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A ÚLTIMA PEÇA DO MEU QUEBRA-CABEÇA

 

Não é possível amar sem pensar no futuro. Não é possível amar sem a esperança, amar desfalcado da expectativa, amar concentrado somente no momento.

Eu só me apaixono por quem enxergo no ato como minha esposa.

Eu só me apaixono prometendo.

É um dia a ser guardado por todas as datas.

Mesmo que a ansiedade devore as unhas, as cutículas, traga bruxismo, cólica, pedras nos rins.

Mesmo que seja necessário dobrar as consultas da terapia durante a semana.

Mesmo que fique sozinho em minha intensidade.

Não consigo me envolver com quem sei que vou largar na semana que vem. Com quem não me entontece, não me perturba, não me confunde.

Não me enredo por segurança. Entrego-me para quebrar estatísticas, queimar calendários, agendas, diários. 

É um arrebatamento de derreter relógios, pulseiras e brincos.

É confiar que agora vai, agora tem que ser, agora é.

Entro na primeira semana já antecipando namoro, entro na segunda semana prevendo noivado, entro na terceira semana programando casamento, entro na quinta semana envelhecendo de mãos dadas e penteadeira no quarto.

Pode me chamar de burro, de tolo, de ingênuo. Acredito no amor mais do que em mim. E quebro a cara, e transformo a cara em vitral e sigo cortando a luz.

Minha esperança é pública. Minha fé é pública. Minha fome é pública.

Logo que tenho uma alegria, saio contando, saio festejando, saio me espalhando generosamente, saio me espelhando nos outros.

Aviso que estou amando, aviso que estou sedento, aviso que estou transbordando de casualidades, aviso que é para toda a minha vida.

Serei sempre um veterano da estreia. Serei sempre a criança que extraviou a última peça do seu quebra-cabeça e admira o trabalho imperfeito em cima da mesa.

Não reclamo da ausência de um dos encaixes. Perder algo me torna mais atento para tudo.

A peça que falta será a aliança. O décimo primeiro dedo de minha mão.

Não nasci pronto.

Amor

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