitivos de guerra, ao migrarem, não pensam em outra coisa senão na sobrevivência ao dia seguinte, seguida com a necessidade  absolutamente fundamental: água, comida.

 

O flagelo da fome 

 

Além da Síria há milhares de fugitivos vindos da Albânia, de Kosovo, Afeganistão, sem incluir a procedência africana. A fome com tudo o que ela envolve é a parte culminante vivida pelos migrantes. E o ponto mais sensível aos olhos do mundo, são as crianças. 

Knut Hamsun, escritor norueguês, Prêmio Nobel, em seu livro de título a Fome, descreve a experiência  na pele de seu personagem. Quero com a transcrição enfatizar as sequelas de uma das mais elementares necessidades humanas.

" (...) Todo o meu corpo tremia; vinham-me soluços profundos, de tempos em tempos... parecia que quase nada de vida restava em mim. De bom grado me deitaria na rua, de barriga para o ar, esperando a morte. De tanto sofrer, tornara-me cada vez mais obstinado. Havia picadas fortes nos meus pés machucados...o cheiro nauseante subia, por isso, apertei os punhos, comecei a chorar de desespero, a roer coisas, o coração parecia parar e, vomitei o que não tinha no estômago. Isso se repetia, repetia. Aí, em voz alta, condenei todos os poderes humanos às penas do inferno. Cheio de raiva impotente, tomado de fúria, lancei violentamente ao céu apelos e ameaças, gritei o nome de Deus com voz rouca, de ira concentrada, lancei anátemas, maldições, blasfêmias, recurvando os dedos como garras... Estava alquebrado, com vertigens, com estranhas visões.  Senti minhas pernas cada vez mais fracas, minha voz, sumindo... meu choro cada vez com menos lágrimas ... estava inteiramente tomado pelo poder da fome e, pela primeira vez, senti que a fome é uma assassina silenciosa e cruel. Ela mata, aos poucos". 

Quando não há mais o que comer e onde dormir, a condição humana degrada. Por isso, todos os maus governos e todas as guerras depõem contra a humanidade. Daí a necessidade de usar as crianças como símbolos de algo que a civilização achou estar livre ao criar a ONU: a guerra. 

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