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Cidade maravilhosa cadê você?

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

Recebi um e-mail da minha amiga Gisele Danin. Na verdade, é mais do que um comunicado eletrônico. É uma crônica de desabafo. Alguns acontecimentos recentes a motivaram a comparar a França com o Brasil, principalmente com o Rio de Janeiro. E este será o assunto desta matéria.

A Gisele mora na França há quase 20 anos. Doutorou-se em História e se especializou em turismo. Hoje é guia turística naquele país além de presidir a Alliance Bayeux France Brésil. 

Para o leitor entender, a Gisele é uma carioca apaixonada pelo Rio de Janeiro, onde nasceu e cresceu. Mas pelas circunstâncias da vida optou por morar na França. Tem facilidade em comunicação, fala quatro línguas, que são credenciais que a ajudam na sua profissão. Suas raízes naquele país estão bastante sólidas, motivadas pelo casamento e pelos dois filhos dessa união.

Seu lado brasileiro e sua índole carioca fizeram dela uma incansável porta-voz  de sua cidade natal. Procurou sempre defendê-la ao enfrentar perguntas ácidas e contundentes sobre o desmoronamento do Brasil. Recentemente, o Rio de Janeiro centraliza o foco midiático por causa da Olimpíada. Mas diante dos últimos acontecimentos de violência, que não podem ser subestimados ou minimizados, uma vez que as redes sociais estão aí com os seus olhos onipresentes, a Gisele está começando a sair da defesa para ir ao ataque. Como vamos ver na sua crônica (que será transcrita na íntegra): "Eu já pensei voltar ao Brasil, mas  a criminalidade, a violência, a insegurança, a impunidade me repulsam (...) daí o meu desabafo, minha frustração e minha denúncia". 

 

Desabafo ou só tristeza

Crônica enviada por Gisele Danin

 

Sou guia turistica e tenho a dupla cidadania : brasileira e francesa. Hoje, 16 de julho de 2016, poderia estar escrevendo palavras de alegria sobre os meus dois países de coração: o Brasil e a França. Dois dias atrás, o que era para ser festa e alegria, tornou-se em tragédia e dor. Vivemos na França mais um ato terrorista, onde pereceram 84 inocentes, na cidade de Nice. Entre as vítimas, estava crianças. No mesmo dia, em terra brasileira, a televisão mostrou um ataque covarde de um homem, saindo do nada, ferindo mortalmente uma mulher com dois golpes de faca no pescoço. A filha dela, viu tudo, e seus gritos não só apavoraram aos que estavam próximos, na rua, mas também a todos que viram a cena na TV. Essa cena me fez chorar. Chorar muito. Eu tenho dois filhos. Muita coisa passou na minha cabeça. Eu me revoltei. Revoltei com o terrorismo aqui e, a minha gota de água com o Brasil, transbordou. O crime encontra-se sem freio e corre acelerado. Não há rua, não há bairro, não há lugar sem a presença da ladrões, traficantes e assassinos na minha cidade natal. 

Eu nasci e fui criada no Rio de Janeiro, havia crime, sim, mas não desse jeito. Nas favelas ouviam-se pandeiros, onde o refrão era: Lapa, samba, cavaco, pandeiro e tamborim. As crianças pequenas acompanhavam rindo e pulando o ritmo dos instrumentos, às vezes, até improvisados.

As ideologias mudaram o nome de favela para comunidade como seu o conteúdo mudasse com outro envoltório. Em lugar do cavaco, do pandeiro e do tamborim, a favela ouve o estampido frenético dos fuzis e das metralhadoras dos traficantes, que ditam suas leis de silêncio, calam a alegria das crianças ou as usam como escudos humanos. 

Choro porque minha cidade natal querida, tão bonita nos cartões, está possuída, cercada e dominada pelo crime. Por trás desse desmoronamento social, público, corre o corrupção entranhada nos governos, que se diziam sociais, representantes dos "excluídos". Choro por causa dos saqueadores do meu país. Choro porque os incompetentes e inadequados procuram se perpetuar no poder.  Não foi isso que se viu ao se elegerem. As promessas populares foram as armas poderosas de aliciamento ao voto. Uma vez eleitos, eles experimentaram o poder por mais de uma década. Sentiram, gostaram e se engalfinharam na vida burguesa (que em seu discurso socialista combatiam). Hoje fazem festas opulentas, de 600 mil reais e mais, tudo com dinheiro público. Saquearam as estatais, arruinaram a maior delas. Coitada da Petrobras.

Eu sempre procurei explicar aos turistas do mundo inteiro, que conduzo pela França, que o Brasil é bonito, que o Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa. Que o Brasil tem uma flora e uma fauna exuberante, que tem as crianças mais alegres, as quais dançam sob o ritmo do pandeiro. Que o Brasil não é só do futebol e das prostitutas. Que eu sou negra, vim do Brasil, e hoje estou na França, falando quatro línguas, incentivando a memória histórica, dando palestras e guiando turistas. 

Mas hoje chorei porque o meu Rio de Janeiro do tempo de menina está se dissolvendo numa metamorfose parecida àqueles filmes nos dão pesadelos. Chorei porque a imagem daquela menina que implora por ajuda para a mãe, que estava desacordada no banco dianteiro do táxi. Aquela criança que tenta conversar com a mãe coberta de sangue. Choro por causa dquela criança gritando por ajuda. Choro de revolta pelo assassinado frio e cruel. Choro de inconformação, porque o Rio de Janeiro vive o terror da violência ditada pelo tráfico de drogas. Um terror que não ataca uma vez por mês, uma vez por ano. Ataca todos os dias, todas as horas. E este terror é pior ao terrorismo que sucede na Europa.

Falta no Rio de Janeiro, falta no Brasil inteiro uma ação governamental determinada em governar para a nação, não para corporações, não para partidos, não para ideologias. Falta ação judicial rápida. Há leis demais, recursos demais, direitos demais para o criminoso. Há muita hipocrisia em falsos direitos humanos, que defendem os bandidos. A impunidade é a ferida aberta e visível da corrupção latente nas vísceras dos poderes que governam o país.

Repito, eu já pensei em voltar para o Brasil e morar no Rio pois eu amo esta cidade, a minha cidade. Mas desisti. Como educaria meus filhos? Em escolas públicas onde os professores fazem greves intermináveis? Onde os professores não têm autoridade em sala de aula? Onde as aulas, quando há, são bagunça, com raras exceções? Por outro lado, as escolas que ainda têm algum ensino recomendável, as particulares, são inacessíveis, algumas custando mais de dois mil reais ao mês.  

A criminalidade crônica é pior do que uma guerra. Na guerra declarada o soldado tem um objetivo e caso morra em uma batalha esta cumprindo com o seu dever, e morre como heroi da pátria. No Rio de Janeiro onde corre a "guerra" não declarada, a dona de casa que nao tem dinheiro para dar ao ladrão é esfaquada e nem sequer é atendida com digidade nos seus últimos momentos. 

Cadê a cidade maravilhosa? Seus filhos estão morrendo, seu nome está sujo, suas cores estão desbotadas. As ciclovias desabam por corrupção e incompetência. Os estádios em eternas reformas com preços superfaturados às custas do dinheiro público. Onde estão os ativistas das redes sociais, do facebook e outras mídias?

Acorda cidade maravilhosa! Rivière de Janvier, January River em qualquer que seja o idioma, Rio de Janeiro, cadê você?

 

 

Gisele Danin à esquerda com Themis Pereira de Souza Vianna em junho de 2014, durante as comemorações dos 70 anos do Dia D. 

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