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Discurso de Hermes Pereira de Souza em 1952

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

Um achado importante

 

Dia desses, debruçada sobre aquelas coisas antigas, que boa parte das famílias guardam, encontrei uma publicação integral de um discurso proferido pelo meu avô, Hermes Pereira de Souza, então deputado federal, numa sessão de 16 de outubro de 1952, na cidade do Rio de Janeiro. O discurso foi apresentado ao Conselho Nacional do Partido Social Democrático (PSD), reunido para se posicionar ao apelo feito pelo presidente da República, Getúlio Vargas, feito em 3 de outubro de 1952.

 

Getúlio precisava apoio do PSD

 

O motivo do discurso foi o pedido que Getúlio Vargas fizera ao PSD para apoiá-lo nos projetos governamentais, uma vez que se abatera sobre o governo federal uma grave crise econômica e política, definido pelo próprio mandatário como "situação de falta de ordem administrativa".

Vargas necessitava veementemente do apoio do PSD, que, na época, era o maior partido do Brasil e fazia oposição. A inflação se expandia paralela com o aumento do desemprego e a impopularidade do governo. Daí a busca de apoio ao PSD.

O segundo governo Vargas, iniciado em 31 de janeiro de 1951  foi marcado pela retomada da orientação nacionalista, cuja expressão maior seria o projeto de criação da Petrobras. Outra marca importante do período foi a progressiva radicalização política voltada ao populismo inconsequente. Do início ao fim do governo, Vargas enfrentou cerrada oposição da UDN e em especial do jornalista Carlos Lacerda, que insistia no perigo de Getúlio Varbas vir a rasgar mais uma Constituição, como o fizeram na década de trinta.

 

Sobre a descoberta do discurso do meu avô

 

Antes de transcrever literalmente o discurso do meu avô, acho importante manifestar a minha emoção sobre essa descoberta, que considero mais a um achado de um objeto antigo. Para mim foi o vislumbre de um instante da vida desse homem que muito admiro, um instante retido no passado, mas que pelas circunstâncias pode ser trasido ao presente. Um vislumbre que desperta sensações e associa imagens de um tempo, de uma época, bem diferente, muito diferente da atual, que conduz a memória aos anos cinquenta e faz a imaginação correr por um Brasil, que tinha apenas 51 milhões de habitantes e a cidade do Rio de Janeiro três vezes menor em relação a hoje. O discurso que vou transcrever, pertence àquele mundo, àquela época, mas, uma leitura mais detida, poderá mostrar algumas semelhantes significativas com a situação atual. 

 

Hermes Pereira de Souza à direita (com cigarro), entre os deputados federais gaúchos, tido como o grande articulador do partido. Acima a capa do discurso impresso  pelo Departamento da Imprensa Nacional - Rio de Janeiro - Brasil - 1952.

 

 

 

Hermes Pereira de Souza nasceu em São Borja, Rio Grande do Sul, foi Diretor da Caixa Federal  nesse Estado, promotor público, deputado estadual e deputado federal em três mandatos. Faleceu em Porto Alegre, em 1969, aos 58 anos.

 

 

 

DISCURSO DO DEPUTADO FEDERAL PELO RIO GRANDE DO SUL

HERMES PEREIRA DE SOUZA

 

            Sr. Presidente

            Srs. membros do Conselho Nacional

            Este egrégio Conselho está reunido, em virtude do discurso do Sr. Presidente da República, pronunciado no dia 3 deste mês. Não desejo analisar este discurso, nem discutir os propósitos que levaram o chefe da Nação a proferi-lo, para concluir que S, Excia. teve esta ou aquela intenção, visou este ou aquele objetivo. Nada disso, Sr. Presidente.

            Desejo antes aceitar, como exatas, todas as afirmações do Presidente da República, quer quanto à falta de ordem administrativa em que tem vivido o país, quer quanto à  descrença do povo ante as delongas e ineficiências do aparelhamento administrativo, quer ainda quanto ao ambiente de pessimismo ou de temores segundo a expressão presidencial.

            Aceitando, portanto, as afirmações do Sr. Getúlio Vargas e admitindo, sem análise, a mais alta dose de sinceridade em que tudo o quanto disse, quero apenas situar a posição de nosso partido, neste ambiente de desordem administrativa.

