logo
barraCinza
barraBranca

Sebastião Salgado avalia tragédia em Mariana

Por Themis Pereira de Souza Vianna

           

              Tive o privilégio de reunir-me com Sebastião Salgado em 2012 no seu escritório em Paris. Foi quando eu estava escrevendo o livro sobre a sua obra Êxodos. Percebi que é uma pessoa que se projetou mundialmente tanto na fotografia quanto no trabalho de incentivar o reflorestamento e promover a recuperação das fontes de água. Um dos seus principais objetivos é o de salvar a Mata Atlântica através de criação de departamentos de conscientização da população que mora nas periferias dos locais ameaçados.

            Sebastião Salgado ganhou destaque  recentemente ao visitar a catástrofe ecológica provocada pela enxurrada de lama que destruiu distrito de Mariana, região central de Minas Gerais e gradativamente atingiu o rio Doce com prejuízos irreversíveis na fauna aquática. O rompimento da barragem de Fundão, dia 5 de novembro na unidade industrial de Germano, entre os distritos de Mariana e Ouro Preto (cerca de 100 km de Belo Horizonte), provocou uma onda de lama que devastou distritos próximos. O mais atingido foi Bento Rodrigues. Conforme o Ibama, houve alterações nos padrões de qualidade da água (turbidez, sólidos em suspensão e teor de ferro). Um dos impactos é a mortandade de animais, terrestres e aquáticos, por asfixia. Já no Rio Doce, onde chega mais diluída, a morte de peixes ocorre pelo sistema respiratório.

            O desastre ganhou destaque mundial, mas jamais pode ser considerado um desastre natural, causado pela natureza, porque foi causado pela negligência humana. Claro, as consequências, essas sim, são naturais à medida que arrasa e contamina. Repito, resultou de negligências de segurança e de fiscalização do governo na empresa mineradora  Samarco. A empresa protagonizou o maior desastre ambiental provocado pela indústria da mineração brasileira (A Samarco é empresa fruto da sociedade entre a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton).

            Segundo ecólogos, geofísicos e gestores ambientais, pode levar décadas, ou mesmo séculos, para que os prejuízos ambientais sejam revertidos. Enquanto está em suspensão no rio, a lama impede a entrada de luz solar e a oxigenação da água, além de alterar seu pH, o que sufoca peixes e outros animais aquáticos. Há espécies animais e vegetais ali que podemos considerar extintas a partir dessa tragédia.

            O estrago está feito. Sebastião Salgado já fotografou mundo afora uma infinidade de tragédias, mas foi na sua terra natal que presenciou um dos espetáculos mais devastadores da natureza: a morte do Rio Doce, o rio da sua infância. Natural de Aimorés, cidade do leste de Minas, que também foi afetada pelo rompimento das barragens da Samarco.  

            Sebastião Salgado criou na década de 1990 o Instituto Terra, e conseguiu recuperar uma boa parte de Mata Atlântica e recuperar também as nascentes de água.          Não poderia ser diferente, deslocou-se de Paris para examinar de perto a extensão dos estragos, aproveitando também a sua aptidão fotográfica para registrar algo que o mundo precisa ver. O Instituto Terra arrecada recursos com empresas, alguns órgãos públicos e investidores individuais. O custo total para salvar todas as nascentes fica em torno de R$ 5 bilhões. Mas a recuperação de algumas espécies, que, teoricamente, se extinguiram no desastre, nenhum projeto milionário recuperará.

            Senti a obrigação de manifestar o meu total apoio ao projeto de Sebastião Salgado. Até estou pensando em aprofundar o assunto em um livro.

            

Sebastião Salgado

institucional anuncie contato