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Alma = Arte = Alma 

 

Por Isabel Reis

 

Será que uma pequena parcela de desconhecidos um pouco por todo o mundo foi, é e continuará, enquanto o mundo for mundo, a ser bafejado por aquilo que alguns chamam de sabedoria, outros sensibilidade... Alma pura... Círculos existem que o veem como magia, tal é a capacidade de reproduzir beleza, captar pureza, transmitir sentimentos... Ascender a outro estado de energia que pura e simplesmente nos faz acreditar que o mundo é muito mais do que aquilo que vemos tristemente retratado todos os dias em jornais sensacionalistas e sem escrúpulos, que roubam centelhas de vida... E que esses desconhecidos devolvem novamente, naquilo a que eu... E outros como eu, pura e simplesmente, chamamos de... ARTE!

 

E essa palavra tão simples, mas de uma beleza e grandiosidade tão tamanha, está nos “pequenos” momentos grandiosos e fabulosos que acontecem todos os dias a todas as horas e nem nos damos conta... Nos jardins que percorremos sem ver, nas ruas da cidade onde moramos, mas que infelizmente desconhecemos... No quadro que fica pendurado dia após dia no café onde entramos todos os dias e nos chama através das pinceladas de cor que o preenchem... Na música que passa na rádio e nos acompanha todos os dias a caminho do trabalho, e escolhemos não ouvir, mas que nos falta quando não está ligada... Na vitrine da florista pela qual passamos e nem sequer paramos para admirar e que, no entanto, consegue preencher os nossos dias de cor com a sua vitrine tão cheia de luz e de vida... Na exposição de fotografia, que por acaso encontramos na rua e de repente nos faz parar... Deambular... Esquecer o que fazíamos... E nos leva a sonhar ou que, pelo contrário, nos choca... Tudo isso é arte... Tudo isso e muito mais... Tanto mais! Existe tanto mais que até arrepia... E, sobretudo, basta ter sensibilidade e saber olhar para se conseguir descobrir a arte por si e em si! Julgo que fica difícil não encontrar arte em cada um de nós, todos a temos, uns mais do que outros, é possível e mais do que certo... Mas duvido que ninguém a tenha... É contra a natureza!

 

O ser humano em si é uma obra de arte por natureza, daí que julgo ser difícil uma obra de arte não ter arte... Mas enfim... Tudo é possível!

 

É possível encontrar arte em cada canto, em cada olhar... Aliás, folhear esta revista é folhear uma obra de arte da primeira à última página... A cada nova edição, uma explosão de arte... Uma estonteante “viagem” através dos nossos sentidos, que nos faz sonhar uma vez mais e esperar ansiosamente pela próxima “viagem”... E isso só é possível através dos grandes artistas que a cada edição se empenham de corpo e alma e nos dão o melhor de si... E quando achamos que já deram tudo, eles descobrem novas formas de nos fazer levantar voo e se isso não é arte então não sei o que seja!

 

No que diz respeito aos ditos “bafejados” desconhecidos que criam ARTE grandiosa, por vezes são reduzidos a uma pequena comunidade conhecida como ARTISTAS... Alguns nessa comunidade nunca passam disso mesmo... Simples artistas... Que nunca chegam a ser conhecidos, mas continuam por esse mundo afora a criar... Porque vieram ao mundo não para serem conhecidos, afinal ser artista não é sinônimo de ser conhecido... Mas sim de alguém que traz a arte na alma e no sangue... Que a respira e sente... E que, não importa o caminho, o importante é que ela nunca deixe de fazer parte da sua vida... Do seu ser... Do seu mundo... Porque ARTE é a capacidade de reproduzir fora de nós algo que idealizamos na alma...

 

 

No entanto, existem aqueles que deixam de ser desconhecidos, ficam na história, viram lendas... Ídolos que passam a ser marcos e com isso deixam a sua marca no mundo! Muitos deles apenas durante anos, outros ao longo de séculos, tamanha foi a sua marca deixada no mundo, como é o caso de Shakespeare! A sabedoria que deixou, através das peças que criou, ainda hoje é das mais interpretadas no mundo inteiro! E quando um homem só consegue contribuir tanto para o mundo da arte merece o reconhecimento que lhe é atribuído... Ficar para a história e isso só por si, também é ARTE! Existe muito boa arte que, infelizmente, se perde nos meandros da vida, da burocracia, dos sonhos... Da demagogia, da falta de oportunidade e até dos oportunistas, no entanto, devemos celebrar a que se consegue concretizar e a que se têm conseguido tem sido maravilhosa!

 

Para celebrar algo tão grandioso como a ARTE...  Que para mim é como vida, como ar que respiro... Decidi entrevistar um Ator/Encenador português, de forma a dar a conhecer o seu ponto de vista do que é a ARTE... Da dificuldade que foi tornar-se artista numa comunidade tão reduzida e do que significa ser um artista num mundo onde a arte é das primeiras coisas que as pessoas abdicam quando deveria ser um dos principais alimentos da alma. O seu nome é José Lobato, oriundo de Lisboa, muito embora esteja a residir no Porto e a sua paixão pela representação começou em criança.