            Ora, Sr. Presidente, para nós que pertencemos a uma seção do partido que se mantém independente, que não empresta apoio político ao Presidente da República por motivos conhecidos, e que não vale a pena mencionar, mas que, no entanto, está integrada no seio da agremiação nacional, e se esforça por vê-la fortalecida na opinião pública; uma seção, que na Câmara, no Senado e em toda parte procura ser tão pessedista como as que mais o forem, que nunca deixou de acompanhar os líderes da maioria nos assuntos de interesse da Nação ou do partido, como eles poderão atestar, — para nós Sr. Presidente, é verdadeiramente contristador verificar que, apesar do apoio e do prestígio que o Partido Social Democrático empresta ao governo do Sr. Getúlio Vargas, não conseguiu evitar a desordem administrativa, nem desfazer os temores confessados pelo Presidente no seu discurso do dia 3.

            A causa da proclamada desordem administrativa e dos tais temores estéreis, não há de ser, estou certo, obra do nosso partido que é, como todos sabem, uma organização política que se compõe das mais altas expressões da vida nacional. Uma organização que tem em seu seio homens de reconhecido valor intelectual e moral; cidadãos que já passaram pelos mais altos cargos da República e nos quais demonstraram, tantas vezes, excepcionais qualidades e aprimoradas virtudes.

            Um partido então como o nosso, tão rico de valores humanos e com relevantes serviços prestados à comunhão nacional, certamente não contribuiu para a generalizada inquietação que realmente existe nas massas populares; certamente não contribuiu para a descrença do povo na ação do governo e menos ainda teria cooperado para criar esse ambiente de pessimismo e até de revolta que nós respiramos a cada momentos, no seio do povo, na rua e em toda parte.

            E a prova de que não somos co-responsáveis por esse estado de coisas, tão bem descrito pelo Presidente da República, temo-la no nosso próprio partido. Basta para isso relembrar que o ambiente de suspeição e de temores — temores estéreis como diz o Presidente, contamina também a nossa própria organização partidária. É de fato visível, de todos os dias. Nalguns setores mais ostensivos, noutros menos ostensivos; mas de modo geral palpável, consistente, aumentando, criando ressentimentos, separando, dividindo.

            Bem sabemos, Sr. Presidente, que os males que constantemente nos afligem e que conspiram contra o privilégio de sermos ainda o maior partido nacional, são muito e são variados.

            Por isso nos impõe o dever, sobretudo quando nos reunimos na intimidade da vida partidária, o dever de falar claro, de falar com franqueza, de falar sinceramente, mas como o alto propósito de cooperar para a solução de questões que julgamos interessar a vida partidária.

             Ora, Sr. Presidente, o nosso partido, em virtude de uma resolução deste nobre Conselho, tomada há quase dois anos, resolução a que eu só incidentemente me refiro, vem dando apoio político e administrativo ao atual Presidente da República. Porque dispomos da maioria do Senado e porque somos a bancada mais numerosa com assento na Câmara, o partido empresta ao governo apoio valioso, sem o qual o Sr. Getúlio Vargas talvez não pudesse realizar a administração que deseja, pois que o seu partido — o Partido Trabalhista Brasileiro — além de minoritário — é desajustado, fragmentário, sem unidade. Pois bem, Sr. Presidente, é preciso dizer: estou convencido de que o pouco ou muito que o Sr. Getúlio Vargas realizou no seu atual período de governo (e não quero indagar se fez pouco ou se fez muito), estou convencido de que se alguma coisa fez em bem do povo e da Nação, deve-o ao Partido Social Democrático; deve-o, sobretudo, ao apoio que este partido lhe tem dado com patriotismo, com desprendimento e com sacrifício.

         Sim, com sacrifício, Sr. Presidente: ingentes sacrifícios, quais os de enfrentar sozinho, muitas vezes, a reação da opinião pública, para defender a obra do governo; quais o de enfrentar, sozinho, a demagogia do seu aliado trabalhista, partido do Presidente da República; quais o de enfrentar também a demagogia dos próprios setores governamentais.

