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Nossos Segredos

 

Segredos, vinho e confidências, na maioria das vezes andam juntos. Num modesto boteco, numa lancheria e até mesmo num sofisticado restaurante, onde há homens repetindo copos, ignorando o relógio, podem estar sendo contadas – sob o efeito etílico – histórias jamais ditas em circunstâncias normais.

Uma mesa de fundo de bar sempre me fascina pela sua geografia de isolamento. Ela pode ser um singular palco, onde a raça humana vai despojar a algum ouvido confiável o peso de um segredo que precisa ser aliviado. Pode ser a angústia do torpedo que nunca chegou. Pode ser o silêncio do celular que deveria ter soado; ou aquele desencontro que selou todos os encontros futuros; podem ser as nuanças de uma paixão impossível ou insustentável; pode ser o resultado perturbador dos frutos proibidos, onde o arcanjo como o seu gládio inexorável fechou para sempre as portas do paraíso secreto. Pode ser também o lamento da perdida juventude e ser um confronto com o gradativo fechamento dos caminhos que levariam a vida para momentos mais felizes.

Uma mesa de bar atopetada de garrafas não significa necessariamente um perfil de homens degenerados. Ela é o cenário do espetáculo humano em suas dimensões subterrâneas. É local de catarse de conteúdos pessoais sufocados e de lembranças doloridas. É o local aonde a profundeza psicológica vem à tona. É o momento das sombras virem à superfície e tornarem-se visíveis pela língua pesada e arrastada. Pelas palavras trôpegas. Nesta circunstância, há homens que esbravejam. Há homens que cantam. Há homens que choram. E há homens que preferem ficar quietos e solitários voltados para dentro do seu abismo.

Numa mesa de bar, às vezes, os ocupantes tornam-se mais próximos. Ficam companheiros. Ficam íntimos. Mais autênticos. Mais verdadeiros consigo e com os circundantes. Já foi dito que duas garrafas de vinho conseguem transformar estranhos em velhos conhecidos.

Numa mesa de bar se conhece aquilo o que homens e mulheres normalmente mascaram e escondem. Há muito mais verdade em suas palavras que nos momentos socialmente protocolados e moralmente considerados sérios. Nela percebe-se a face interior. Desmascara-se o muro erguido. O mundo secreto. Conhecemos mais adequadamente o ser, que por instantes deixa de ser um ator, uma marionete socialmente manipulada por essas mil e uma convenções exigidas pelos papéis do teatro social.

Exupéry e Freud já disseram que há muito mais verdade naquilo que uma pessoa esconde que naquilo que ela diz. O encoberto é sempre mais verdadeiro.

Ninguém expõe confidências lucidamente em praça pública. Mas homens tristes e solitários conseguem revelar sua carência sobre o efeito sugestivo dos copos.

As normas sociais catalogam as emoções que podemos demonstrar e os sentimentos que podemos viver. Isso faz com que as pessoas se protejam, se escondam, por encontrar mais juízes que amigos. Gérard Artaud, doutor pela Sorbonne, diz que os adultos mais sadios são aqueles que conseguem contar os seus segredos. Por isso, homens bebendo no fundo de um bar sempre me levam a refletir. Não, claro que não, não estou fazendo qualquer apologia ao álcool. Apenas vejo esse cenário com outros olhos, talvez, enxergando o lugar onde as derrotas pessoais mais completadas estão sendo reveladas. Vejo seres humanos exilando-se de sua realidade dolorida, que, por instantes, aproximam-se de suas verdades maiores. De seus segredos.

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