logo
barraCinza
barraBranca

Volto à infância e ouço meu pai contando

Por Mariza Baur

 

O ano em que o "Onze de Agosto" misturou o Dia do Advogado com o Dia do Papai

 

PORQUE HOJE É 11 DE AGOSTO DE 2013   

 

Tanta coisa se mistura dentro de mim, neste dia que é do Papai e do Advogado. Volto à infância e ouço meu pai contando a história da princesa Catotinha, a personagem inventada por ele para nos distrair nas tardes de domingo. Depois, se formos crianças comportadas, vamos jogar damas e, quem sabe, banco imobiliário. E meus irmãos e eu pulamos de alegria. Volto à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco que me faz advogada, dá-me duas turmas, amigos, profissão e o sustento. Sei que não poderia ter escolhido melhor curso, quem nasce com o vírus da indignação tem sede de justiça. Volto ao domingo em que papai convence o coelho da Páscoa a nos trazer os ovos. Acordem seus preguiçosos – papai grita – o coelho, olhem o coelho!... E nós corremos, tropeçamos nos móveis, perdemos os chinelos e, chegando ao quintal, cadê o coelho? Ah! vocês demoraram, diz papai, no seu sotaque alemão, vejam as pegadas no muro. Papai passara horas desenhando as pegadas (a empregada nos segredou), mas nós não queremos saber a verdade, acreditamos na visita do coelho. E recolhemos as balas, os pirulitos e os minúsculos ovos de chocolate, espalhados pelo jardim. Ah! papai-coelho generoso, nenhuma Páscoa foi igual àquela.

Volto a um onze de agosto da década de mil novecentos e setenta, tenho vontade de dar um “pindura selvagem”, falta-me coragem. O máximo que nos permitimos, Soninha, Angela (amigas da vida inteira) e eu: receber umas balinhas da Kopenhagen, apresentando o ofício da Faculdade. Volto a um Natal, papai desempregado nos dá um único presente: a coleção dos livros de Grimm. Volto ao dia da minha formatura, papai-emocionado chora e me escreve um cartão: vale um anel de rubi. E me deixo embalar nas lembranças paternas, de mais de meio século. E só me doem as palavras que eu não lhe disse, papai, as perguntas que não fiz, nesta relação pai-filha, que nada tem de trivial. E ainda me encantam as recordações do mundo do Direito. Uma vez advogada, advogada para sempre, mesmo tendo caso firme com a Literatura.

E retorno a este 11 de agosto de 2013. O sol, enfim, vence a luta contra cinza, e aparece tímido na tarde gelada, aqui em Gramado. Almoço com a jornalista Themis Vianna e seu pai, Luís Carlos. Conto-lhes que procuro um elo entre o dia o papai e o dia do advogado. Recebo de Luís Carlos a palavra certa: defensor. Pais e advogados sabem conjugar o verbo defender. Pais defendem seus filhos, os protegem para sempre, apesar de tantos apesares. Advogados defendem os clientes. Então, meus vivas a todos os pais e advogados. Não importa se o pai está por aqui ou se já botou asas, voou pro céu e virou estrela. Papai partiu faz cinco anos. Pouco antes de morrer contou-me um segredo: o primeiro dia em que faltou ao trabalho foi quando eu nasci. Obrigada, Papai!

O tempo mágico da minha infância ao lado do meu pai.

Dia dos Pais

institucional anuncie contato