logo
barraCinza
barraBranca

Ushuaia, uma viagem de automóvel

 

Por Arno Bayer*

 

Determinado dia eu o meu amigo Bruno Ries, numa dessas conversas empolgadas  sobre viagens, tomamos uma decisão: ir de carro até Ushuaia. Depois de baixar a poeira do calor emocional, colocamos os pés sobre a realidade e sabíamos que entre a ideia e a execução da viagem muitas providências tinham que ser tomadas. Uma viagem a um lugar com quase cinco mil quilômetros de distância precisa de um bom planejamento, de um roteiro e precauções. Pois a viagem a Ushuaia significava também Estreito de Magalhães, Canal de Beagle, Parque de Torres del Paine no Chile e Parque Nacional de los Glaciares. Na logística avaliamos o tipo de estrada, os longos trechos de total isolamento,  o clima e os possíveis locais de hospedagem.

 

A viagem

Chegou o dia. Partimos de Porto Alegre rumo à terra dos pinguins, dos lobo-marinhos e dos barulhentos cormorões. Nos acompanharam a Loure, minha esposa e a Georgina, esposa do colega Bruno. Partimos em direção oeste, uma verdadeira travessia do Rio Grande do Sul, para entrarmos em território uruguaio, atravessar de norte a sul aquele país para depois entrarmos na Argentina. À medida que rumávamos ao sul, a paisagem se modificava. Estávamos na Patagônia, essa vasta área que leva à Terra do Fogo. Ali é possível encontrar desertos frios e secos, florestas e bosques de pinheiro, vales e rios, montanhas e principalmente gelo, os glaciares. A grande surpresa é a oscilação do tempo, a qualquer momento, com um céu limpo, pode surgir uma tempestade imprevista. De repente, ouvimos um estranho zumbido em torno do carro, que balançava. Pó vermelho no ar. No dia seguinte, um jornal no hotel onde estávamos hospedados, comentou a passagem de um tufão de 110 quilômetro por hora pela região.

 

Península Valdes

A 1500 km de Buenos Aires, na província de Chubut, fica a península Valdés. É o local onde se encontram duas correntes marinhas, uma quente do Brasil e outra fria vindo das Malvinas. Este choque de águas produz condições ideais para  o crescimento de abundante fitoplâncton, alimento rico para a vida animal. Indo do simpático pinguin até a gigantesca baleia, passando pelos preguiçosos leões-marinhos. Na entrada da península encontramos a simpática acolhedora cidade Puerto Madryn. A localidade é um dos centros de turismo, mais importantes da região patagônica.

Na província de Chubut ao longo da estrada  via-se algumas bombas extraindo petróleo do sub-solo.

 

Churrasco  de cordeiro patagônico

O churrasco de cordeiro patagônico é um grande clássico da culinária regional. É impossível visitar a região e não saborear um delicioso churrasco de cordeiro acompanhado de um peculiar vinho local. O cordeiro é assado lentamente e inteiro. A parte traseira  fica sempre voltada para cima. Claro, tínhamos que prová-lo.  Foi muito delicioso.

 

Colônia de pinguins

Na região de Chubut encontramos a maior colônia de pinguins-de-Magalhães do mundo, uma espécie muito abundante. É possível caminhar entre estas simpáticas aves, porém, não muito cheirosas, por caminhos bem demarcados, entretanto, não se pode tocá-las. Na alta temporada, entre setembro e abril estima-se que mais de um milhão destas aves invadam a orla.

 

Estreito de Magalhães

Quem não se lembra das primeiras aulas de História da América? Muitos nomes e muitos lugares para decorar. Um deles foi Fernão de Magalhães. Este em 1520, realizou a primeira viagem documentada para a região do extremo sul da América do Sul. Denominou-a, Terra do Fogo, porque viu fogueiras acesas pelos nativos às margens do estreito, que hoje leva o seu nome. 

Em 27 de novembro de 1831, partiu da Inglaterra uma expedição com o objetivo de evangelizar os nativos do extremo sul da América. A expedição levava consigo o naturalista Charles Darwin, que na região fez importantes observações científicas.

