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Mágica e Impressionante Normandia

 

Por Ranieri Maia Rizza

Fotos Liane Neves

 

No trajeto de ida de Paris para a Normandia, uma imagem de interior da França vai se desfazendo para se visualizar uma paisagem que ganha contornos muito próprios.

 

 

Sim, a Normandia é um país dentro de um país e demonstra uma enormidade que não é comum ao se falar de uma região em um país europeu. E serão muitos os atrativos, melhor, vivências que esperam quem escolher esse destino. Aliás, essa última palavra pode ser dita no plural. Vamos estar centrados na Baixa Normandia, que parece ter a denominação contrária, já que está depois da Alta Normandia e ao norte da França. E deliciosas surpresas acontecem, como ao se chegar à Utah, uma das cinco praias que foram o cenário do desembarque dos aliados em 1944, e se deparar com canoístas no  mar azul e que contrastam com a difícil memória presente nas ruínas dos bunkers. E essa é apenas uma das muitas situações que fazem com que se diga que a Normandia é uma terra impressionante.   

 

 

A afirmação encontra força nas incríveis marés que recuam cerca de dois quilômetros de distância e 10 metros de profundidade, se alternam quatro vezes por dia e concedem um sentido místico, que se estenderá por locais como o incrível Mont Saint Michel, uma abadia erguida em cima de uma ilha rochosa e que data do final do século X. O Mont Saint Michel é considerado o segundo monumento mais visitado da França, perdendo apenas para a Torre Eiffel. E tem as belas cidades litorâneas, como Barneville-Carteret, sem esquecer as praias do desembarque, e locais como um museu do mar, um jardim botânico particular situado junto a um castelo e restaurantes que garantem uma gastronomia riquíssima em sabores e aromas e que são apenas alguns dos ingredientes dessa viagem.

 

 

A ressaltar no caminho para a Baixa Normandia, no início da Alta Normandia, a 75 quilômetros de Paris, a casa e os jardins de Claude Monet.  Além do museu, onde foi a morada por 43 anos do mestre do impressionismo, ali está a paixão dele pela jardinagem em uma profusão de cores reunidas, das plantas comuns às mais raras. O lago e a ponte japonesa são detalhes que encantam. 

 

 

Por mais duas horas e meia de estrada chega-se em Barneville-Carteret, duas pequenas cidades vizinhas. Nelas estão as mais claras visões das marés que se distanciam e retornam lentamente. Duas vezes baixa e duas alta por dia. Como exemplo, pela manhã, os barcos situados no porto de Carteret dão a impressão de estarem encalhados.  Algumas horas depois, as mesmas embarcações estarão flutuando. A situação pode ser vice-versa e essas mudanças tão características são ditas como uma justificativa para alterações no comportamento das pessoas, principalmente para quem está chegando e conhecendo os lugarejos.

 

 

Daí a tranquilidade e uma sensação de renovação.  Ou então “apenas” seja o fato de estar naquelas ruas calmas de moradas de pedras, pequenos castelos e a fileira de casas vestiário, essas na orla de Carteret, que faz o visitante se sentir em um cenário de filme. Esse astral já o prepara para a ida ao Mont Saint Michel e para o que o espera. É impossível não sentir vontade de fazer um “oh!” como o grupo de chineses em uníssono ao se deparar com os muitos detalhes na construção de pedra, concluída há mais de mil anos, dentro do mar e que tem elementos como a “maré louca”, que muda com velocidade, e a areia movediça ao seu redor. Tudo cria um clima para a subida de centenas de degraus da abadia construída após o bispo de Avranches, Aubert, ter visto aparições do arcanjo Miguel (Saint Michel) e decidir ergue-la em sua homenagem.

 

 

Tudo compensa muito. A visão deslumbrante do topo, o assistir na abadia a missa feita por monges entoando cânticos, os vitrais, o claustro com arcos góticos, os jardins e as colunas de grandes salões, onde são contadas as histórias da vida dos religiosos que ali estiveram. Assim como a dos presos da revolução francesa e que foi o único lugar na Normandia a resistir às invasões dos ingleses durante a Guerra dos Cem Anos. Embaixo está o vilarejo com vielas com lojinhas e restaurantes. Enfim, tudo o que faz com que o Mont Saint Michel fosse batizado como “A Maravilha”.

