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Maria Antonieta 200 anos depois

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

Maria Antonieta

Uma austríaca controversa na corte francesa

 

Identifico-me muito com a França. Paris, por exemplo, é um museu a céu aberto. Cada quadra, cada esquina, cada prédio, cada praça, cada um desses elementos têm uma história.

A praça Concórdia (Place de la Concorde), que fica ao pé da Avenida Campos Elísios ou  Champs-Élysées. Hoje a praça tem um clima festivo e recebe dezenas de noivas em busca da foto perfeita e de turistas encantados com as maravilhas da chamada cidade luz. No entanto, o passado histórico da praça não foi tão festivo e guarda fatos surrealistas. Durante a Revolução Francesa foi a praça da guilhotina. O povo podia assistir ao vivo o decepamento das cabeças. Durante esse período, houve mais de mil execuções. Entre elas, Maria Antonieta, a rainha consorte.

Quando viajo e passo pela praça Concórdia, a minha mente projeta a imagem da execução de um mulher de 37 anos de idade.

Para os que gostam de ler sobre as mulheres que entraram na história, Maria Antonieta, arquiduquesa da Áustria e rainha consorte da França e Navarra, é sinônimo de uma boa leitura.

Nasceu na cidade de Viena da dinastia Habsbourg-Lorraine. Aos 14 anos, um pouco mais do que uma criança, através de um acordo por interesses entre as duas famílias imperiais, ela foi dada em casamento ao herdeiro do trono, mais tarde, o rei Luiz XVI. O casamento aconteceu em Innsbruck, sob muita pompa. Alguns dias depois, seguida por um suntuoso cortejo de cinquenta e sete carruagens, Maria Antonieta deixou Viena permanentemente. 

O casamento aconteceu em abril de 1770. De bastante influência sobre o marido, ela conseguia direcionar muitos assuntos políticos. Boa parte da população não gostava desse mando, acusando-a, inclusive, de manipular assuntos nacionais em favor da Áustria. Ela se tornou controversa. Alguns a  criticavam, outra parte a elogiava.

Apesar da rigidez de sua educação e da etiqueta da corte austríaca, e apesar das reservas contra o seu sotaque alemão, a arquiduquesa foi descrita como uma jovem bastante espontânea. Sua mãe a educara com substancial rigor, destacando os valores religiosos e morais que uma arquiduquesa deveria seguir. Essa herança ela nunca renegou, fato que desagradava os franceses, que queriam uma rainha consorte mergulhada de corpo e alma na cultura nacional. Já nas aparências ela teve de ceder.  Aconselharam-na de trocar os seus trajes austríacos pelos franceses. Naquela época, os vestuários entre os países eram bem distintos.

Os desapontamentos da jovem adolescente foram vários. Os retratos que vinham da França não coincidiam com a verdadeira aparência do seu futuro marido. Ela era graciosa e elegante, ele desajeitado e lento. Parecia bem mais velho à idade. Nas núpcias houve problemas, que nem mesmo a bênção do arcebispo ao leito nupcial conseguiu ajudar. A lua de mel não se consumou.

Outro problema. Por ser austríaca, ela não era bem vista em Versalhes. A alegre e expansiva jovem começava a amargar a frieza, principalmente das senhoras mais conservadoras.  

A vida real muitas vezes tem algo de conto de fadas. Com o passar dos meses, o desajeitado Luiz, começou a notar a beleza juvenil de sua esposa. Confessou as suas tias o eflúvio de feminilidade que percebia na sua consorte.  

Quatro anos depois, falece o rei Luiz XV, seu sogro, e Maria Antonieta torna-se a rainha consorte da França, aos 18 anos. Sua vida mudou ao lado de Luiz XVI. Percebeu a influência que tinha sobre ele. As tias do rei, a corte, e outros também perceberam. O assunto foi às ruas e panfletos rancorosos iam sendo distribuídos. A França, por sua vez, passou a tornar-se um lugar de muito descontentamento. Uma crescente revolta popular contra a corte, contra a nobreza e sobremaneira contra Versalhes alimentava a inquietação popular. Dois anos de seca, atrofiaram as colheitas. Havia fome, enquanto isso, as festas e a ostentação da nobreza, serviram de barril de pólvora para eclodir uma das mais sangrentas revoltas: a Revolução Francesa.

Os dois últimos anos que precederam a conflagração foram difíceis para a nobre alemã no seio da corte francesa. Do lado de fora das paredes palacianas, a revolta popular expandia-se. Para amargar ainda mais a vida de Maria Antonieta, parte das integrantes da corte, usaram uma prostituta para se passar pela rainha, vestindo-a a rigor. Profundamente abalada, ela via a sua imagem pública como uma meretriz, má e dilapidadora do tesouro real. Mais uma vez panfletos. Agora pornográficos e satíricos demonizando a rainha consorte.

Do dia 14 de julho de 1789, o barril de pólvora explodiu. Saques, incêndios e morte ambientaram as ruas da capital francesa. Em 1791, a família real tentou fugir. Mas foi reconhecida na fronteira. O rei agora era visto como um traidor. Iniciou-se o processo de condenação. Fora sentenciado à guilhotina. Dia 21 de janeiro de 1793 foi executado. Maria Antonieta ficou confinada na Torre do Templo, apesar das propostas de fuga, ela se recusou.

Em 14 de outubro compareceu diante do Tribunal Revolucionário que a acusou como responsável pelos males da França. Na manhã do dia 16 de outubro, o carrasco cortou os cabelos dela e amarrou as mãos pelas costas. Assim foi levada à Praça Concórdia com os cabelos horrivelmente cortados, órbita dos olhos afundada, com o rosto rígido e sem expressão. A lâmina pôs fim à outrora expansiva e alegre adolescente austríaca.

Repito. Paris é um museu a céu aberto. A hoje glamorosa Praça Concórdia, onde milhares de noivos vão tirar fotografias para o seu álbum, foi cenário de horror e de muito sangue.

Resta saber, quantas das noivas que ali posam ao fotógrafo, conhecem as histórias que ali aconteceram 200 anos atrás?

 

Um complemento

A minha fascinação pela Maria Antonieta é antiga. No evento festivo do lançamento da primeira edição da revista EXCLUSIVE, Maria Antonieta foi a minha convidada.

Explico. Uma modelo especialmente vestida a representou. Duzentos anos depois, uma pequena homenagem para uma grande dama. Para não esquecer. Homenageada com um artigo na primeira edição da revista da minha primeira revista.

Maria Antonieta

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