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Ela virou uma estrelinha

Um ano de estrelinha

 

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

Há frases que nos impressionam. Nos tocam e nos fazem refletir. Essa sensação a senti hoje ao ler no Facebook da minha amiga Carol Teixeira uma alusão que ela faz de sua mãe: “Ai que saudade, faz um ano que ela virou estrelinha”. Com essa pequena e singela frase ela presta homenagem à sua mãe, que, no dia de hoje (02/10), completa o primeiro ano da sua partida.

Sinto-me na obrigação de escrever algo. De comentar. E começo, afirmando, que o mundo das mães é sempre misteriosamente belo. É o encanto daquela atmosfera onde só se respira pureza e amor. É arrebatador penetrar nessa gloriosa luz final e sentir na alma o doce esplendor de uma transfiguração. A problemática da vida com os seus espasmos de sentimentos perturbadores se esvanece e a gente penetra num mundo regido por outras leis. E tudo o que nos magoa, o que nos ameaça e o que nos fere, some, desaparece, para nos imergir numa profunda paz.  Um mundo longe de toda agitação profana, que em nossos dias cansados, ansiamos.

A Carol é filósofa e escritora. Tomo a liberdade para transcrever uma parte de uma crônica, que ela escreveu, no site da EXCLUSIVE Brasil Mundo, referindo-se ao profundo vínculo com a sua mãe, no começo da enfermidade:

“Pois sempre coloquei o amor como peça central da minha vida. Aprendi em casa o quanto os gestos de carinho e generosidade são eternos e a repercussão que eles têm ao meu redor. Lembrei desse livro semana passada, quando estava no hospital com minha mãe, que agora está bem, mas passou vários dias internada com pneumonia e apendicite. Ela foi, sem dúvida, a responsável por eu nunca considerar o amor assunto menor na minha vida. Ela é tipo de pessoa que tem uma generosidade desmedida e incondicional e uma simpatia linda, sincera, daquelas que geram sorrisos inevitáveis. No terceiro dia o quarto dela já era hit entre os quartos do hospital, parecia uma festa. A cada entrada de um novo enfermeiro ou enfermeira surgia um novo papo, uma brincadeira, comentários sobre a novela, um agrado. Um deles chegou a comentar que um outro tinha dito: ´Você ainda não foi lá? É o quarto mais divertido!´ Era a energia de amor da minha mãe transbordando em forma de leveza mesmo num momento difícil”.

“Minha mãe deitadinha na cama e eu no sofá do lado, dia e noite, durantes os dias que ela ficou no hospital. E ela me dizia ‘não precisa ficar’. Mas não era questão de ‘precisar’, eu respondia. Era o caminho natural do ciclo que ela gerou: o amor que ela me deu, eu ali retribuía. Como fiquei muitos dias lá com ela – e não há muito o que se fazer num hospital - fiquei contemplativa e filosófica, pensando na beleza do Tempo e no quanto devemos fazer as pazes com ele. Pensei na passagem das gerações, no aprendizado que vem com os anos, nas lições que levamos de cada pessoa que toca nossa vida. No amor. Lembrei da carta que meu pai escreveu para a família antes de morrer na qual ele dizia que ‘nenhum homem é uma ilha’. Frase tão básica mas tão verdadeira. Eu pensando em tudo isso e minha mãe ao lado, em um desses dias, quase dormindo, me diz baixinho: ´Eu ensinei e vocês aprenderam´. Sim, eu tinha aprendido. Em um mundo sem deuses e pátrias pautando nossas ações, a única coisa que temos é um ao outro. E não precisei ir muito longe pra entender isso. Minha revolução do amor começou em casa”.

Esse texto foi escrito três anos antes dela falecer. Um texto, que, com certeza, a Lelete, mãe da Carol, leu e guardou em seu coração.

É em vida que prestamos a verdadeira homenagem aos nossos queridos. A Carol acertou. Escreveu a crônica acima, em tempo. Depois, é só saudades. Depois, só podemos honrar suas memórias. E,para homenageá-la, de forma poética e filosófica, a Carol, colocou essa afirmação que volto a transcrever:

“Ai que saudade, faz um ano que ela virou estrelinha”.

Amor - Mãe

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