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EVA SOPHER “O mais importante é a obra, não a gente”

 

 

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

 

Foto: www.rs.gov.br Eva Sopher com a então governadora Yeda Crusius

 

 

E assim vai a vida. Recebi com muita tristeza a morte de Eva Sopher. E, tenho certeza, o mesmo sentimento é comungado por muita gente. Ela sempre se caracterizou como uma pessoa muito simples e carinhosa e, acima de tudo, como uma das grandes incentivadoras teatrais que o Brasil teve. Para nós gaúchos, o principal elo de seu trabalho é com o Theatro São Pedro. Em 1975 foi chamada para restaurar essa importante casa de cultura  e também para ser a Presidente da Fundação Theatro São Pedro, tarefa na qual ela se consagrou.

A vida dela, em si, é uma história de superação. Alemã de família judia, nasceu em Frankfurt am Main. Nascida logo após a Primeira Guerra Mundial, seus pais viveram as agruras da pesada indenização imposta à Alemanha pelo Tratado de Versalhes. A consequência imediata foi uma gigantesca e crescente inflação, o que atingiu a economia e provocou desemprego em massa. Os ânimos políticos ficaram acirrados, desencadeando ondas de protestos. Os problemas econômicos causados pelo Tratado propiciaram a formação de grupos políticos radicais, entre eles, um liderado por Adolf Hitler. Este conseguia cada vez mais adesão popular até chegar ao poder. Em outras palavras, a Alemanha caiu em mãos dos nazistas. Entre as primeiras vítimas do novo regime estavam os judeus. Assim, em 1936, seus pais decidiram deixar a Europa.

Chegando ao Brasil, ainda uma adolescente, mas bem escolarizada, ligou-se no Rio de Janeiro ao grupo Pro Arte de Theodor Heuberger. Depois foi morar em São Paulo onde se aprofundou em arte e teatro. Somente em 1950 conseguiu o direito de nacionalidade brasileira. Casou com Wolfgang Klaus Sopher, que, em 1960 foi transferido profissionalmente para Porto Alegre. E, aí começa uma nova etapa em sua vida.

Apesar dessa vicissitude histórica devido a sua origem judia na Alemanha nazista, ela sempre se orgulhou de falar fluentemente a língua alemã, fato que enfatizava ao ser entrevistada.

“O alemão é a minha língua materna e fui alfabetizada nela. Isso me ajudou muito aqui no Brasil. Sai da Alemanha em 1936, mas cheguei a Porto Alegre em 1960, por causa da transferência de trabalho do meu marido. Encontrei muitos alemães e vestígios de seu trabalho. E, graças à língua alemã, mantive contato com artistas europeus e consegui trazer para cá vários grupos de teatro e, principalmente, os atores do Deustschekammerspiele. De 1960 a 1982, trazia-os uma vez por ano a Porto Alegre. Hospedei na minha casa muitos artistas da Alemanha e eles se sentiam em casa por causa da língua”, disse. “Eu estou ligada com a cultura alemã desde o meu nascimento”, afirmou Eva Sopher em uma entrevista em vídeo com o título Ich Spreche Deutsch (eu falo alemão) para o Consulado Geral da República Federal da Alemanha de Porto Alegre.

Neste vídeo ela demonstra a sua versatilidade na língua germânica e faz parte da entrevista falando em alemão.

Mas a sua atuação cultural foi bem ampla, interagindo com outras nações. Trouxe para o Theatro São Pedro a Orquestra de Câmara de Moscou, e a Orquestra Sinfônica de Israel, regida por Zubin Mehta. Trouxe também Jean-Pierre Rampal, conhecido como o "Homem da Flauta de Ouro" por ser o dono da única flauta em ouro manufaturada pelo célebre fabricante de Flautas Louis Lot. Rampal. O destaque foi conseguir a vinda de uma das mais antigas orquestras da Inglaterra (e ainda atuante), a Orquestra Hallé. O nome se deriva do seu primeiro maestro, o anglo alemão Charles Hallé, que a regeu de 1858 a 1895.

Tais façanhas de Eva Sopher colocaram-na no topo das celebridades culturais gaúchas e brasileiras.

Como tudo da vida, o mais coroado palco cultural gaúcho sofreu a ação do tempo. O prédio mostrava fadiga em sua estrutura e clamava por reformas. Mais uma vez, ela entrou foi chamada, desta vez para a obra de restauração do Theatro São Pedro.

Theatro São Pedro em Porto Alegre

 

Por fim, o reconhecimento público veio ao seu encontro. Recebeu a Medalha do Mérito Farroupilha, a maior honra concedida pelo Legislativo gaúcho, o prêmio Personalidade Top Ser Humano 2008 da Associação Brasileira de Recursos Humanos, seccional Rio Grande do Sul. Esta, talvez, a maior de todas as honrarias, por ser uma das premiações mais cobiçadas no Brasil na área de Recursos Humanos. Complementando, foi escolhida como patronesse do festival Porto Alegre em Cena de 2006.

Faltava-lhe, porém, o reconhecimento internacional. E este veio da Alemanha, onde recebeu aos 92 anos de idade uma das maiores honrarias culturais, a “Medalha de Goethe”, por ter conseguido trazer ao Brasil tantas nacionalidades artísticas, resultando também como um trabalho de interação cultural internacional.

Três anos depois desta homenagem, Eva rendeu-se ao descanso final.

E, não poderia ser diferente, o seu último grande tributo aconteceu num dos seus lugares mais amados: o Theatro São Pedro, que acolheu o seu velório e a merecida homenagem dos seus admiradores.

E nós, o que nos lembraremos dela? De minha parte, fica uma de suas frases mais usadas: “o mais importante é a obra, não a gente”.

 

 

Frankfurt, cidade natal de Eva Sopher

 

É também a cidade natal de Goethe, de Anne Frank. A capital financeira da Alemanha e sedia o Banco Central Europeu. A cidade é listada como as dez cidades globais alfa do mundo. Tem 30 teatros, 53 galerias de arte e 60 museus, sendo 13 deles no Museumufer, a rua que margeia o Rio Main, pelo seu lado sul. A universidade da cidade, a Goethe-Universität, conta com 45.000 alunos. Os turistas podem visitar a casa onde nasceu Johann Wolfgang von Goethe (de onde deriva o maior prêmio que Eva Sopher recebeu). A casa está localizada em Großer Hirschgraben, e foi em Frankfurt que ele escreveu "Os Sofrimentos do Jovem Werther".

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