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Um realizador de sonhos

Por Andréa Lopes 

Fotos  Edson Pelence e Leonid Streliaev

 

Quer saber como se realiza um sonho? Saia do centro de Gramado e percorra cinco quilômetros até o interior da cidade, na Linha Carazal. Vá até o quilômetro 28,3 e bata à porta da bela casa em estilo colonial que abriga a Vinícola Ravanello. Provavelmente seu Normélio, o proprietário, irá atendê-lo, com cordialidade, o sorriso discreto no rosto e muita história para contar. Nascido em Antônio Prado, filho de agricultores, Ravanello acompanhava o pai, Dionísio – mesmo nome do Deus Grego das festas e do vinho -, na colheita da uva. Aquela vivência da infância impregnou de tal forma a trajetória de Normélio Ravanello que ele nunca tirou da cabeça – e do coração – a vontade de ter sua própria vinícola, sonho que realizou abrindo a vinícola que leva o nome da família.

“Meu pai fazia muito bem o vinho, para o consumo da família”, recorda-se. Nas férias escolares, Normélio auxiliava na colheita da uva, prestava atenção no processo de fermentação e divertia-se, anda guri, distribuindo a rebarba da produção de vinho não consumida pela família aos vizinhos, que formavam fila na porta. Ele fazia aquilo com carinho, com gosto, adorava. Ravanello não chegou a pegar a época de pisotear a uva para separar o grão do cacho, mas recuperou, para uso em sua vinícola, a máquina italiana, datada de 1935, utilizada pelo pai para este fim.

Normélio rumou para Bento Gonçalves para fazer o segundo grau e para Porto Alegre, para cursar as faculdades de Engenharia e Administração. Não tardou em entrar para o time da AGCO do Brasil, uma das maiores produtoras de equipamentos agrícolas do mundo. Na empresa trabalhou como engenheiro por praticamente 15 anos, depois experimentou a área de vendas, administração e de marketing. “As pessoas não entendiam como eu não cansava de trabalhar tanto tempo em uma mesma corporação. Não dava para enjoar, eu não ficava mais do que três anos fazendo a mesma coisa. Queria aprender.” Como viajava muito, teve a oportunidade de conhecer a indústria do vinho mundo afora. “O pessoal já sabia. Sempre que viajávamos a trabalho meus colegas voltavam na data combinada. Eu ficava mais uns dias por conta própria, visitando vinícolas e parreirais.” Argentina, Chile, Itália, França, tudo Ravanello conheceu com um só foco: os vinhos. Nas férias, a esposa, Rosa Maria, o acompanhava. “Durante todos os anos em que estive na empresa qualquer valor extra que entrava em minha conta bancária eu guardava para, no futuro, ter meu negócio próprio”, ensina. Foco e planejamento, Normélio Ravanello tem de sobra.

Pois com 37 anos de empresa, sustentando o posto de superintendente para a América Latina da AGCO do Brasil, Normélio sentiu que era chegada a hora de realizar seu sonho. As terras em Gramado, ele já havia comprado 27 anos antes. Agora era arregaçar as mangas e trabalhar. Foi o que ele fez. Depois de dois anos de planejamento, passou 12 meses viajando pelas redondezas, pela América do Sul, conhecendo os concorrentes mais próximos. Na volta, cercou-se de profissionais experientes, uma bióloga, um pesquisador da Embrapa com especialização na área de uvas e vinhos na França, mais um arquiteto. Em três anos e meio, a Vinícola Ravanello estava pronta. “Em sete meses erguemos os equipamentos e começamos a funcionar”, orgulha-se.

Qual o melhor vinho do mundo? “O melhor vinho é aquele que você gosta”, afirma. “Eu já experimentei muitos e posso selecionar uns 20 para falar para você: este, sim, eu quero saborear novamente.” França, Itália, Espanha, Portugal, África do Sul, Austrália: em cada canto do mundo Ravanello destaca um rótulo saboroso e inigualável. A família segue o gosto pela iguaria e acompanha de perto os negócios – além de Rosa Maria, o filho, Alexandre, é o braço direito do pai, acompanhado pela esposa, Mariana Dietrich Ravanello. A filha, Juliana, é farmacêutica, e desenvolveu, junto com a equipe do Kurotel, os cosméticos que levam o vinho como principal matéria-prima. “Mas Juliana prefere a praia à serra, vive em Florianópolis”, entrega o pai.

Os vinhos Romanello primam pela qualidade. “Produzimos cerca de 50 mil garrafas ao ano. Não queremos quantidade”, explica Normélio, que usa 20% do que extrai dos parreirais de suas terras. “Preferimos buscar os tipos de uva nos seus melhores locais de cultivo. Se as terras próximas ao Uruguai são mais férteis para Tanat, trazemos a uva de lá. Em Santa Catarina, a 1200 metros de altitude, há terras de melhor desempenho para o Merlot. Trazemos para cá também. Assim temos o melhor do melhor, sempre”, garante. E há Pinot Noir, Tempranillo, Teroldego, “o vinho de cor mais intensa” segundo Normélio Ravanello. Tudo isso e mais espumantes brut e extra brut, e uvas em pequenos cortes, utilizadas para misturas especiais, além da linha Premium, a mais exclusiva da grife. Tudo carrega a sensibilidade e os sentidos da experiência e da delicadeza da família Romanello.

A chave de ouro, contudo, dá-se com o vinho Dionisio, do qual Normélio Romanello produz 1500 garrafas por ano, que chegam ao final de setembro para venda e somem feito pão quente. O Dionisio conta com um processo de fermentação diferenciado, é o produto top da vinícola, e o país já o descobriu – Romanello entrega caixas em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília, para gente que visita a vinícola por uma hora, conhece todo o processo de fabricação do vinho, prova-o e, depois, não quer saber de mais nada. Normélio Ravanello está rindo à toa, saboreando seu sonho realizado. “Lembro que falava para os americanos que queria me aposentar com 60 anos e eles ficavam apavorados, que isso não podia, que antes do 65 ninguém deveria se aposentar. Pois eu me aposentei faltando três meses para completar seis décadas de vida. Não me arrependo”, delicia-se ele, colhendo mirtilos e amoras de sua plantação de frutas silvestres, outro xodó de quem conhece a Vinícola  Ravanello.

                          

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