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Nunca Saberemos

Por Lauro Patzer

 

Meu assunto é a foto acima. A câmera do fotógrafo da revista Exclusive BM, capta um momento bastante singular, incomum, raro e dificilmente repetível: a conversa de dois nonagenários. Ambos têm em comum a cadeira de rodas, o uniforme e uma história. Setenta anos atrás estiveram nas proximidades do lugar onde, agora, se encontram. Setenta anos atrás ambos presenciaram a maior operação aeronaval da história.

Mais que isso. Participaram das batalhas. Encontravam-se inseridos numa cacofonia macabra de roncos de motores de aviões, de anfíbios e na estridência de sirenes. Ouviram gritos, gritos de ordem, gritos de pavor, enquanto voavam pedaços de corpos de seus companheiros em sua direção. Voavam também capacetes para o mar e saltavam queixos arrancados pela cuspida letal das poderosas metralhadoras alemãs MG 42. A metade deles sequer chegou tocar a areia da praia. 

Por incompreensível razão das circunstâncias, os dois sobreviveram. E estão ali, no momento, servindo de peças vivas de um museu. Um museu humano em absoluta fase de extinção. Estão cercados de curiosos como eu. Estão cercados de fotógrafos, jornalistas, cronistas. Mas, naquela suprema situação, não havia tempo para perguntas. Apenas um tempo para a foto. Foi o que o André, muito oportuno, fez. 

Agora em casa, depois de quase onze dias na Normandia, o momento é de refletir sobre tudo o que vi e ouvi. Também de juntar todo material colhido. De olhar foto por foto. Anotação por anotação. E foi aí que me fixei em algumas fotografias, entre elas a que estou descrevendo. Mas, diante desta foto era impossível ficar indiferente. A foto me coloca diante de dois homens retidos pelo tempo. Mas dois homens que pude ver. Duas testemunhas vivas que conheceram os limites do suportável. E eles estavam conversando. Qual seria o assunto? Entreolharam-se com  muita serenidade. Em seus rostos, agora vendo-os retidos na fotografia, não há  qualquer vestígio de aflição pessoal, nem de desespero ou qualquer angústia. Afinal, no inferno eles já estiveram. Experimentaram todos os tormentos possíveis. Não há nada mais de pior a temer. Encontram-se agora num plano superior onde tudo está em ordem em suas vidas. Apenas aguardam o sobrevoo, não de um caça barulhento, mas do arcanjo convidando-os ao suave e doce descanso merecido.

Nesta altura, já não é tão importante saber sobre o que estavam conversando. A sua linguagem facial cheia de significados já bastou. Em si ela despertou mil reflexões. O que importa agora é saber de onde tiraram tamanha paz que ilumina os seus rostos?

Dia D - Normandia

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