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Aqueles que gostamos

Por Lauro Patzer

 

Aqueles que gostamos

Há dois tipos de pessoas: as que gostamos e as não gostamos.  A afirmação pode ser um pouco exagerada, porque existem muitas variáveis. Mas com um olhar mais detido sobre o que acontece nas empresas e nas instituições, até no interior de nossas casas, parece que as relações humanas são exatamente assim. A velha e surrada frase: "para mim todas as pessoas são iguais, trato a todos com o mesmo critério!", pode ser um grande equívoco. Intimamente sempre damos preferências à pessoa que gostamos. Significa que somos todos consequência da escolha dos outros e os outros são o resultado da nossa escolha.

Nossos gostos não obedecem regras escritas. Uma coisa é certa: cada um tem as suas preferências. Quem monta uma equipe de trabalho, inevitavelmente, atenderá ao apelo que brota do seu gosto. E este apelo determinará a triagem. "Ele me agradou", significa "eu gostei". Assim, quem tem o poder, detem o privilégio de escolher. Pode aceitar ou rejeitar. Eliane Bittencourt Dumet escreveu: "Para se livrar de alguém a solução mais fácil é enxergar os defeitos". Quando gosto de alguém, os defeitos não são notados. Ou nem quero notar. 

É por esses fios sutis que se desenrolam as relações humanas em todos os âmbitos. Vemo-nos com um fantoche diante de um "superior". Essas premissas lembram a imagem do teatro de marionetes. Elas dançam no palco minúsculo, movendo-se de um lado para outro levados pelos cordões de quem os manobra, seguindo as determinações de seus pequeninos papéis.

Falava-se muito em qualidade total. As empresas e as instituições fazem cursos e palestras sobre o tema. A retórica do critério de "qualidade", no entanto, é muito relativa, quando o espaço de trabalho depende de estar sob o "agrado" ou sob o "desagrado", daquele que tem poder.

Quantas posições privilegiadas são ocupadas por tais critérios? E onde fica a competência?

"Analisar as pessoas e as relações humanas é abrir a superfície das coisas e olhar o que se esconde dentro delas": afirmou o psicólogo Gerard Artaud.

Não cabe aqui condenar escolhas, pois as pessoas seguem o curso das suas preferências e dos seus gostos. Nós também as temos. Nós queremos estar ao lado de quem gostamos.

Se o meu argumento está correto, todos pagamos o preço pelos nossos gostos. Mas há quem leva vantagem. Aquele que tem o poder. Bem provável, foi por isso que Nietzsche afirmou que de todos os desejos humanos, o mais ardente é o desejo pelo poder. Perfídias, intrigas, bajulações e chantagens, quando não sangue, giram como satélites em torno daquele que possui o poder.

Desmistificam-se assim todos os discursos sobre a igualdade humana. Todos estamos comprometidos com os nossos gostos. Todos fazemos parte de um arquétipo humano onde o universo subjetivo de cada individualidade foge à oficialidade, quebra o protocolo. Na hora de uma decisão, essas nuanças influenciam. Pesam. E, muitas vezes, determinam.

Existe algo acima da igualdade humana politicamente proclamada. Existe algo acima das instituições, das teorias, dos ensinamentos oficiais, dos artigos de fé e das tábuas da lei que determina aquilo que lá no fundo do nosso ser nos inclina a gostar de algo. Nossos gostos são arcanos muito pessoais. E, por isso, afetam nosso julgamento das pessoas. 

Agostinho, há muitos séculos atrás, afirmou: "As pessoas não são o que parecem; não são como deveriam ser; e não são como gostaríamos que fossem. São exatamente como são".

 

(Por trás da Janela Fechada, Lauro Patzer,  p.83-84). 

Amor - Interioridade - Relacionamento

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