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Belezas Submersas

 

Por Ranieri Maia Rizza

 

Uma modelo que vive em diversas capitais do mundo, faz editoriais de moda e capas para publicações de destaque e desfila para conceituadas grifes. Ela gosta de fotografar suas andanças e em um mergulho submarino se depara pela primeira vez com um tubarão. Passa a unir o prazer que já tinha em estar atrás da câmera e, tendo como alvo de sua lente o mestre dos mares, faz disso sua nova profissão e luta pela preservação desse grande peixe, procurando desmistificar a imagem dada a ele de um predador assassino.

 

 

Essa narrativa, que pode parecer inusitada, tem como protagonista a gaúcha Raquel Rossa, que com sua beleza ilustrou revistas como as edições da Vogue brasileira, italiana e portuguesa, Marie Claire, ID, Jalouse, L’Officiel,  Glamour, Twill, Grazia, entre outras, clicada por nomes como os brasileiros Jacques Dequeker (com quem foi casada por12 anos) e André Passos e os internacionais Patrick Demarchelier, Walter Boi e Damon Heath.

 

Para Raquel, que ingressou na faculdade de História e se formou em Jornalismo, o encontro com tubarões-caribenhos-de-recife, nas Bahamas, a fez ver o rumo que tomaria em sua vida. O momento até então era de incertezas, após decidir encerrar a carreira de modelo. Ela começou a viajar pelos variados oceanos e a identificar e registrar espécies. Em 2009, foi cursar Ciências Biológicas e está envolvida com o trabalho de conclusão sobre o tubarão-tigre, o seu tipo preferido. Morando em São Paulo, quando não está em águas como as da Polinésia Francesa, do Caribe, da Austrália, está dando palestras ou escrevendo para os veículos que colabora.  “O que me mobiliza é a minha paixão em ver esses animais tão mal compreendidos, mal interpretados, mas muito tímidos e sensíveis, estarem sendo dizimados pelo capricho humano. Olhar nos olhos de um tubarão é o sentimento mais pacífico da natureza”, conta Raquel, que traduz essa paixão em tatuagens pelo corpo, que define como seu oceano particular.  

 

 

 

Exclusive Brasil Mundo - Você tem uma história de buscas variadas em sua trajetória e essa transição pode ser vista como radical em sua carreira. Fale-nos disso...

Raquel Rossa - Comecei a modelar na adolescência, ainda em Caxias do Sul. Quando estava no último ano do ensino médio, aos 16 anos, participei de um concurso da Ford Models e fui uma das finalistas. Depois disso, vim morar em São Paulo. Fiquei por aqui durante um ano. Retornei ao Rio Grande do Sul. Fui então para Porto Alegre, onde comecei a cursar História, na PUCRS, e a trabalhar com iconografia Guarani, na parte de Arqueologia. Estudei Latim e Língua e Literatura Grega, além de iniciar os meus estudos em Francês e Italiano. Dois anos depois entrei na FAMECOS, também na PUCRS, onde cursei Jornalismo. Sentia que algo estava inacabado na minha vida, queria viajar e conhecer o mundo. Assim, retornei para São Paulo em 1999 e voltei a trabalhar como modelo. Minha primeira viagem foi para Milão, lugar que tenho um carinho muito especial, não apenas por ser cidadã italiana. De lá para Paris, minha metrópole favorita, e Londres, disputando lado a lado o espaço no meu coração com Paris (ainda bem que estão distantes há apenas 1 hora por TGV), passei a viajar frequentemente. Morei também em Nova York e Hamburgo, na Alemanha, além de conhecer diversos países com o meu trabalho. Sempre trabalhei com moda, tanto desfiles quanto editoriais. Apesar de ter uma beleza mais exótica, digamos assim, ou moderna, de vanguarda, também tive clientes bem tradicionais, como Giorgio Armani. Estampei publicações de Vogue Itália, Portugal, Brasil, Glamour Itália, Grazia, Marie Claire, Elle, Bolero, Twill, ID. No Brasil, entre outros clientes, Ellus, Iódice, Fórum, NK Store e Neon. O trabalho como modelo foi para mim algo que envolveu a minha paixão pela moda, enquanto cultura e parte da identidade de um povo ou época, mas, sobretudo, a minha paixão por viajar. Cito Mario Quintana: "Viajar é trocar a roupa da alma". A fotografia sempre esteve embutida neste pacote. Desde a época das câmeras analógicas, era uma maneira de eu registrar a minha história e eternizar na memória lugares, pessoas, acontecimentos, da mesma maneira como o papel da escrita em minha vida. Fui parando de modelar por uma necessidade pessoal, de realização e satisfação profissional. Queria fazer algo a mais. Até que comecei a mergulhar, embora nadasse desde pequena. Aliás, a minha relação com a água vem dos três meses de idade. E o mergulho era um desejo antigo, mas que não havia se tornado realidade ainda, por conta das andanças da vida e dos compromissos profissionais. Quando iniciei há sete anos, me senti como se fizesse parte daquele universo há muito tempo! Vi pela primeira vez um tubarão no meu primeiro mergulho, em Fernando de Noronha. Como eu estava em um momento de transição, a vontade de fazer algo relacionado à água, coisa que sempre me acalmou, pois é o lugar onde me sinto plena e em paz absoluta, foi crescendo e tomando forma. A fotografia já era para mim um hobby, por trás das câmeras. Assim, levar a câmera para baixo d'água foi um caminho natural, quase instintivo.

