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Uma metáfora poética

Metamorfose poética

A busca da vida na sua ilimitalidade

 

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

 

Adoro desenhos, quadros, retratos e fotografias. Eles são como pessoas. Nos impressionam e emocionam. E nos fazem pensar.

Foi o que eu senti ao ver esta foto. Há nela um todo que produz um impacto. Gera uma impressão emocional com a sua composição de vários elementos, que revelam um cenário, um mundo, mas, elementos que se combinam para formar uma imagem quase abstrata com conteúdo psicológico, filosófico e existencial. Algo muito semelhante às telas impressionistas de Claude Monet.

Vou detalhar. Há na imagem um menino correndo de braços abertos. Não é uma corrida de fuga, nem de medo. É uma corrida motivada de alegria infantil. É uma corrida que exala o prazer da liberdade dentro de um panorama moldado pela natureza onde os elementos terra, ar, vegetação, nuvens escuras, pesadas, carrancudas e mal humoradas formam esse todo quase impressionista. Falta, porém, o arco-íris, que entra como um contraste. Suas cores difusas: vermelho, violeta no seu interior e laranja, amarelo, azul e anil são tocadas por uma fresta de luz do sol, que também entorna o menino.

Há muito para especular sobre a fotografia. E cada reflexão é muito subjetiva. Muito pessoal. Portanto, cada pessoa pode perceber outros detalhes no panorama e destacar outras relevâncias, por exemplo, evidenciar somente ao arco-íris. Já, de minha parte, dou ênfase ao menino em ação. Na sua corrida de braços abertos ele expressa contentamento, alegria, por usufruir o sabor da liberdade ao ar livre e puro.

A sua corrida por uma estrada simples, de dois trilhos batidos, em algum no interior rural, longe das cidades, dos automóveis, do ruído urbano, dos celulares, da internet, dos jogos eletrônicos e demais artifícios tão sedimentados na rotina das famílias atuais é o grande destaque da foto.

Hoje, correr de braços abertos num espaço livre descolado de todas as tralhas eletrônicas é algo raro.  Por isso acho impactante a corrida do menino. Naquele momento ele está livre de tudo isso. O que sente é algo maravilhoso, diferente. Constato que é essa sensação que nos falta, essa sensação que reclama parte de nós.

Eu identifico o mesmo sentido que o escritor Richard Bach tentou expressar com o seu personagem Fernando Capelo Gaivota. Em uma parte do livro ele escreve:  "Na superfície do azul brilhante do céu, tentando a custo manter as asas numa dolorosa curva, Fernão Capelo Gaivota levanta o bico a trinta metros de altura. E voa. Voar é muito importante, tão ou mais importante que viver, que comer, pelo menos para Fernão, uma gaivota que pensa e sente o sabor do infinito. E verdade, que é caro pensar diferentemente do resto do bando, passar dias inteiros só voando, só aprendendo a voar, longe do comum dos mortais, estes que se contentam com o que são, na pobreza das limitações. Para Fernão é diferente, evoluir é necessário, a vida é o desconhecido e o desconhecível. Afinal uma gaivota que se preza tem de viver o brilho das estrelas, analisar de perto o paraíso, respirar ares mais leves e mais afáveis. Viver é conquistar, não limitar o ilimitável. Sempre haverá o que aprender. Sempre."

Parodiando o texto de Bach, troco a palavra voar por correr e troco a gaivota pelo menino, repetindo o que ele escreveu: Voar (correr) é muito importante, tão ou mais importante que comer, porque se busca nesse estranho impulso o sabor do desconhecido. Se corre atrás do infinito.  Diga-se em conhecimentos, em descobertas que alargam e engrandecem a vida.

Concluo, correr livre de braços abertos é a busca da vida na sua ilimitabilidade. A busca de novos horizontes ainda não traçados e não experimentados, fiados numa força superior indefinível.

 

(Não concordam que uma fotografia nos pode levar para lugares longínquos?)

 

Arte - Fotografia - menino

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