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O ser esvaziado de si

 

Pressupondo sermos pessoas analisadas, conseguimos hoje vislumbrar as faces daquelas que fomos ontem? Ou será que ainda continuamos as mesmas pessoas, usando as mesmas máscaras? O que, de outrora, se conserva em nós: somente a máscara ou, por trás dela, permitimos surgir a essência desvelada de um ser singular e extraordinário? Pautamos nossas existências, entre passado e presente, por qual paradoxo: pelo dos acontecimentos cotidianos ou pelo das verdadeiras experiências?

 

Espaços e tempos, palcos e cenas, viagens e paisagens podem convergir em reflexos e invocar memórias involuntárias que traduzem aquilo que experimentamos pela via das sensações, através dos sentidos; tudo o que nos tocou profundamente o ser. Ou não, se assim optarmos. Mesmo assim, aquilo que decidimos ignorar permanece ali. De vez em quando somos levados a este novelo absurdo de enlaces que dentro de nós armazenamos, quem sabe enrolados nas vísceras.

 

Alguns, percorrendo tais caminhos, tecendo fios e tramas, optam pelo não-choro, pelo não-lamento ante as vicissitudes da vida.   Outros se desfazem integralmente em soluços e lágrimas. Há quem prefira olhar bem fundo, dentro de si, mesmo que isso custe enxergar coisas que não se queria. Existem também os alienados da vida e ainda os alienados de si – esses devem sofrer. Todavia, por que se martirizar quando existem horizontes esperando? Por que fugir dos aprendizados da vida possibilitados unicamente pelas experiências? Não dizem os psicólogos que é necessário enfrentar, pois no enfrentamento é que se desvelam o ser e o cerne de suas questões.

 

Pressupondo sermos pessoas analisadas, estamos de fato procurando por nós no mundo à nossa frente? Estamos dispostos a engolir o mundo e nossas versões e nossas máscaras? Determinadas pessoas terão digestão de rei e irão se sentir saciadas, plenas; determinadas pessoas apenas sentirão o sabor ácido, ou extremamente doce, da experiência e decidirão cuspi-lo; determinados sujeitos, tamanha a náusea, irão regurgitar coisas que, obviamente, lhes provoquem sentimentos e sensações viscerais.

 

Falar em experiência presente indicando um conhecimento vivido, ou de sua ausência no baile de máscaras da vida, implica lembrá-la pelo olhar de Walter Benjamin, filósofo, sociólogo, tradutor, crítico literário e ensaísta alemão nascido em 1892, cujos escritos nunca foram tão atuais, encontrando reverberações muito interessantes no contexto presente. Em um de seus textos ele afirmou que a máscara do adulto se chamava experiência. Isso no ano de 1913.

 

Protegido por esta máscara, tanto o indivíduo do passado, como o do presente, defende-se nos constantes embates da vida em sociedade. Todavia, a mesma máscara que esconde um rosto, anula a possibilidade de um verdadeiro conhecer. A vida contemporânea é cheia de embates e embates cruéis; é uma guerra constante contra si e contra todos. O contexto das coisas, tais como estão postas, levou o homem moderno a uma espécie de cegueira e ele se tornou, infelizmente, frio, insosso. Dono de uma identidade que a priori só encontra sentido num determinado palco social. Só que, pela própria maneira como leva a sua vida, afasta-se das experiências advindas do universo do qual faz parte, de todos os demais palcos que lhe convidam a bailar.

 

Estamos conscientes de que a pressa é de fato inimiga da perfeição, imersos no culto da velocidade, engendrado pela otimização do tempo, energia que movimenta o mundo contemporâneo? Benjamin já realizava apontamentos sobre um grande sintoma da modernidade: o esvaziamento de conteúdo, e de experiência, verificado entre as pessoas que, por trás de suas máscaras, vivendo hoje sob a égide do fast, muito pouco têm a oferecer a si, tampouco ao mundo.

 

A vida nas grandes cidades e a constante corrida contra os ponteiros do relógio podem alienar as pessoas a respeito do universo, embora a mais preocupante alienação seja aquela que diga respeito a si mesmo. É chegada a hora de o homem moderno apertar o botão que desativa o piloto automático. É chegada a hora de refletir sobre um mundo e sobre pessoas que se comunicam através dos sentidos, não via tela do computador, não via redes sociais virtuais – embora estas concedam certo tipo de experiência também.