 

 

EBM- Com o tempo isso passou a ser o seu foco profissional? Como se dá esse trabalho? Você viaja pelos oceanos procurando espécies distintas de tubarões?

Raquel - Em 2008, estava morando em Nova York e fiz algumas viagens de mergulho pelo Caribe. Quando fui para as Bahamas pela primeira vez e fiz um mergulho com tubarões-caribenhos-de-recife – fui a primeira pessoa a cair na água e me deparei cercada por dezenas de tubarões –, não tive dúvida alguma do que faria da minha vida daquele momento em diante. Já estava pensando na ideia de encarar uma faculdade de Biologia e foi o que fiz. Em 2009, comecei a cursar Ciências Biológicas com o objetivo de batalhar pela preservação dos tubarões. Segui mergulhando o tempo todo, fazendo viagens a cada feriado, por conta das aulas. O foco foi se aprimorando para os tubarões. As viagens passaram a ser em busca dos grandes predadores dos oceanos, pelos quatro cantos do mundo. Já mergulhei e registrei mais de 15 espécies de tubarões. Atualmente, estou desenvolvendo um projeto de foto-identificação com os tubarões-tigre, a minha espécie favorita.

 

 

EBM - Existe um paralelo nessa mudança? Por mais improvável que pareça, de fotografada a fotógrafa? Do mundo da moda para o mar, para um universo de aventuras? O que é mais selvagem?

Raquel - Por mais improvável que pareça, existe, sim. A fotografia em si sempre foi uma paixão para mim. É completamente diferente estar em frente às câmeras e atrás delas. Você pode ter a técnica, mas de nada adianta se não tiver a sensibilidade do olhar, do ponto de vista. Isso é alma de artista. Técnica você pode aprender. Porém, isso apenas fará de você um bom técnico! A arte não se aprende. Você tem a sua, o seu olhar único e desenvolve essas habilidades e sensações com o passar do tempo. Sou uma autodidata na fotografia. A transição para o mar, para mim, foi algo extremamente natural. É o ambiente onde me sinto em paz, no silêncio, na imensidão azul. Os desafios quanto à fotografia são outros. Eu, por exemplo, não uso flash. Gosto de trabalhar com a luz natural que o mar filtra, tons monocromáticos de azul, mas especialmente o preto e branco. Adoro a textura do p&b, ainda mais para fotografar tubarões-tigre. Fazendo esse paralelo, é como se os tubarões estivessem vulneráveis, pois estão na frente da câmera. De certa forma, ela me protege. E não tenho dúvida alguma, o universo da moda é muito mais selvagem! É egocêntrico em demasia.

 

EBM - O que lhe mobiliza? É um amor e uma luta pela preservação desses animais e a desmistificação de que são ferozes e predadores do homem?