O Estreito de Magalhães é uma passagem navegável de 600 km de extensão e tida como a mais importante passagem entre o Atlântico e o Pacífico. A profundidade do estreito é de 1000 a  4000 metros e a  largura entre 3  a 32 qiolômetros. É uma região de difícil navegação por causa dos ventos fortes. A travessia no estreito é feito de balsa e demora aproximadamente 20 minutos.

 

Estrada de rípio

Rípio é o nome que os argentinos dão às estradas de cascalho, muito comuns no sul da  e também no Chile. O leito da estrada é coberto por uma mistura de terra com cascalhos ou pedregulhos de tamanhos variados. Dirigir nestas vias exige um certo cuidado, pois o comportamento do carro é muito diferente. É comum encontrar carros com o parabrisa quebrado. A estabilidade do veículo fica bastante comprometida, pois os pedregulhos roliços comprometem  a estabilidade, exigindo menor velocidade.

 

Ushuaia 

Chegar a Ushuaia provocou a emoção de um percurso muito longo e desconhecido. Enxergar o no seu pórtico de entrada a legenda "fin del mundo" além nos transmitiu o sentimento de uma meta alcançada. Não inteira, porque uma vez hospedados aí, iríamos, gradativamente, visitar toda a região.

Ushuaia é a capital da Província de Tierra del Fuego, parte do território é Argentino e parte do território chileno. Ela é significativa geograficamente por ser a cidade mais meridional do mundo. Muito próxima da Antártida, aproximadamente 800 km.  É bela e agradável e tem um forte pólo turístico.  A sua população gira em torno de 60 mil habitantes. O clima  é frio e úmido, com uma temperatura média anual bastante baixa. Mas está modernizada e no interior das casas ninguém passa frio. O aeroporto internacional a coloca em acesso rápida às grandes cidades. Seu porto mostra intensa movimentação marítima,  é alcançada  por via terrestre pela Ruta Nacional 3. A cidade tem um ar agradável, nela encontramos vários monumentos, edifícios históricos e museus. Apresenta boa infra-estrutura hoteleira e rica gastronomia, onde são servidos pratos tradicionais, como a centolla (caranguejo), a merluza-negra, os mariscos, a truta e claro, o cordeiro patagônico, que já havíamos provado ao longo da viagem.

O solo da região é fértil, porém de pouca espessura. Esta característica gera uma vegetação típica de árvores com raízes pouco profundas.

Chegar a Ushuaia torna obrigatório conhecer o estreito de Beagle e conhecer os seus habitantes mais originais, os lobo-marinhos. Eles não estão sozinhos. Têm por companhia os barulhentos  Cormorões. São aves marinhas divididas em 30 espécies. Duas destas espécies habitam as ilhas do canal.

O local, cheio de ilhas, foi motivo de conflito entre o Chile e a Argentina por longos anos, até a questão ser submetida ao arbítrio do Papa João Paulo II.

                     

                      Arno Bayer e esposa

 

Parque Nacional Torres Del Paine

Regressando, pegamos outra rota para conhecer novos locais. Saímos de Ushuaia e para alcançar este parque é necessário percorrer aproximadamente 880 km. A cidade mais próxima é Puerto Natales (chilena), porém, ainda distante de 110 km do Parque Torres del Paine. As distâncias são sempre muito grandes, a monotonia da paisagem é muitas vezes quebrada pela presença de animais típicos da região, guanacos e ñandus. O guanaco  é um camelídeo nativo da América do Sul, cuja altura varia entre 107 e 122 cm pesando cerca de 90 quilos. A cor varia pouco, passando de um marrom-claro a um mais escuro. O ñandu (ema) é uma ave cujo habitat se restringe à América do Sul. Apesar de possuir grandes asas, não voa. Usa as asas para se equilibrar e mudar de direção rapidamente durante a corrida. A curiosidade é que os indivíduos machos são os responsáveis pela incubação e o cuidado com os filhotes.

