logo
barraCinza
barraBranca

Eu queria que você estivesse aqui

Eu queria que você estivesse aqui

 

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

A música faz parte da rotina de quase todas as pessoas. Mas o  modo de sentir, de pensar e de  vivenciá-la jamais é igual. Dizem que a música vem do coração, repercute pelo ambiente e retorna ao coração. É claro, há música e músicas. E há pessoas e pessoas. Taylor Swiff cantando "Forever and Always" num ambiente de funk de periferia, seria vaiada. "Do You Wanna Dance", ouvida num grupo de adolescentes atuais, seria achacada. Já um "sertanejo universitário" num bailão empolgaria, agitaria. Os ouvidos e os corações são diferentes em cada ambiente, por que cada ambiente é constituído por um perfil típico.  

Seja como for, eu gosto de música e volta e meia escrevo sobre o momento de alguma. Não significa que ela tem que ter saído quentinho da produção. Pode até ser antiga. Assim justifico o meu retrô de hoje, volto ao Pink Floyd, aquela banda britânica de longuíssima estrada, marcada por suas letras filosóficas. Pena, que em agosto de 2015, David Gilmour confirma que o grupo de quase cinco décadas acabou. Mas não importa, há uma obra do grupo que se tornou um clássico, Wish You Were Here.

Para muitos críticos, ela representa a identidade da banda. A letra trata de um apelo. O intérprete verte pela voz o desejo profundo da presença de uma pessoa. O contexto não esclarece. Não dá detalhes. A ênfase é uma grande ausência. Um vazio. Uma solidão avassaladora em meio a um contexto brumoso de situações contraditórias em um longo percurso de tempo, "ano após ano". 

 No meu ver ela deve ser ouvida invertida, a começar pela última estrofe. "Como eu queria/ Como eu queria que você estivesse aqui/   Nós somos apenas duas almas perdidas/  Nadando num aquário/   Ano após ano/   Correndo sobre o mesmo velho chão   O que nós encontramos?/   Os mesmos velhos medos/  Eu queria que você estivesse aqui".

A última estrofe revela de forma muito parcimoniosa a existência de alguém que se esvaiu no tempo como uma alma perdida, caminhando no mesmo velho caminho, com a mesma condição, os mesmos medos. Mesmo assim, ele não esconde o anseio pela presença dessa companhia, tão importante, tão necessária em seu momento presente.

Ouvindo ou lendo a letra de trás para frente, as duas primeiras estrofes, também, de forma muito sutil, dão mais detalhes:

"Eu Queria Que Você Estivesse Aqui/ Então, então você acha que consegue distinguir/ O paraíso do inferno?/ Céus azuis da dor?/ Você consegue distinguir um campo esverdeado/ De um trilho de aço gelado?/ Um sorriso de uma máscara?/ Você acha que consegue distinguir?

Eles fizeram você trocar/ Os seus heróis por fantasmas?/ Cinzas quentes por árvores? O ar quente por uma brisa fria?/ O bom conforto por mudanças?/  Você trocou/  Um papel de figurante na guerra/ Por um papel principal numa cela?".

Acho tocante a letra. Carrega consigo um tema existencial. Uma conduta. A conduta do espírito da cultura hippie. A utopia do "paz e amor", que teve o seu ápice em Woodstock.  Do desapego do conforto. Da renúncia às convenções. Da abnegação dos bens materiais. No entanto, há uma nota de desapontamento com a utopia, que parece não ter dado uma resposta satisfatória às almas da época. Isso se percebe no texto da letra: "Eles fizeram você trocar/ Os seus heróis por fantasmas?/ Cinzas quentes por árvores? O ar quente por uma brisa fria?/ O bom conforto por mudanças?/  Você trocou/  Um papel de figurante na guerra/ Por um papel principal numa cela?".

Há muitas maneiras de interpretar a letra do Wish You Were Here. Há nela uma dialética filosófica existencialista e  uma reflexão sociológica sem descartar a tônica da necessidade de alguém. Da necessidade de uma velha companhia ausente. Uma nostalgia que tem o roteiro de um amor mal vivido, dispersado, mas que agora faz falta. A larga avenida da rebeldia agora está deserta. Seus contestadores se espalharam, se dissiparam. O singular sonho do desapego não vingou. É hora de melancolia.

As árvores do passado ao longe surgem espectrais em meio a névoa do tempo presente. Suas folhas caída carregam o odor úmido e amargo de algo que se foi.

Eu queria que você estivesse aqui, esse é o refrão da música e o indício de uma vida que julgava poder caminhar sozinha. O róseo alvorecer de um mundo novo foi apenas um sonho.

Mas, você, em algum lugar, ainda anda sobre os trilhos de aço gelado. E como eu desejaria um novo encontro! E, quem sabe, mesmo com fisionomias envelhecidas, mesmo com a brisa fria,  mesmo com os fantasmas presentes, poderíamos sonhar com uma nova primavera.

Música

institucional anuncie contato