 

A cegueira provocada pelo contemporâneo, a despeito de sua natureza tecnológica, criou não apenas uma grande teia de computadores e cabos e sinais sem fio espalhada pelo globo, mas também teias que dificultam um olhar sincero do mundo. Lembrando que máscara é uma palavra que, provavelmente, se originou no latim, mascus, ou masca, o equivalente a fantasma, ou no árabe, maskharah, indicando palhaço ou ainda homem disfarçado. Nunca identidade, individualidade, coletivo e solidão foram palavras tão próximas. Nunca as pessoas estiveram tão próximas virtualmente e tão afastadas do sentido de presença, de real, de contato e improvisação. Tempo de coisas, tempos e espaços programados. Tempo de vida programada. Tempo em que reina o ser esvaziado de si.

 

Ora, que sentido existe na vida senão a experiência advinda do contato? Não o contato consigo mesmo – este obviamente, quando realizado, e deve ser realizado sempre, gera ricas reflexões e ressignificações. Mas o contato com o exterior e, por tabela, com semelhantes. A vida moderna está carente deste contato e é chegada a hora das pessoas voltarem a se falar. É chegada a hora em que a música termina e os pares, no baile de máscaras, retiram suas vendas, ou teias, ou proteções, fitam-se e saem para conversar e se conhecer.

 

Portanto, um conselho: é chegada a hora de inspirar profundamente e deixar-se levar pelo ar. Adverte-se que não haverá segurança alguma neste metafórico passeio aéreo, onde o check in não acontecerá no balcão da companhia aérea, mas no coração. O voo da experiência, informa-se, pode ser turbulento, pode gerar ansiedade, pode ser fatal se, lá de cima, algum problema implicar em uma queda abrupta, onde tudo se transformará em cacos e peças retorcidas. No caso de corpos humanos, pouco sobraria. Afinal, não é, a carne, fraca?

 

Intercorrências à parte e ainda acreditando-nos analisados, voltemos ao pensador alemão que nos diz, nas entrelinhas de seus escritos, que não devemos temer embarcar neste voo. Para Benjamin, a experiência indica um conhecimento vivido, conhecimento este que possibilita um crescimento. A experiência tem uma dimensão particular e possui, na crítica, a sua ação, concedendo autoridade ao saber. São as experiências que fazem da vida o que ela é – um aprendizado constante.

 

Alegoricamente, poderemos sobrevoar uma linda floresta, vislumbrando uma paisagem panorâmica bela. E se decidíssemos nos insinuar, nesta viagem, por entre as árvores? Certamente o risco de ir de encontro a galhos, a troncos, a pedras seria recorrente – mas o cheiro, os sons, os contatos seriam muito interessantes. Seriam experiências.

 

Estando a serviço do tempo, das obrigações profissionais, da correria das grandes cidades, o homem moderno deixa muitas vezes de realizar um olhar atento em direção ao cotidiano, a si mesmo e ao seu semelhante. O resultado de tudo isso: não se procura mais um sentido para a existência, senão apenas a sobrevivência. E o produto final: um total esvaziamento de tudo o que há.

 

Mais uma alegoria: em um lago cristalino, sol de verão no céu, estamos na superfície – lutando contra a força da gravidade que nos leva para baixo, mas confortáveis com aquele flutuar característico e atenuante de qualquer carga que só a água proporciona. De repente, decidimos pelo mergulho em direção às profundezas, onde muitas cenas submarinas nos aguardam, mas onde a falta de ar pode vir a sufocar. Qual imagem ficaria em nossa memória por mais tempo: a do sol ou a do quadro subaquático, que implicou um esforço e um risco?

 

Observemos nossas máscaras. Observemos o baile. Observemos como seria dançar sem se preocupar com a aparência sem cera, sincera. Optemos pelo paradoxo da experiência, pois ela é que dará sentido a alguma coisa em nossas tão metafóricas vidas. Que estejamos sob a ditadura do tempo, mas não nos permitamos dela sermos vítimas. Alcemos voos, mergulhemos, dancemos, nos embrenhemos na mata. Com a consciência de que viver sozinho é bom, é necessário, mas enquanto momento. A continuidade do ser se dá no contato com o outro. Do contrário seria tudo demasiadamente presumível. Então, já que pressupomos sermos pessoas analisadas, façamos valer a pena. Ou o ser preferirá continuar esvaziado de si?

 

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