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Comemorações dos 25 anos da queda do Muro de Berlim

 

 

Por Lauro Patzer

 

A Alemanha vive uma semana intensa de comemorações, que culminarão no dia 9 de novembro. Há 25 anos, em 1989, o muro que cercou um povo durante 28 anos, deixou de existir. São esperados turistas de todo o mundo para os atos oficiais além do preparado dos museus, memoriais públicos e familiares, ainda visitas aos locais estratégicos do sombrio domínio comunista.

 

   Uma foto clássica do dia 9 de novembro de 1989.

 

Cenário da noite de 8 para 9 de novembro

As pessoas, primeiro em pequenos grupos. Depois em grupos maiores. E cada vez aumentando, ao ponto de inibir qualquer resistência policial fortemente armada. Com o primeiro avanço exitoso.Outros, mais tarde, trouxeram consigo marretas para golpear o muro, numa demonstração de ira contra o regime que o construiu. O muro, naquela noite, começou vir abaixo não no sentido físico, mas como o símbolo tenebroso do comunismo opressor. O seu fim espantosamente súbito surpreendeu até mesmo a Casa Branca, surpreendeu o Kremlin e nocauteou o comunismo mundial. Marcou o fracasso retumbante de uma ideologia que se apresentou como democrática, popular e livre, mas que nas suas entranhas escondia a censura, a opressão, as prisões políticas, perseguição aos oponentes e execuções.

 

A população simplesmente debandou do lado Oriental.

                                       

 

  A polícia do regime achou-se impotente para conter a massa popular inesperada.

 

O ápice do acontecimento foi o encontro entre as duas populações (alemães orientais e alemães ocidentais), encontro com aplausos, abraços, lágrimas e muitos brindes com a sensação de um grande ato de libertação, algo parecido ao escravo que se livra das algemas. Um desses acontecimentos em que a História dá um salto a um novo mundo.

    Do outro lado, os alemães orientais eram saudados pelos alemães ocidentais, uma grande                                                              confraternização.

 

O começo opressivo

Tudo começou em 1917 com a implantação do regime absoluto na Rússia, o comunismo. A história é longa e cheia de variáveis, mas o fato que em decorrência dos resultados da Segunda Guerra Mundial, a parte oriental da Alemanha passou ao domínio da União Soviética, que não perdeu tempo para implantar o seu regime na terra dominada. Insatisfeitos, os alemães fugiam para o lado ocidental. Para conter as fugas na zona de Berlim, na madrugada de 13 de agosto de 1961,  a primeiras famílias foram despertadas  por barulhos estranhos. Ruídos metálicos e estrondos fizeram os moradores abrirem as janelas. Seus olhos viam o cenário de uma invasão relâmpago. Uma multidão de policiais comunistas com os seus uniformes verdes, munidos com armas pesadas, controlavam os operários que estendiam de um poste a outro um interminável arame farpado que se alongou por dezenas e dezenas de quilômetros. Atrás deles, trabalhadores desembarcavam dos caminhões para descarregar tijolos, blocos de concreto e sacos de cimento. Ao tempo em que alguns deles feriam o duro solo com picaretas e britadeiras, outros começavam a preparar a argamassa. Assim, do nada, começou a brotar um muro. Era o paredão socialista. Oficialmente considerado uma proteção contra o capitalismo devastador. Uma espécie de imunidade à contaminação de algo muito danoso.

O muro, uma vez pronto, seu cinturão externo, que envolveu completamente a cidade, instalaram nele 302 torres de observação, 127 redes metálicas eletrificadas com alarme, 255 pistas para a corrida de cães ferozes e 20 bunkers, de onde os soldados atiravam em quem se arriscasse a passá-lo. Nos primeiros anos, 192 pessoas foram mortas.  E assim, ele permaneceu insólito, frio e escuro, cercado de trevas, imerso profundamente em seu sono totalitário, durante 28 longos anos.

 

Nos porões do comunismo

Joaquim Gauck, pesquisador e um ativista sobre os crimes do comunismo, gerencia desde 1992 os arquivos do extinto serviço secreto socialista, da extinta Alemanha Oriental, a Stasi (Staatssicherheit), criada em 8 de novembro de 1950, orientada pela KGB soviética, que mantinha uma rede de informantes civis, estimulando a delação de filhos contra os seus pais. Encontrou toneladas de fichas, microfilmes, fotos, material de áudio e vídeo que revelam os "porões da ditadura do proletariado", da assim chamada República Democrática Alemã. Estes documentos pairam como fantasmas sobre o comunismo mundial. São 33 milhões de páginas arquivados para pesquisa, mas contestado por antigos militantes que exigem a proibição de suas pesquisas, alegando direitos pessoais e políticos.

