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Onde se encontra o seu pé de apoio?

Onde se encontra o seu pé de apoio?

 

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

 

— O que a pessoa faz com a sua vida não interessa a ninguém. Sou dona do meu nariz. Eu quero fazer o que eu gosto e ponto. — Essas afirmações são muito recorrentes na adolescência, quando o jovem busca libertar-se da tutela familiar. Mas não é bem assim. O assunto merece ser aprofundado. A reivindicação de autonomia pessoal  absoluta, no entanto, não é um privilégio do adolescente.  Vale para todas as idades.

Cada pessoa tem o seu lugar, sabe de quem recebe ordens, a quem deve obedecer, com quem precisa conviver. Enfim, no palco da vida, ninguém está sozinho. Cada um tem o seu papel. O seu dever a cumprir. E precisa conviver com todas as circunstâncias. Conviver significa interagir. O que significa dividir. Repartir. Tolerar. Ceder e cumprir obrigações. Isto requer um tratado de tolerância diária.  E bem aqui, no topo desses degraus de convivência encontra-se a fascinação pela liberdade, que acena com uma vida sem restrições, sem controle, sem limites.  Uma fascinação que leva uma mulher ou um homem a morar sozinho.

Em 2014, 70 milhões de brasileiros moravam sozinhos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em dez anos, houve acréscimo de 13,8 milhões de pessoas nesse grupo.  Em paralelo, aumenta também o número dos que se declaram solteiros, um percentual que atinge 48,1%. Se considerados os que se declararam divorciados/separados ou viúvos, o índice de pessoas fora de um relacionamento formal chega a 60,1%. Os dados de 2016 mostram que há 77 milhões de brasileiros solteiros.

Entre os solteiros podem estar, por exemplo, casais que têm relação estável, morando ou não no mesmo domicílio, e boa parte deles morando independentes, mas junto com os pais,  da chamada geração canguru.

O quadro estatístico indica o fenômeno de novos valores, principalmente, nos grandes centros urbanos. Os papéis das relações encontram-se em constante mutação.

Como tudo, o novo fenômeno social visto no fator causa e consequência, indica que as pessoas que se desvincularam da família estão mais propensas à depressão. Fora do controle familiar tendem a abusar do álcool e das drogas. Desandam facilmente nos abusos que, pouco a pouco, devoram as relações, devoram o corpo e devoram o equilíbrio mental.  A vida é constituída por uma determinada sequência de acontecimentos, que por sua vez são determinados por uma sequência de nossas escolhas e de nossas atitudes.

Isso não significa que todas as pessoas que moram sozinhas tenham esse perfil.

A morte da Miss Brasil 2004 Fabiane Niclotti, de 31 anos, em Gramado, tem sido muito explorada por ter sido encontrada sozinha em seu apartamento. Relatos indicam que ela se tratava contra a depressão, uma contradição ao seu perfil gentil e carinhoso, conforme descrito pelas amigas e amigos.

A morte dela causou grande impacto como a de toda a pessoa que morre jovem. No entanto, a morte da Fabiane foi diferente. A notícia ganhou imediatamente repercussão nacional e mundial, pois se tratava de uma ex-miss Brasil. E o lado mais dolorido do fato atingiu o âmago da sua família.

Uma matéria do jornal O Globo, de outubro de 2015, divulgou que o suicídio é a segunda maior causa da morte de mulheres jovens em São Paulo. Boa parte delas moravam sozinhas.

Estatísticas de lado, o grito por liberdade pessoal, o desejo de explorar horizontes novos, muitas vezes, tem um preço alto, a solidão e a depressão. As pessoas precisam de aceitação, respeito, reconhecimento, todas as soluções possíveis para resolver os seus conflitos possíveis. Suas carências internas e externas, reparos e traumas podem ser encontradas em um convívio familiar sadio. É por esse motivo que as pessoas constituem famílias, têm filhos, não importando o modelo com o sem certidão de registro. O carinho e o calor humanos das outras pessoas são o nosso melhor endereço existencial.

A velho clichê que enfatiza alguém ser "dono de seu próprio nariz" é bastante questionável diante das necessidades mais elementares de qualquer ser humano.

Muita coisa de nossa vida pessoal se resume, não onde moramos, mas onde se encontra o nosso pé de apoio.

 

 

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