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A Revolução do Amor

 

“É uma evidência que salta aos nossos olhos, que percorre e transtorna permanentemente nossa vida privada. No entanto, mal ousamos confessá-la, a não ser na mais restrita intimidade: é o amor que dá sentido a nossa existência.” Assim começa o ótimo livro ‘A Revolução do Amor’, do filósofo francês Luc Ferry. Sou fã dos filósofos franceses – eles não tem medo de ousar e nem ficam tão apegados à história da filosofia, ao que já foi dito,  como a maioria dos filósofos de outros países. E também conectam suas ideias com a contemporaneidade, com questões reais, tirando a filosofia da torre de marfim que muitos acadêmicos insistem em colocá-la. Luc Ferry é um dos mais interessantes. E esse livro traz uma das melhores sacadas que li nos últimos tempos. Ele fala de uma revolução, que acontece silenciosa, uma era de reencantamento do mundo na qual o amor, em todas suas faces, toma o lugar central. O amor como princípio fundador de uma nova visão de mundo. Ao contrário do que a maioria das pessoas esperava - que fôssemos entrar um uma era de vazio e fim de todos os princípios e valores éticos – o amor e a valorização dos laços afetivos vem pra substituir os sentidos que antes eram dados para nossas existências.

Em outros tempos outros sentidos ditavam nossa ética: o Cosmos dos gregos, o Deus dos judeus e cristãos, a Razão do humanismo moderno e republicano, entre outros. Mas hoje quase ninguém morre por uma pátria ou um deus. Sobraram os laços afetivos. Pelas pessoas que amamos (amigos, familiares,mulheres, maridos) somos capazes de nos sacrificar. E nisso consiste a revolução do amor que acontece, para a surpresa de todos, numa sociedade supostamente condenada ao individualismo.
 

Gosto muito de ler um filósofo como Luc Ferry escrevendo isso, falando do amor como objeto digno de pensamento conceitual. Pois sempre coloquei o amor como peça central da minha vida. Aprendi em casa o quanto os gestos de carinho e generosidade são eternos e a repercussão que eles tem ao meu redor. Lembrei desse livro semana passada, quando estava no hospital com minha mãe, que agora está bem, mas passou vários dias internada com pneumonia e apendicite. Ela foi, sem dúvida, a responsável por eu nunca considerar o amor assunto menor na minha vida. Ela é tipo de pessoa que tem uma generosidade desmedida e incondicional e uma simpatia linda, sincera, daquelas que geram sorrisos inevitáveis. No terceiro dia o quarto dela já era hit entre os quartos do hospital, parecia uma festa. A cada entrada de um novo enfermeiro ou enfermeira surgia um novo papo, uma brincadeira, comentários sobre a novela, um agrado. Um deles chegou a comentar que um outro tinha dito: “Você ainda não foi lá? É o quarto mais divertido!”. Era a energia de amor da minha mãe transbordando em forma de leveza mesmo num momento difícil.

Minha mãe deitadinha na cama e eu no sofá do lado, dia e noite, durantes os dias que ela ficou no hospital. E ela me dizia ‘não precisa ficar’. Mas não era questão de ‘precisar’, eu respondia. Era o caminho natural do ciclo que ela gerou: o amor que ela me deu, eu ali retribuía. Como fiquei muitos dias lá com ela – e não há muito o que se fazer num hospital - fiquei contemplativa & filosófica, pensando na beleza do Tempo e no quanto devemos fazer as pazes com ele. Pensei na passagem das gerações, no aprendizado que vem com os anos, nas lições que levamos de cada pessoa que toca nossa vida. No amor. Lembrei da carta que meu pai escreveu para a família antes de morrer na qual ele dizia que ‘nenhum homem é uma ilha’. Frase tão básica mas tão verdadeira. Eu pensando em tudo isso e minha mãe ao lado, em um desses dias, quase dormindo, me diz baixinho: “Eu ensinei e vocês aprenderam”. Sim, eu tinha aprendido. Em um mundo sem deuses e pátrias pautando nossas ações, a única coisa que temos é um ao outro. E não precisei ir muito longe pra entender isso. Minha revolução do amor começou em casa. 

Amor - Luc Ferry - Psicologia

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