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Conheça-te a ti mesmo

 

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

Conheça-te a ti mesmo

 

Com a indagação conheça-te a ti mesmo, o pensador quis dizer também, torna-te consciente de tua ignorância. Há pessoas que não a conhecem.

 

 

Semanas atrás escrevi uma crônica sobre a autoestima. Depois de publicada, a reli várias vezes, e achei que ela merece um complemento. Isto é, dar um passo além com um tema quase parecido: "conhece-te a ti mesmo". É uma inscrição milenar no pórtico do templo em Delfos. É atribuida também a Sócrates, a Platão e outros filósofos.

O que realmente significa conhecer-se? Um mergulho na filosofia grega, talvez, ajuda a responder. Ou pelo menos a entender um pouquinho melhor o assunto.

Nenhuma das culturas antigas levantou tantas perguntas como a grega. Por isso, quando alguém escreve sobre a sabedoria, inevitavelmente, pede um socorro à Grécia Antiga. Seus filósofos foram os primeiros a questionar a natureza humana em sua ignorância natural. Nasceu ali a consciência viva da indagação, a começar com Sócrates, que abriu clareiras diante do obscurantismo das crenças existentes. Com a indagação conheça-te a ti mesmo, o filósofo quis dizer também, torna-te consciente de tua ignorância – como sendo o ápice da sabedoria e a porta de entrada da ciência.

Com essa indagação nasce um mundo novo. O "conheça-te a ti mesmo" quebrou as pétreas obstruções da crença num destino externo cego e implacável, seja regido pelos deuses ou qualquer outra força. Surge como princípio uma valorização nova do ser humano, enfatizando a importância da individualidade. A pessoa é ressaltada como alguém que constrói o seu destino. Ela é a principal protagonista de seu enredo pessoal. Há uma espécie de emancipação, onde o indivíduo se liberta das amarras de uma crença coletiva e cega. Por isso, a cultura filosófica grega é reconhecida em todas as épocas como a maior libertação, que abre as portas para a busca da dignidade humana. O conheça-te a ti mesmo gerou pensadores, racionalistas, céticos e inquiridores, que legou conhecimentos práticas à humanidade.

Surge um mundo novo. Mas um mundo novo restrito. Restrito apenas aos pensadores, porque a sabedoria nunca conseguiu se massificar. O obscurantismo ainda continua a triunfar na maior parte da humanidade, porque as pessoas estão sempre mais propensas a acreditar que a pensar.

O Pensador é uma das mais famosas esculturas de bronze do escultor francês Auguste Rodin. Retrata um homem em profunda reflexão. A escultura está nua porque Rodin a queria dentro das concepções gregas e renascentistas. Há várias réplicas peleo mundo. 

 

Com a cultura filosófica a consciência de si próprio, surge essa cultura fantástica das leis objetivas, do princípio das causas e efeitos, da beleza da ordem e harmonia das formas, dando aos artistas a liberdade de representar o corpo humano nu, livre e descontraído, nas leis que governam a estrutura, o equilíbrio e o movimento real do corpo.

Essa cultura clássica ensina a estabilidade férrea de ordenar o pensamento através do raciocínio lógico, dando origem a oratória lógica, aos valores que são perenes. Mas valores que, hoje, são obstruídos por ideologias coletivistas, que, sempre de novo, como as velhas crenças, procuram converter o indivíduo a uma ovelha amestrada ao rebanho, fato denunciado por Allan Bloom em seu livro O Declínio da Cultura Ocidental. Uma crise provocada por uma pedagogia que procrastina em seu plano de ensino a leitura dos pensadores clássicos.

 

Conheça-te a ti mesmo, uma velha e batida frase, para ser entendida precisa ser vista em sua origem e em seu significado histórico. Ela foi a base da educação grega clássica, segundo a qual se devia formar o indivíduo.  Nesse princípio nasceu a psicologia moderna ao buscar as raízes da essência humana.  Uma essência cheia de conteúdos, que, somente em um bom tratamento psicológico a pessoa consegue perceber. Um conteúdo retratado por Freud como um porão escuro cheio de feras enfurecidas em permanente conflito entre si. As feras são os devaneios,  os desejos reprimidos, as megalomanias, os pesadelos. Mas há também o lado da luz matinal das potencialidades como forças ocultas capazes de engrandecer a individualidade.  

Assim, tomando a história como pano de fundo para o "conheça-te a ti mesmo", acredito que muitos mitos simplórios de tantas frases de autoajuda que proliferam na internet.  Tenho que a convicção de que essa frase vai além de uma busca de autoconhecimento. E por ser importante, a parte prática e objetiva, requer uma urgente volta a inclusão da leitura dos clássicos nos planos de ensino de nossas escolas. Aliás, diga-se, uma leitura de verdade. Leitura refletida. Leitura com re-leitura. Apesar da prodigiosa praticidade, a internet ocupa tanto as pessoas, principalmente jovens, que perderam o hábito de leitura. Pesquisas mostram que vamos chegar a uma população de alfabetizados quase-analfabetos, por causa da perda do domínio da escrita.

 

Agora, quero dar um segundo enfoque ao meu tema. Transcrevo uma frase de Beyoncé, que acha oportuna ao assunto. "O mundo vai lhe enxergar como você se enxerga. "

"O mundo vai lhe enxergar como você se enxerga". Esta frase está na revista Elle, — revista feminina de moda e estilo de vida. Foi dita por Beyoncé, uma das mais bem-sucedidas mulheres no cenário pop internacional. Além de bonita, ela é multitalentosa: cantora, compositora, atriz, dançarina, coreógrafa, arranjadora vocal e empresária. Teve uma infância regrada e frequentou boas escolas americanas. Cedo ficou famosa alcançando notoriedade e admiração.

 

A frase, no meu ver, tem uma estreita ligação com a frase "conheça-te a ti mesmo". A pessoa tem que conhecer-se para se corrigir e se enxergar positivamente, para que o mundo também a veja positivamente. A pessoa tem que saber que a sua vida interior está em constante dinâmica, que se confronta com a dinâmica do mundo externo. Os fundamentos íntimos se encontram em permanente conflito com os valores sociais vigentes. A pessoa precisa de forma imperativa ter noção de si, sobre o que ela é e o que ela não é. Sobre o que é capaz de fazer e sobre o que não é capaz de fazer. Precisa enxergar-se. E com essa visão de autoconhecimento - "conheça-te a ti mesmo",  ajustar a vida pessoal com a realidade externa (evitar conflito, desfazer contradições, buscar coerência).

Esse processo leva a uma significativa mudança de atitudes. Um processo que conduz o ser humano à beleza do lugar que se chama originalidade. Vou colocar alguns sinônimos para reforçar o pensamento: autenticidade, sinceridade, propriedades nas quais os outros podem atribuir fé ao que a pessoa faz.

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