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Vida virtual

Por Isabel Reis

 

Incrível como quanto mais o mundo avança, quanta mais a tecnologia evolui, mais a distância aumenta, mais as pessoas se afastam umas das outras e cada vez mais o “felizes para sempre”, ou o conceito de relação para uma vida, se torna apenas e só, uma frase de conto de fadas, algo que se perdeu com o tempo ou saiu fora de moda…

Anda tudo tão desacreditado do amor, que as poucas relações que vão existindo, já nascem com prazo de validade… tudo o resto não passam de variadíssimos arco-íris, sob a forma de amizades coloridas, amigos cheios de cores em que duas pessoas evitam comprometer-se uma com a outra sob pena de se exporem demais, e de se colocarem numa posição demasiado vulnerável perante outra, correndo assim o risco de criar expectativas, sonharem com algo mais, darem asas aos sentimentos de uma forma mais intensa e quiçá, até encontrarem a sua pessoa, a sua alma gémea, ou então não… são os riscos de se viver, os riscos de quem busca ser feliz… nasce-se, cresce-se, ama-se, sofre-se, levanta-se, segue-se em frente, volta-se a amar e no processo vai-se vivendo a vida como ela merece ser vivida… na sua plenitude!!!

 

No entanto, o processo de evolução da sociedade, do mundo e o ritmo frenético em que vivemos o dia-a-dia, levou a que o mais comum na mesma, seja levar vidas virtuais, aliás, torna-se mais fácil marcar um encontro com alguém no computador, do que presencialmente… Não temos tempo para sair depois do trabalho e tomar um café com os amigos porque andamos sempre a correr, mas no entanto chegamos a casa sentamo-nos no sofá a falar com esse mesmo amigo online, e enquanto fazemos isso, perdemos gradualmente o contacto com o mundo exterior, deixamos de conviver, de partilhar gargalhadas, palmadas nas costas, o abraço, o contacto físico tão necessário ao nosso bem-estar emocional, deixamos de conhecer pessoas, isolamo-nos assim do mundo real, para marcarmos presença diária num mundo virtual!

 

Passamos dias, semanas, meses a falar com estranhos que conhecemos virtualmente (a quem por vezes passamos a conhecer melhor do que aqueles com quem lidámos presencialmente, ou até mesmo a família com quem nos cruzamos nas reuniões de família habituais) e no entanto poucos ou quase nenhuns alguma vez chega a cruzar-se fisicamente com essas mesmas pessoas a quem confidenciamos segredos, preocupações ou sonhos que por vezes não conseguimos sequer confidenciar aos nossos companheiros, amigos de longa data ou familiares! Não que seja contra o mundo virtual, não sou, acho que qualquer meio é válido para travar amizades e para nos manter em contacto com quem gostamos, no entanto defendo que deve ser apenas um meio para manter contacto e não uma forma de vida!

 

Assiste-se a um fenômeno, a uma “dependência” hoje em dia, que é caso para dizer que… VIVE-SE VIRTUALMENTE!!!

Até porque, já ninguém se lembra o que é não ter telemóvel e o poder estar em qualquer sítio tranquilamente a qualquer hora do dia, da noite, fim-de-semana ou até mesmo férias e não ser interrompido por um chefe para quem nada é inadiável, um amigo a pedir qualquer coisa que podia esperar, ou até mesmo um operador de marketing a publicitar qualquer coisa que não precisamos.

Perdemos essa liberdade por um custo que nos apeteceu pagar no momento e passamos a estar à distância de uma chamada. O fenómeno que se gerou à volta do “bichinho” foi tão grande que as pessoas nem se aperceberam do que realmente estavam a perder. Com a chegada da internet na forma das redes sociais o “boom” tornou-se praticamente ridículo, e deu origem a uma dependência quase absurda de partilhar (e ao momento ou senão… no segundo seguinte), tudo que se passa nas suas vidas com todos os que os rodeiam que, por vezes e na sua grande maioria são perfeitos estranhos!!! E porquê esta necessidade? Os motivos são muitos e variáveis, o certo é que as partilhas que se assistem são tantas e de tal forma que se chega a um ponto que fica fácil descobrir o que quer que seja hoje em dia e até mais… basta passar numa das muitas redes sociais que existem, está lá tudo… caso para dizer que os detectives já se devem andar a ressentir e muito com a falta de trabalho!!!

Hoje no mundo virtual, somos todos “amigos” de toda a gente! Sejam amizades inocentes, outras nem tanto, por interesses, cusquices, egoísmos, ou coisas que tais e que como tal vão acabando (por assim dizer) com vidas pelo caminho, já se faz quase tudo virtualmente. Começam e acabam-se relações e até já se vão dando “facadinhas” virtuais nas mesmas, vai-se partilhando/despejando no mural próprio ou do vizinho o que bem apetecer, seja para o vizinho cusco que está sempre na “janela” à espreita de ver o que se passa, ou então para aquele que até nem quer saber de vida alheia mas leva com ela na mesma. Enfim, peixeiradas a “céu” aberto, onde se lava roupa suja e tudo mais que vier à baila, para regozijo de quem passa e assiste, ou neste caso em concreto… regozijo de quem for passando ou até estiver online, em tempo real e que se lhe apetecer também pode meter a colherada e acalmar os ânimos ou piorar ainda mais… para conhecidos e desconhecidos e que não acabam esquecidas depois que chegam ao fim, muito pelo contrário, ficam eternamente gravados para a história nos “relvados cruéis” de uma “memória” virtual que não esquece nem deixa esquecer… basta um deslize, um erro qualquer e lá está e estará para nos recordar um qualquer mau momento…

Pois é… e é por vidas virtuais que hoje em dia muitos passam horas sentados no sofá a falar com estranhos no mundo inteiro, que provavelmente nunca serão mais do que apenas “estranhos-amigos” virtuais e depois passam horas durante o dia a lamentar-se o quão infelizes são, o quão tristes estão porque não têm ninguém ou a sua relação já não é o que era. A inércia é absurda e irónica, mas se trocar o sofá pelo banco do jardim ao final do dia a descomprimir com a cara-metade, ou do bar à noite enquanto se toma um copo com os amigos, talvez se revele bem mais divertido do que passar as noites agarrado ao teclado de um computador, a viver uma vida solitariamente virtual, enquanto se espia a vida do nosso vizinho virtual.

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