                     

 

O Parque Nacional Torres Del Paine está localizado na região de Magalhães ao sul da Patagonia  chilena. É considerado um dos mais impressionantes do Chile. É um parque que tem aproximadamente 242.000 hectares e onde se encontra  a cadeia de montanhas Del Paine que possui as famosas Torres Del Paine, que são gigantescas formações de granito  brotando do solo. É uma paisagem incomum de uma beleza indescritível. Picos rochosos fantásticos se harmonizam com rios límpidos, cascatas e lagos que espelham a paisagem deslumbrante.

Estes maciços rochosos que brotam no lugar e imprimiram em nossa memória um visual de imagens incomparáveis. Somente comparáveis em beleza pelas imagens do glaciar Perito Moreno do Lago Argentino em El Calafate.

 

El Calafate

El Calafate é uma aconchegante cidade onde tudo orbita em torno do Parque Nacional de los Glaciares, onde o Glaciar Perito Moreno é o mais conhecido e o mais importante. O Parque Nacional Los Glaciares é um lugar único no mundo, motivo pelo qual, em 1981, a UNESCO o declarou Patrimônio da Humanidade. Este parque abrange uma superfície de aproximadamente 600.000 hectares onde se encontram 47 glaciares.

 

Glaciar Perito Moreno

O glaciar Perito Moreno, pode ser visto de terra, de barco ou andar sobre ele. Fizemos o passeio de barco que chega próximo ao glaciar.  Navegamos entre blocos de gelo, mas sempre mantendo uma distância segura, pois despencam com frequência  gigantescos pedaços de gelo,  que produzem um estrondo enorme fazendo  balançar o catamarã. É um dos mais belos espetáculos da natureza.  Para se ter uma ideia, o glacial tem uma altura que pode variar de 40 a 60 metros. O glaciar Perito Moreno é  algo realmente impressionante. Ele está localizado a 80 quilômetros de El Calafate. O caminho até o Parque Nacional Los Glaciares é asfaltado, onde nos primeiros 40 quilômetros pode-se observar  a característica estepe patagônica. A viagem sempre surpreende pela beleza indescritível da paisagem até chegar ao acesso do Parque.

 

Glaciar Upsala

Upsala  é o segundo glaciar mais importante da região. Só é acessível por via fluvial. Durante  o passeio o catamarã navega entre gigantescos blocos de gelo que flutuam no lago. A imagem é impressionante. A cor dos blocos é de um tom azulado, proporcionando um espetáculo de rara beleza. Os gigantescos blocos de gelo, com os mais diversos formatos podem ser vistos por todos os lados, flutuando no lago.

Lembro que estas descrições fazem parte do retorno, que foi uma outra rota para aproveitar melhor a região do sul da América. Passamos por São Carlos de Bariloche com muitos encantos naturais. Nosso acesso ao Rio Grande do Sul também foi outro. Não repetimos o mesmo lugar ao sairmos do Estado. Entramos por São Borja e dali seguimos a estadual 287 até Porto Alegre num percurso de 584 quilômetros.

Nos meus dados logísticos, anotei um total de 10.893 quilômetros percorridos (ida e volta) e que exigiu 938,3 litros de gasolina (informação que pode ajudar outro interessado que deseja conhecer a "cidade do fim do mundo" e suas peculiaridades regionais). Para não esquecer. Em todo o percurso o único inconveniente mecânico foi o concerto de um pneu.

Para nós, digo eu, minha esposa Loure e o Bruno e sua esposa Georgina, a viagem teve um sabor todo artesanal. Não faltou criatividade no roteiro e sempre fomos muito espontâneos na escolha dos locais. Não nos submetemos ao determinismo de qualquer guia. Nos cansamos, divertimos e aprendemos muito. E crescemos culturalmente.

 

*Doutor em Ciência da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de Salamanca, Espanha

 

 

 

 

 

Bayeux - Estreito de Magalhães - Terra do Fogo

institucional anuncie contato