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Flores Raras

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

O filme Flores Raras, exibido no 41º festival de Gramado, RS, explorou um tema verídico da relação de duas mulheres. Baseado no relacionamento entre Lota de Macedo Soares,interpretada por Glória Pires, uma paisagista brasileira autodidata conhecida por idealizar o projeto do Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, com a poetisa norte-americana Elizabeth Bishop, interpretada pela australiana Miranda Otto. Um escândalo na época.

O debate sobre a homossexualidade é praticamente um assunto universal. Fatos verídicos antigos, no entanto, mostram que o comportamento “homo” sempre existiu, mas abafado e reprimido por pressões religiosas na cultura ocidental. O código de Hamurabi (1770 a.C) menciona uma mulher com direito a várias esposas. Na China milenar havia o conceito dui shi, no qual é mencionado o casal de mulheres, uma como a parte masculina e a outra como a parte feminina. O amor entre o casal masculino e o casal feminino era comum entre os gregos, inclusive de muitos filósofos com o direito à companhia de meninos e adolescentes. No entanto, na Idade Média, o assunto foi tratado como um crime ao pudor, o que perdurou até os anos recentes. Quando Mao Tsé-Tungchegou ao poder na China, o governo considerava a homossexualidade como uma "desgraça social ou uma forma de doença mental" e, durante a Revolução Cultural Chinesa (1966-1976), as pessoas que eram homossexuais enfrentaram seu pior período de perseguição na história daquele país.Hoje, no Afeganistão, os talibãs prescrevem a pena de morte para os homossexuais, mesmo que, em 1991, a Anistia Internacional passou a considerar esta discriminação uma violação aos direitos humanos.

Para Glória Pires, fazer o papel foi um grande desafio em sua carreira, porque as pessoas ainda sofrem com a discriminação, mesmo com todos os avanços de abertura comportamental. “Para mim, foi um grande desafio como atriz. A primeira coisa que me atraiu foi o fato dessa história não ser conhecida dos brasileiros. Em segundo lugar, o fato dela (Lota) viver naquela época, nos anos 50 e 60, uma relação homossexual assumida e ser quem ela era. Ela aglutinava a todos. Quando ela chegava a um ambiente, era dela”, analisou Glória.      Segundo uma das produtoras do filme, Lucy Barreto, o papel de Lota estava reservado para Glória Pires desde quando, em 1995, ela adquiriu os direitos para o cinema do livro Flores Raras e Banalíssimas – A História de Lota de M. Soares e Elizabeth Bishop, de Carmen Lucia Oliveira. A atriz aceitou o papel na hora, mas o projeto ficou na gaveta por 17 anos. A preparação de Glória Pires para o papel incluiu leituras das poesias de Bishop e cartas escritas pela escritora, além de livros sobre a situação dos homossexuais no Rio de Janeiro da época e depoimentos de pessoas que conviveram com Lota. Mas o tempo, diz a atriz, foi seu maior aliado. “Enquanto eles trabalhavam para viabilizar a produção, houve esse amadurecimento, pessoal e profissional. Acho que foi a maior preparação que eu pude ter. A gente não consegue issoapenas em livro”.

Pois bem, aqui vai a minha impressão do filme. Assisti-o no Festival de Gramado. Vivi a reação do público. Falo, portanto, do filme no seu todo: atores e seus personagens, fotografia, luz e sombra e o efeito de áudio com as suas trilhas sonoras. Admito que, ao saber da história, passaram em minha mente alguns preconceitos. Mas, a tela, na medida em que as cenas andavam, mudava a minha impressão. A cadeia de acontecimentos entre a arquiteta e a escritora (que chegou a ganhar na vida real o prêmio Pulitzer), encaixava-se sutil e harmonicamente, contribuindo também o ótimo desempenho das atrizes Glória Pires e Miranda Otto para os seusrespectivos papeis. Nada foi forçado. Tudo corria com naturalidade. Na maneira como o filme foi conduzido, o drama parecia cercado de um invólucro luminoso, impactando o espectador com sentimentos suaves e maravilhosos. A impressão que se tinha é que o affair era divino e puro. Eu ouvia a minha própria satisfação. Parecia que o público também reagia com uma espécie de libertação interior de velhos e mofados preconceitos. Não posso entrar em todos os detalhes para não estragar o ar de surpresa aos que ainda não o viram. Apenas quero traduzir ao leitor o meu sentimento do resultado do filme sobre mim. Acho que filmes assim fazem os relacionamentos humanos arderem em cores novas e encontrar nisso uma nova forma de viver. Deduzi que o amor entre as pessoas não deve pedir entrada, nem tampouco exigir, deve chegar por si mesmo e, isto, pode ser tanto entre um homem e mulher, entre dois homens, entre duas mulheres, ou até mesmo entre três mulheres, conforme a história do filme Flores Raras. O amor está acima do preconceito. A natureza está gravada dentro do ser humano, não nos costumes, nem nos credos, nem nas ideologias. Ele está simplesmente acima.A vida interior com suas fantasias e fantasmas, com sua doçura ou amargor, cabem somente ao indivíduo, não ao rebanho, não ao grupo, não aos outros. É inevitável que os amantes tornem-se pessoas solitárias e o tipo de vida as obrigue a romper com os chamados relacionamentos normais e até familiares.

Neste drama, Lota Soares e Elizabeth Bishop tiveram seus mistérios, viveram os seus sonhos, mas não puderam evitar asconsequências, quando a relação tornou-se um triângulo amoroso. Mas viveram o seu amor e a ele dedicaramaltares. Como o filme baseou-se em uma história real, olho o fato da altura de uma filosofia existencial e algo me atreve a concluir que a vida de cada pessoa é encontrar o seu próprio destino e vivê-lo inteiramente até o fim. Mas em todas as partes, em todas as culturas, são poucos os homens e poucasas mulheres que não sucumbem à pressão da opinião coletiva. Contra tais quedas o filme é um ótimo antídoto.

 

Cinema - Festival de Cinema de Gramado - Gloria Pires

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