 

 

EXCLUSIVE Brasil Mundo: Com que idade é que foste estudar Teatro?

José Lobato: Aos 18 anos.

 

EBM: E sempre soubeste que era isso que querias?

José: Não, em criança julguei que queria fazer cinema.

 

EBM: Sério, mas com que idade?

José: Dos cinco aos 12 anos... Via-me do lado de fora a criar as personagens, a fazer parte desse sonho que era o cinema, como se fosse algo real... Sonhava ser eu do outro lado da tela. E segui o sonho!

 

EBM: Então e quando é que percebeste que afinal não era cinema e sim teatro?

José: Nunca deixei o sonho do cinema, fui estudar teatro, por ser a base, para aprender realmente o que é ser ator, para fazer bem e não fazer apenas por fazer! Entre os 16 e os 18 tive mais contato através das escolas que frequentei e percebi que realmente era algo sério e fui tornando o sonho realidade.

 

EBM: Os teus pais quiseram algo diferente para ti?

José: O meu pai tinha esperança que eu fosse arquiteto... Ele era, eu tinha algum jeito para desenho, mas não era a minha paixão. Sempre me dei muito bem em música também.

 

EBM: Quando decidiste seguir teatro qual foi a reação deles?

José: Apesar de tudo, apoiaram-me... A minha mãe sempre teve uma veia artística, que foi reprimida e, quando decidi estudar teatro, apesar dos receios, ficou feliz com a minha escolha.

 

EBM: Já vão cerca de 18 anos desde que começaste a tua carreira, alguma vez pensaste em desistir?

José: Nunca... Apesar de todas as dificuldades inerentes à profissão, consegui sempre ter a força e o discernimento para seguir em frente.

 

EBM: O que é que a Arte no geral representa para ti?

José: Tudo! Sem arte, nem a preto e branco as coisas existiam... Desde as coisas mais básicas, os bens essenciais... Aos sonhos, aos pesadelos... Aos objetivos... A tudo o que nos rodeia... Tudo perdia cor... Sem arte não saberíamos sequer o que são formas, seguir os nossos instintos... Seríamos como animais irracionais! A arte, tal como o amor, é o que nos faz sentir, cheirar, tocar, provar, olhar... Apura-nos os sentidos, nos desperta para a vida!

 

 

EBM: E a tua Arte, o que é que ela representa para ti?

José: Começou com o enfrentar da minha personalidade, dando vida a outras, começou com o pisar o palco, enfrentar a minha personalidade como se não fosse eu, mas tendo sempre um pedaço de mim.  Visualizar tudo à nossa volta como se não estivéssemos em palco, como se fosse um mundo novo, é mágico... Poder levar o público a essa magia é mostrar a vida em pedacinhos, em pequenos retalhos... Mostrar o sonho de outras personalidades, refletido em cada alma sentada que assiste...  Ter a capacidade de arrepiar, arrancar lágrimas através de sentimentos que não são meus é gratificante... Quando sentimos que as pessoas se embrenham nestes pequenos retalhos de vida em palco é uma sensação única... Começamos por trabalharmos a nós mesmos quando estudamos teatro, para sermos “profissionais da alma” e, de repente, o mais importante deixa de ser o “eu” e passa a ser o público. Portanto trabalhamos a nossa alma, para moldarmos a alma das personagens, quer seja a rir, a chorar, a gritar, a correr, a olhar no vazio, quer seja um grito em silêncio, ou um monólogo shakespeariano, o objetivo principal no meio desta tempestade de sentimentos é passar estes pedacinhos de vida, de sonho e de realidade, para o público, deixando-os sonhar conosco... E às vezes não conseguimos atingir nem metade do público, o sonho é atingir toda a gente, mas tal como disse Shakespeare em Hamlet “vale mais uma pessoa consciente, do que uma plateia inteira de ignorantes”.

Por isso a minha arte é a minha vida, o meu sonho, sangue, suor e lágrimas! Está nas minhas veias, faz parte de mim!

 

 

E este é o José Lobato, ator/ encenador... E que muito tem dado para o panorama artístico em Portugal, não só através da criação de variadas peças, sendo a última uma comédia com o título Idiotas, uma compilação de textos nonsense, alguns seus, outros baseados nos clássicos Monty Python, como também através da formação de muitos artistas... Ou seja, um artista com a arte na alma... Ou a alma na arte... Será que é mesmo possível dissociar estas duas palavras?! Em que realidade mesmo é que a arte vem sem alma ou a alma vem sem arte?

 

Não sei dizer... Só sei que deve ser uma realidade bem triste... Porque ver arte sem alma é como ver um palco sem luzes...  Um espetáculo despido de vida, sem ninguém para aplaudir... E cabe a nós, espectadores... Acabar com esses “palcos” despidos de vida por esse mundo afora! Cabe a nós “alimentar” a nossa alma com a arte que muitos artistas criam com o seu sangue, suor e lágrimas... Para que cada vez menos existam “palcos” despidos de vida! E cada vez menos as pessoas abdiquem da arte, o alimento da alma... Em detrimento dos bens materiais que as tornam “escravas” das vidas sombrias!

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