 Raquel- O que me mobiliza é a minha paixão em ver esses animais tão mal compreendidos, mal interpretados, mas muito tímidos e sensíveis, estarem sendo dizimados pelo capricho humano. Olhar nos olhos de um tubarão é o sentimento mais pacífico da natureza, para mim, é claro! Quem tem medo são eles. Nós somos os estranhos no ambiente marinho. Tubarões se assustam com as bolhas produzidas pelo nosso equipamento scuba. Nunca tive tempo para parar e pensar o que eu faria, de fato. As coisas foram acontecendo e hoje me vejo em uma posição que não há volta. Tubarões são fundamentais para a manutenção dos oceanos e de todos os ecossistemas marinhos. Eles desempenham um papel regulatório, pois são predadores no topo dos níveis tróficos, alimentam-se de presas doentes, injuriadas e, assim, mantêm o controle populacional desses animais, além de colaborarem para o melhoramento genético dos mesmos. O grande problema é que tubarões têm um tempo de reposição na natureza muito lento. Em geral, possuem uma maturação sexual tardia, um período gestacional longo e geram poucos filhotes. O ser humano não faz parte da dieta desses animais. Infelizmente, parte deste mito foi criado com o blockbuster Tubarão, de Steven Spielberg, lançado em 1975. Se Spielberg não fosse tão bom no que faz, isso talvez jamais tivesse acontecido! Estava criado o "monstro". Coincidentemente, o declínio das populações de tubarão começou a partir da década de 80, logo após o primeiro filme da série. Nas palestras que dou, um dos meus maiores objetivos é despir o mito errôneo que recai sobre estes animais. É preciso desmitificar, e não desmistificar. O mito de que tubarões são assassinos sanguinários é falso. São animais que existem há mais de 400 milhões de anos. Se pensarmos que vivemos em um planeta que tem 3/4 cobertos por oceanos, as previsões para a retirada dos tubarões é catastrófica. A cada ano, mais de 100 milhões de tubarões são mortos pelas suas barbatanas. Isso alimenta um mercado milionário, que tem os seus maiores consumidores nos países asiáticos, para atender à demanda por "sopa de barbatana". O finning, que é a remoção das barbatanas, que têm alto valor comercial, e o descarte do corpo do animal, já que a carne de tubarão não tem valor econômico, é a desgraça dos oceanos. E isso acontece em águas brasileiras, mesmo que, em novembro do ano passado, uma nova Instrução Normativa do Governo tenha estabelecido a proibição do finning no país. Entretanto, facilmente se encontra produtos de tubarão em restaurantes brasileiros.

 

 

EBM- Qual o melhor lugar do mundo para esse contato? Quais os que você ainda planeja ir?

Raquel - Bahamas é um lugar muito especial para mim. Considero o arquipélago caribenho como uma verdadeira "sharktown". Lá é possível mergulhar com diversas espécies de tubarão nas várias ilhas que compõem o país. Em Nassau, a capital, os tubarões-caribenhos-de-recife são garantidos em todos os mergulhos. Em Bimini, os grandes tubarões-martelo e, em Cat Island, os tubarões-galha-branca-oceânicos. Para mim, entretanto, a ilha de Grand Bahama é hors concours para encontrar os grandes bichanos. Lá, em Tiger Beach, estão os meus favoritos: os tubarões-tigre. É com eles que desenvolvo o meu projeto de foto-identificação. Além deles, dezenas de tubarão-limão. Esse cenário se deve muito ao turismo do mergulho. Desde 2011, a pesca de tubarões é proibida em todo o território das Bahamas, assim como o desembarque de tubarões e a comercialização de qualquer produto derivado dos mesmos. Polinésia Francesa é outro paraíso dos tubarões. Assim como as Bahamas, território protegido e onde o turismo do mergulho colabora para que isso seja possível. Rangiroa e Fakarava, dois atóis do Arquipélago de Tuamotu, são os melhores lugares para se mergulhar com tubarões na pérola do Pacífico. Encontros certos com tubarões-galha-prateada, galha-branca-de-recife, galha-preta, grandes tubarões-martelo e cardumes com centenas de tubarões-cinzentos-de-recife. Para mergulhar com o grande tubarão-branco, o sul da Austrália. Nossa, tem tantos lugares! Em agosto farei uma expedição para Galápagos, no Pacífico, para mergulhar com cardumes de centenas de tubarões-martelo e com o maior peixe dos oceanos, o tubarão-baleia.