 

 

As praias do desembarque dos aliados, ocorrido no dia 6 de junho de 1944, o chamado Dia D, e que terminou com a ocupação alemã na Europa, chamam por suas belezas naturais, assim como pela força da história tão presente. Memoriais e museus em Utah Beach, Omaha Beach, Gold Beach, Juno Beach e Sword Beach mantêm vivas as lembrança das batalhas.  Em Omaha, o respirar está presente no imenso jardim que é o Cemitério Americano, com suas 9.694 cruzes e estrelas (estas representando os soldados judeus).  Um ambiente de reflexão e paz nesse amplo espaço que é um território americano dentro da França. É de emocionar.

 

 

Cherbourg conta com o La Cité de la Mer, um museu do mar que tem ente suas atrações um aquário gigante e uma exposição permanente sobre o naufrágio do Titanic. Entenda-se que o transatlântico fez sua primeira e penúltima parada no porto de Cherbourg antes de naufragar. A cidade tem muitos encantos, o que é característica de outras da Baixa Normandia, como a também portuária Barfleur eBayeux, que tem uma bela catedral e o Museu da Tapeçaria de Bayeux, no qual se encontra a tapeçaria datada do século XI e que narra em 60 cenas a conquista normanda da Inglaterra por Guilherme, o Conquistador. Ela mede cerca de 70 metros de comprimento por meio de altura.

 

 

No curso para La Hague, conhecida por seu famoso farol, inspiração para artistas, uma parada para observar o movimento solitário de um windsurfista em Siouville-Hague. No retorno, uma parada em Vauville para conferir o excepcional Jardim Botânico dirigido por Guillaume Pellerin, localizado no terreno do castelo secular de sua família. Guillaume tem plantadas em quatro exuberantes hectares mais de 1.500 plantas de todos os continentes, em jardins nominados como da Sabedoria, Misterioso e Exótico. Com certeza, estamos na Normandia.

 

 

Tradicional ou Exótica: a Festa Gastronômica é Garantida

Não tem como não se dedicar a falar da gastronomia da Baixa Normandia. Se a França já é considerada como referência nos quesitos culinários, a região ganha destaque em suas peculiaridades. Próximo a Barneville-Carteret se tem uma base de tudo o que pode vir a ser preparado.  A Maison du Biscuit tem como seu carro-chefe, biscoito, é claro! Deliciosos e especialíssimos biscoitos, produzidos pelo jovem patissiêr Kevin Burnouff, que aos 20 anos é herdeiro do empreendimento de sucesso familiar há diversas gerações e que produz duas toneladas por dia dos 18 tipos das refinadas bolachas. Os tão célebres pães e brioches também são estrelas ao lado dos sete mil produtos disponíveis na loja, como mostardas, pimentas e azeites,  que recebe em torno de 500 mil clientes por ano.

 

 

No pequeno bistrô La Satroille, em Cherbourg, a tradicional cozinha cede lugar ao preparo somente com produtos orgânicos, o que os franceses chamam de “Bio”. Vestindo uma camiseta de listras em estilo marinheiro, que o identifica como um autêntico chef à beira mar, Michel Briens comanda as caçarolas à vista dos clientes.  Seu cardápio é composto de frutos do mar, como o homard, a lagosta azul, comum da Baixa Normandia, lulas e polvo, com legumes locais e da época. Se a saúde agradece, o paladar então nem se fala...  

 

 

Uma mala de temperos é a tradução para La Malle aux Epices, em Auderville, próximo ao Farol de La Hague, local de grande importância na região e para os turistas que o visitam. Junto à beleza impressionante da natureza e do que a rodeia, Cristopher Barjettas, o Kiki, traz um cardápio muito próprio e que mescla diversas culturas, como a oriental e asiática à francesa. Resultado de sua vivência em locais como Saint Barthélemy e Nova York. Em uma das três salas da casa, temperos tomam conta das bancadas. No ambiente de decoração rústica e de acordo com a construção de pedra, Kiki também cozinha mostrando para os frequentadores as iguarias que vão compor os menus. Para dizer apenas algumas dessas delícias, a codorna com gengibre e lagostines; a sopa de St. Jacques (vieiras) com batata e molho de abacaxi, manteiga de ervas, algas e ouriço; tempura de peixe com molho de alcachofra; nem de legumes com molho de mel e alecrim; camarão com bambu e ouriço; salmão ao molho de pimenta e manga verde, entre muitos outros.  Uma tábua de doces incríveis de sobremesa, sangria como aperitivo e os vinhos nacionais na sequência. E nada de pressa, você está na Normandia.

 

 

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