Joaquim Gauck é hoje um dos palestrantes mais ativos e mais convidados para falar sobre o passado comunista e também o chefe de estado da Alemanha. É considerado o símbolo do anti-comunismo na Alemanha.

   A pergunta: "por quê as pessoas fogem de um regime que se dizia democrático e popular?

 

As comemorações

Já faz semanas que os prédios públicos estão iluminados com luzes. Na verdade, desde 1o de setembro, estão ocorrendo eventos diários. Por exemplo, naquele dia, um Fórum sobre os efeitos da queda do muro, deu abertura às comemorações, que terminarão no dia 9 de novembro.

À partir das 17 horas do dia 07 de novembro, oito mil balões brancos iluminarão o trecho por onde o muro passava. A instalação de balões luminosos terá 15 quilômetros de extensão. Em vários locais estão disponíveis ao público as informações com monitores e com imagens históricas. Estarão instalados nestes principais pontos, além de plataformas de onde pode-se ver melhor a instalação de balões luminosos. A programação se estende no sábado e, domingo, a partir das 14 horas à frente do Portão de Brandenburgo, o público poderá assistir um espetáculo musical. O ponto alto, será às 19 horas, Com a presença do prefeito de Berlim, Klaus Wowereit, quando os balões luminosos começarão a ser  soltos no céu de Berlim (os “balões da liberdade”). Sob a regência de Daniel Barenboim, a orquestra de Berlim toca a 9ª Sinfonia de Beethoven “Ode à Alegria”.

O objetivo dos eventos é não deixar cair no esquecimento o que havia por trás do muro e o que havia dentro do regime. Ambos caíram por hipertrofia interna. 

 

  Instalação de 15 quilômetros de balões luminosos que serão acesos no começo ds cerimônias.

 

Os fantasmas do muro

O comunismo é um fantasma que se recusa a ficar no túmulo. Não se sabe quem é o autor da frase, mas, de qualquer forma, ela ilustra, que a lição do muro não foi suficientemente aprendida. O totalitarismo não suporta oposição, nem críticas. Em fevereiro de 2013, em São Paulo, Yoani Sânchez, uma jornalista cubana, que, em ato corajoso, viajou ao Brasil para denunciar o regime do seu país, foi sitiada por manifestantes de um determinado partido que, berrando insultos, cessaram o direito de expressão da mulher que se opõe à ditadura comunista da ilha. O evento de autógrafos foi cancelado pelos organizadores, temendo a vida da estrangeira. Um claro sinal dos fantasmas do muro.

 

Nascida na Alemanha Oriental, ela lembra, quando pequena, ter presenciada as agressões ao seu pai,  por  causa de um livro, que os policiais achavam ter vindo do lado ocidental, tipo de literatura considerada reacionária ao regime.

   Jovem polonesa Aleksandra Pawłowska, 23 anos, aliada com os jovens alemães na tarefa de      preservar a memória da queda do Muro de Berlim e de  aproximá-los com jovens do seu país.

  Jürgen Liftin não quer saber dos fantasmas do seu passado comunista. Fez em sua casa um memorial da história da queda do Muro de Berlim.

 

A volta ao passado com governos populistas, fascistas e autoritários é infelizmente uma realidade que ronda a América Latina e está muito próxima a nós. O pior de tudo é o maquiavelismo com as palavras.  A Alemanha Oriental com o muro e os seus assessórios, chamava-se de democrática. Cuba com 1 milhão de foragidos na Flórida (10 por cento da população do país), vangloria-se de sua democracia popular e livre. A triste realidade da Venezuela, por estranhas razões, não é escrita nos jornais brasileiros, precisamos buscá-la na imprensa europeia, conforme uma extensa matéria publicada no jornal alemão Die Welt, no dia 27 de outubro, por Sara Schaefer Muñoz.

"Seguimos reféns da incoerência entre regras e valores democráticos e a manipulação desses valores por governos que se dizem democráticos", disse em discurso o editor-geral do jornal argentino Clarín, Ricardo Kirschbaum. O valor do "livre fluxo de informação" como elemento fundamental para a democracia, está em risco em vários países latino-americanos, resalta Arthur Sulzberger, do The New York Times.

Começamos o texto falando da Alemanha com suas comemorações alusivas à queda do muro de Berlim, mas, terminamos a redação com o temor do fantasma do muro invisível, que com suas pedras carrancudas e sombrias, de forma muito sutil, ergue-se em nosso meio, com o mesmo nome da Alemanha Oriental, de democracia popular e participativa.

 

 

Copie e cole este link para ter uma ideia sobre o que foi o muro de Berlim (embora narrado em alemão, basta acompanhar as imagens).

http://www.dw.de/eingemauert-die-innerdeutsche-grenze/av-6592858

Fotos: Deutsche Welle, Die Welt, Bild, Zeit, Deutschland Magazine.

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