 

EBM- Existiram momentos de perigo?

Raquel - Nunca vivenciei um momento de perigo mergulhando com tubarões. O único "perigo" para mim é a água fria! É preciso seguir uma regra básica: você não está no seu ambiente, então jamais moleste um animal ou qualquer outro ser marinho. Salvo se você tenha treinamento e razões para isso. Fiz um treinamento com tubarões nas Bahamas em janeiro deste ano, um programa de shark feeder, para alimentá-los. Para isso, usa-se uma malha de aço e capacete e, mesmo assim, não tive nenhum momento de estresse com aquelas lindas criaturas. Bem pelo contrário, foi uma das experiências mais sensacionais da minha vida. Na verdade, acho que nunca havia me sentido tão feliz e realizada!

 

EBM- Como ficou a carreira de modelo? Na fotografia quais são os seus projetos futuros?

Raquel - A carreira de modelo foi um período muito gratificante na minha vida. Fiz grandes amigos, conheci culturas diferentes, viajei por diversos lugares, não apenas naqueles em que morei, mas tantos outros a trabalho. Acima de tudo, reforçou o meu sentimento de desapego pelas coisas, pois a vida é dinâmica. Por mais que às vezes a gente não sinta dessa maneira, mas o momento presente é sempre o mais gostoso. Provavelmente, sem o meu trabalho como modelo e com todas as voltas que a minha vida deu devido a ele, eu não estaria fazendo o que faço hoje em dia. Na fotografia, é continuar fotografando tubarões e, com isso, batalhar pela preservação dos reis dos oceanos. Tenho o projeto de um livro para este ano e de uma exposição no Rio Grande do Sul.

 

EBM- Os tubarões estão presentes “full time” em sua vida, inclusive em tatuagens...

Raquel - Sim, estão! As minhas tatuagens são como o meu oceano particular, me fazem sentir próxima dos tubarões mesmo quando estou em terra e, principalmente, no meu dia a dia nessa cidade caótica que é São Paulo. Estou terminando a faculdade de Biologia e fazendo o meu trabalho de conclusão de curso com os tubarões-tigre. Pesquiso e leio o tempo todo. Edito o meu próprio site (www.raquelrossa.com), sou colunista da Divemag, uma revista de mergulho (www.divemag.org), e do Instituto Aprenda Bio (www.aprenda.bio.br). Na Divemag estou publicando uma reportagem sobre o Shark Finning. No Aprenda Bio, escrevo a coluna SubAquatica. Além disso, colaboro com o projeto Divers for Sharks (www.d4s.eco.br) e sou Embaixadora do Mar do Instituto Sea Shepherd Brasil (www.seashepherd.org.br).

 

EBM- Na maior parte do tempo, você viaja sozinha com o equipamento.  É um trabalho solitário?

Raquel - De certa maneira é um trabalho solitário. Normalmente viajo sozinha com uma penca de equipamento que não acaba mais! Equipamento de câmera, caixa-estanque, computador, equipamento de mergulho, muito protetor solar e repelente! Adoro viajar sozinha, principalmente para lugares que nunca fui antes. Isso faz parte do meu espírito aventureiro e também é algo que o trabalho como modelo me ensinou bastante. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais estar submersa, no mundo do silêncio, me faz tão bem e me acalma a alma! No caso da pesquisa, tenho dois orientadores que me acompanham, mas basicamente é um trabalho que realizo sozinha, de muita leitura e concentração. O processo de seleção de imagens é igualmente solitário, assim como o de escrita. Embora, neste caso, uma boa música e um bom vinho (não posso negar o meu sangue italiano!) tornem tudo mais leve e agradável! Acima de tudo, acho que o que a gente decide fazer após uma luta titânica, a gente faz com amor!

 

Fotografia - Mergulho

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