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O Silêncio como Qualidade de Vida

Por Lauro Patzer

 

Determinado dia ao fazer a minha caminhada dei uma de observador ambiental. O primeiro impacto foi a calçada. Coitada! Alguns donos de animais a elegeram para banheiro coletivo. Outro que passou por ali não teve escrúpulo ao jogar as cascas de uma bergamota. Adiante, um catador de lixo não se preocupou em deixar espalhado o seu descarte. Para completar, alguns passos a frente, havia um muro pichado.  

Alguma novidade nisso?

Um povo se conhece pelo seu comportamento nas ruas. É nos locais públicos que ele expressa a sua interioridade e revela o seu caráter. Muros e paredes pichadas. Lixo espalhado pelas calçadas. Motos e automóveis com escapes abertos. Pichações, sujeira, barulho, tudo isso são anomalias sociais. São reflexos do interior das pessoas. Existe algo mais brega e boçal que um homem abrir todo o som do seu aparelho e agredir em determinado horário o ouvido da vizinhança?

A primeira palavra que se associa ao sintoma é a palavra desordem. A lista da desordem começa pela agressão visual, auditiva, olfativa e física: a sujeira espalhada, o barulho irresponsável, o fedor do lixo, que se estende ao roubo, ao assalto e ao latrocínio.

As nações de melhor qualidade de vida são aquelas que cultuam a ordem pública. Elas não concebem qualidade de vida satisfatória sem a complementaridade do silêncio. Os ruídos urbanos são inevitáveis, mas os seus excessos podem ser controlados.

Os alemães, por exemplo, combatem com rigor os ruídos urbanos deliberados. Ninguém transforma seu apartamento ou seu pátio em discoteca. Muito menos o automóvel. O exibicionista com som turbinado pode até passar impune na primeira rua, na segunda já está preso.

Cultivar o silêncio é cultivar qualidade de vida. O silêncio nos deixa banhados, limpos, abertos, purificados. Nosso íntimo capta a sutileza do espírito. No silêncio conseguimos perceber melhor a profundidade das coisas. A leitura de nossos livros fica mais agradável. No silêncio conseguimos pensar melhor. O poeta, o cientista e o pensador respiram nele o ar refrescante da solidão criadora. É no silêncio do laboratório que ocorrem os grandes avanços da humanidade. Ali acontecem as verdadeiras revoluções. É no silêncio de um aposento que o poeta constrói de metáfora em metáfora o seu poema. É no silêncio do estúdio que o músico se debate com uma tempestade de notas, sustenidos, bemóis, ligaduras e trinados e no meio disso traz ao mundo uma arrebatadora composição musical. A sabedoria repousa no silêncio.

Combater o seu contraponto, o barulho, deve ser uma meta em qualquer sociedade. O barulho deliberadamente irresponsável é também um ato de desordem. De poluição. De agressão. De perturbação. O barulho mancha, suja e envenena um ambiente. O impacto ambiental do barulho vai contra a qualidade de vida.

Qualidade de vida é reduzir os decibéis.  Na ilha de Bali, Indonésia, o dia do Silêncio é comemorado com o silêncio. Todas as atividades são suspensas. Atividades do porto, do aeroporto, os voos são supensos. Os esportes, o lazer, tudo cessa.

Entre nós, o cultivo do silêncio precisa ser exercitado através da educação. O som das nossas festas não precisa entrar nas casas vizinhas. Não podemos acabar com todo o barulho, mas podemos, pelo menos, falar mais baixo. Este pequeno hábito já é um passo conquistado. Não devemos esquecer que a nossa qualidade de vida também tem relação com a paz de nossos ouvidos.

 

 

Foto: http://www.walscorner.com/animals-and-birds-desktop-wallpaper.html

Interioridade - Música - Qualidade de vida - Silêncio

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