            Ora, Sr. Presidente, enquanto o nosso partido se sacrifica no apoio ao governo, cumprindo uma resolução que eu não discuto; enquanto procede com desprendimento e com os mais sadios intuitos, enquanto empresta base parlamentar ao Sr. Getúlio Vargas para que possa cumprir o seu mandato; enquanto procede dessa forma e tido muitas vezes como intruso e como oportunista. É uma situação de todos os dias. Os anais do Congresso estão aí atestando esta verdade.

            Penso então, Sr. Presidente, que a falta de reciprocidade de tratamento, por parte dos trabalhistas, é uma das tantas causas que tem criado esse ambiente de pessimismo entre nós, no que a eles se refere.

            Depois, o apoio inopinado, irrestrito e surpreente que o partido empresta ao Governo, gerou, não há negar, descontentamento no nosso próprio meio e proporcionou  uma falsa concepção sobre a nossa conduta cívico-partidária.

            Sr. Presidente, não desejo criticar e menos ainda acusar a quem quer que seja, mas é fato notório que precisamos cuidar da nossa organização partidária, melhorá-la e fortalecê-la para enfrentarmos os embates futuros.

            Sabe este E. Conselho que, hoje em dia, apesar de dispormos da maioria dos governos locais, são poucas as seções estaduais que estão tranquilas, isentas de casos e ressentimentos em virtude de atos promanados do governo central.

            Se o nosso partido vai continuar, ou se deve continuar apoiando o governo, são questões que eu não indago porque cumpre a este Conselho decidir; afirmo apenas que se tal acontecer, é de seu dever fazê-lo em condições que melhor atendam aos seus interesses, até mesmo no tocante à contra-prestação que os pactos de assistência mútua sugerem.

            Sr. Presidente, creia-me V. Excia. que ao pronunciar estas palavras ao E. Conselho, sou movido pela convicção de que o nosso partido precisa continuar sendo essa poderosa corrente de opinião que, apesar de nos ter, infelizmente, conseguido eleger o seu candidato à presidência da república, expressa a sua vitalidade, entre outros índices, por mais de 3 milhões de legendas federais. Estou, portanto, me atendo no futuro do partido e raciocinando em face de uma organização nacional. Por isso não desço a detalhes, não vou ao caso concreto. Fico nas generalidades, muito embora pudesse fazê-lo licitamente, atento à nossa condição de partido nacional.

            Nem tão pouco desejo argumentar com o que ocorre na seção que eu represento e de que provenho, apesar de convencido de que inúmeros correligionários sulriograndenses têm sido perseguidos, maltratados e ofendidos, por ato do governo que o partido apoia, sem que fosse possível a este Conselho assisti-los por qualquer forma.

            Não nos lamentamos por isso Sr. Presidente, muito embora talvez algum de nós guarde ressentimento por amor ao partido.

            Sr. Presidente, devo terminar. Rascunhei estas palavras hoje pela manhã, temendo o improviso; queria manter-me fiel ao meu pensamento e poder expressá-lo com tranquilidade a este E. Conselho.

            Antes, porém, quero manifestar a V. Excia. e a este Conselho, a esperança de que saberão encontrar adequada solução para as dificuldades que afligem a nossa vida partidária, evitando que, amanhã, venhamos a estar à frente de restos de tropas cansadas, que acabarão envolvidas pelos flancos,  para usar de expressão do ilustre Sr. João Neves da Fountoura, proferida há muitos anos, em oportunidade semelhante. Era o que tinha a dizer.

 


 

*Logo após ao discurso, o deputado Hermes Pereira de Souza, em nome da representação sul-riograndense, propôs a nomeação de uma Comissão Política para conhecer dos casos das seções estaduais, oriundas de atos praticados por autoridades municipais, estaduais e federais, contrários aos direitos e interesse do PSD. A proposição foi aprovada unanimemente. A Comissão nomeada é a seguinte: senadores Dario Cardoso e Carlos Lindenberg; deputados Godoi Ilha, Menezes Pimentel e Oscar Carneiro.

 

 

Discurso Impresso pelo Departamento da Imprensa Nacional - Rio de Janeiro - Brasil - 1952.

 

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