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Tudo Passa

Por Lauro Patzer

 

Avião DC-3 considerado um dos melhores aviões comerciais na sua longevidade de uso. Sua versão Dakota C-47 foi usada pelos Aliados na Segunda Guerra Mundial, principalmente, no Dia-D. 

 

Lembranças e brevidade de todas as coisas

Quando era pequeno pensava muitas vezes sobre o que faria quando adulto. Não faltavam planos. Um deles: ser piloto de avião. Quando ouvia o ronco dos velhos DC-3, corria para vê-los sobrevoando a pequenina Erebango - minha cidade natal!

O tempo passou. Os aviões ficaram diferentes. E mais do que eles, meus sonhos de menino escorreram por um estranho funil que me levou a tantos lugares: à sala de aula, à sala de redação, às editoras, à publicação de livros. Hoje minha paixão é escrever. Mas os aviões continuam nos meus sonhos.

Olho a janela e vejo a gurizada rolando com seus skates, desafiando o trânsito e exibindo habilidades perigosas. E continuo lembrando o meu tempo infantil.

Escreve Janusc Korczak: "A criança é que nem a primavera. Ou tem sol, tempo bom, tudo é alegre e bonito. Ou, de repente, vem tempestade, relâmpagos, trovões, raios, que caem. Já o adulto é como se estivesse dentro do nevoeiro. Envolto numa triste névoa. Não tem nem grandes alegrias, nem grandes tristezas. Tudo é cinzento e sério. As alegrias e as tristezas das crianças correm que nem vento, choram por causa de tudo e de nada; as suas crenças são ingênuas e o mundo é muito grande. Já os adultos disfarçam as lágrimas, camuflam as emoções, sempre estão correndo e sempre estão com pressa". 

Quando a luta é contra o tempo, a perda de cada minuto é um desperdício. Cada instante deve ser vivido, espremido, sugado até a última gota.

Dizem os filósofos que o tempo é a maior escola do homem. Na sua passagem ele semeia sabedoria. Já para outros ele é destruição. No seu avanço, ele nada poupa e tudo leva. Seja como for, quando pensamos no tempo, somos levados a profundas reflexões. Pensamos, então, na vida, nos queridos que nos cercam, no amor e na morte. Recordamos com amargura, as coisas que ele nos tirou. E o que o tempo tira, jamais devolve. 

O adulto que tem os pais vivos, olha para aqueles cabelos alvos e para aquele caminhar vagaroso num corpo encurvado, não se conforma com essa irreversível metamorfose. Quem tem filhos adolescentes, olha para o primeiro par de sapatos, para o primeiro brinquedo, para algumas peças de roupa esquivamente guardadas, enxerga uma criança que desapareceu na mutação de um corpo que cresceu e uma inocência que foi embora.

Há uma canção de George Harrison: All things must past (mais ou menos isso, "todas as coisas passam"). E Khalil Gibran escreve sobre a brevidade das coisas: "Os lírios e as sarças não vivem senão um dia, mas esse dia é a eternidade vivida em plenitude". 

Não há absolutamente nada que podemos fazer para fugir do tempo. A esse respeito o filme Hiroshima Mon Amour, mostra que o amor é a única felicidade possível para os seres humanos. Em momento algum as pessoas se tornam tão próximas, tão solidárias, tão afetuosas, como nas situações de grande dor.

Quando temos um ente querido no leito da morte, tudo muda e nossos olhos passam a enxergar outros homens e um outro mundo. Nos voltamos ao passado, nos apegamos às lembranças e gostaríamos que o tempo voltasse atrás e que alguém nos dissesse: "tudo isso é um engano!".

Tais sentimentos passaram por mim, quando vi a minha mãe inserida numa parafernalha de aparelhos e sondas na sala da UTI, mergulhada nas regiões abissais do estado de coma, totalmente inerte, involuntariamente submissa àquelas máquinas, onde o frágil fio de sua vida jazia suspenso.

Ela faleceu. Faz muitos anos.

No contexto dessa realidade soberana e incontestável, alguns vão rezar na capela, outros choram, outros filosofam. Mas todos os apelos e todas as exigências perdem-se no silêncio.

Marcel Camus escreveu sobre a vida, o tempo e a morte: "Nada mais nos restará, nada mais senão chorar a dor da saudade. E algum tempo virá em que o próprio tempo tentará curar o que feriu, mas inútil. Nem ele mesmo nos poderá devolver o que nos tirou!".

Tudo passa! Tudo, menos as lembranças. Menos o amor. São a nossa única garantia contra o tempo. Pois o amor está acima da fina poeira dos elementos transcendentes da morte. E as lembranças acima do esquecimento. O tempo pode levar tudo, menos o amor e as lembranças.  

 

Texto extraído do livro Por trás da Janela Fechada, Lauro Patzer (p.107-109)

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