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Dia dos pais sem retoques

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

Apesar do Dia dos Pais ser explorado de forma muito oportunista pela mídia comercial (sempre preocupada com o índice de vendas), a data, no entanto, tem o seu mérito. No convívio familiar ela inspira textos, mensagens e motiva abraços e presentes.

Há muitas imagens belas e significativas na mídia eletrônica, que demonstram carinho e ternura de filhos aos seus pais. Escolhi algumas para compartilhar com meus leitores, antes de iniciar o meu texto:

Crédito fotográfico: www. BestLove.

 

Dia dos pais sem retoques

 

Dia dos Pais é uma dessas datas que envolvem a estrutura familiar. Pai, mãe, irmãos, tios e avós, são os protagonistas dentro de uma família, em cuja companhia as crianças crescem e se desenvolvem. É o círculo do álbum de fotografia da família tradicional.

Sei que a chamada família tradicional na vida urbana atual tem suas dificuldades para se reunir, uma vez que, hoje há um número grande de opções para cada um.

Mas, de qualquer forma, o perfil do pai ainda gira, embora com menos intensidade, em torno da figura arquetípica de provedor, protetor, guia e educador. Claro, na maioria dos lares, a mãe também se tornou provedora ao exercer uma vida profissional. E quero deixar claro, estou falando da família estruturada, o que não excluí as muitas separações, os novos lares, irmãos simultâneos de nova união trazidos pela esposa e pelo marido de casamento anterior. É importante lembrar que a figura paterna nem sempre é a do pai biológico, ou do pai ausente. Na falta deste, a criança encontra outras referências, como tios, avós, em certos casos, até o padrasto.

A relação emocional pai-filho, independente da época ou lugar. Não é preciso ser psicólogo para enfatizar essa importância ao desenvolvimento emocional da criança. Portanto, seja como for, o pai é uma referência dentro de casa. E muito mais. Pai é uma referência para a vida inteira, mesmo que tenha falhado muitas vezes. Ainda, muito importante, o pai é único. Vive apenas uma vez. É aí que encontro um pequeno fundamento para comemorar o Dia dos Pais, que vai muito além de um simples presente formal.

A verdadeira comemoração leva à reflexão sobre esse ser humano que caminha o mesmo caminho de todos os mortais e, em algum dia do futuro, os seus passos irão parar.  Falo daqueles filhos que ainda têm pais vivos, entre os quais me incluo. Aqui chego ao âmago do meu texto, destacando a ventura de ainda poder abraçar e parabenizar o meu pai no seu dia e ao contrário, também, receber dele o carinho. O que já não acontece com a amiga da minha filha Pamela, que durante essa semana se defrontou com aquele momento que toda filha teme.

O abraço afetuoso do meu pai, Luiz Carlos Vianna, que emocionado e com lágrimas nos olhos vibra pelo lançamento do meu livro sobre o meu avô, Hermes Pereira de Souza.  

 

A Pamella Campos perdeu o seu pai José Carlos Fernando Campos — conhecido como Caio — ainda muito jovem, aos 54 anos. Estava em coma durante dias, e, para surpresa de todos, incluindo a equipe médica, o Caio, de repente, despertou. Suas palavras estavam muito fracas, mas o suficiente para pedir um telefonema para suas filhas e balbuciou: — "Pamella, Manuela,— eu amo vocês!" Poucas horas depois, o coma voltou, e desta vez, para levá-lo definitamente ao sono eterno.  

A morte de Caio, um pai muito carinhoso para as filhas e meu amigo. Quem parte prematuramente abre um vazio imenso. Estremece os alicerces de um lar. Todas palavras de consolo, todos os votos de pesar, toda a filosofia, todas as teorias de consolo, diante da face fria da morte, não são suficientes para abrandar os corações destroçados da família que o perdeu.

Pamella em um momento de ternura junto ao seu pai, o Caio. Uma imagem que se metamorfoseou para ela. Pamella afirma: "esta foto é a que mais amo, representa perfeitamente o seu carinho por mim e todos nós. Uma pessoa sempre sorridente, otimista, alegre, brincalhona... tudo isso vou lembrar todos os dias da minha vida!"

 

Minha mãe, Maria Tereza, se identificou plenamente com essa dolorida vicissitude da Pamella. Também perdeu o seu pai prematuramente, Mal tinha vinte anos, quando o seu pai, numa tarde de sábado, diante da visita de um amigo, dobrou os joelhos e tombou para não acordar mais. Um ataque fulminante o levou para sempre. Esse golpe tirou-lhe o arrimo de carinho e mimos, que recebia dele todos os dias. Esse pai que fora um grande homem público, deputado estadual, constituinte, deputado federal e promotor de justiça, faleceu aos 58 anos. Minha avó jamais se recuperou do golpe e, minha mãe, por sua vez,  viu o seu futuro sentenciado a caminhos jamais imaginados.

Hermes Pereira de Souza, meu avô, é o nome que minha mãe recorda nesse Dia dos Pais. Tive a alegria de homenageá-lo com um livro biográfico na Feira do Livro em 2014. Eu não cheguei a conhecê-lo porque faleceu antes do meu nascimento. Mas vivi na companhia da minha avó e da minha mãe, que continuamente falavam dele. Essas falas me acompanharam a infância e a adolescência, e, em parte, tenho a sensação como se tivesse convivido com ele.

Minha mãe, Maria Tereza, ao lado do seu pai durante o Baile de Debutantes no Clube do Comércio em Porto Alegre. Uma foto consagrada pelo significado para a memória da família.

 

Lembro mais uma vez, que o Dia dos Pais, apesar de excessivamente comercializado, mesmo assim oportuniza momentos de profundas reflexões. E quando a gente começa a pensar, dá para perceber duas categorias de filhos e filhas: aqueles que têm um pai ainda vivo e aqueles que perderam definitivamente a sua companhia.

A minha situação é a primeira. Já a minha amiga Pamella,  vivenciará neste domingo o primeiro Dia dos Pais sem o seu pai. Contra os séculos da eternidade e as horas do resto de sua vida, viverá a sentença do "nunca mais".

Podemos imaginar a extensão de sua dor. Já li declarações de pessoas que passaram por essa experiência: "Se eu soubesse que ele partiria tão cedo, eu mudaria o rumo de diversos momentos. Insistiria mais em sua presença ao meu lado, muitas e muitas vezes. Curtiria a sua companhia, absorveria cada uma de suas palavras, focaria cada um dos seus gestos, acompanharia todos os seus passos. Agora é tarde. Não tenho mais chance de presenteá-lo, nem envolvê-lo em meus braços e muito menos dizê-lo feliz Dia dos Pais".

Nesse momento enfatizo que um pai e uma mãe caminham a nossa frente no tempo. Nunca sabemos quando o arcanjo colocará as suas mãos sobre o seus ombros. A sabedoria nos ensina que o momento a ser vivido ao seu lado tem uma única palavra: Agora! 

Não amanhã. Não depois.

Acho que essa é a minha reflexão sobre o título da crônica: Dia dos pais sem retoques.

 

 

Um momento de glória e felicidade, na Feira do Livro em 2014, o abraço do meu pai durante o lançamento do livro biográfico sobre o meu avô Hermes Pereira de Souza. Um dia de muito orgulho, também para a minha mãe, Maria Tereza, pela memória de seu querido pai.

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