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Cris Saur e o projeto Quest for Beauty

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

Cris Saur faz parte daquela estirpe das belas gaúchas que migraram, ainda jovens, para a Europa e os Estados Unidos, onde ancoraram as suas vidas e a sua carreira profissional.  Tive a oportunidade de conhecê-la em Nova York. A partir daí, nos tornamos amigas. Hoje ela não trabalha mais como modelo. Partiu para outros projetos, dos quais vou falar. Sobremaneira, o que muito me orgulha, ela me pediu para opinar sobre o tema de seu livro que trata da beleza.

 

 

Cris Saur nasceu em Panambi, RS, onde passou a infância e a adolescência. Herdou do local os costumes alemães. Aos 18 anos mudou-se com a família para Porto Alegre. Passou a frequentar a universidade. A aura do seu corpo esguio e dos seus olhos azuis traçaram o seu futuro para outra direção. A vida de modelo começou a acenar-lhe. Dali para frente, a carreira internacional foi apenas um passo.

Desfilou em Milão, Hamburgo, Munique, Londres, Paris, Nova York. A experiência de modelo aproximou-a de grande nomes,  estilistas  e fotógrafos, que a levaram aos editoriais das revistas como a Vogue, Marie Claire, Vip e outras. O portfólio enriqueceu a sua biografia, facilitando o voo mais alto. 

Em Nova York fez um curso de direção de cinema, mas sem esquecer sua paixão pela arte e pela escrita. Em 2007 fundou em São Paulo a sua própria produtora. Escreveu, atou e dirigiu vários curtas, mas, foi em 2014 que ela  atendeu um convite para ir à Zâmbia, África, para dirigir um documentário A Visit do Remember - Roger Federer Foundation. O trabalho chamou a atenção de vários festivais pelo seu conteúdo humanitário.

Quest for Beauty é o novo projeto de filmagem, onde ela começa com a pergunta: O que é a beleza? Ela dá alguma dicas de beleza que vai perseguir no filme. Afirma: "A beleza é uma pessoa feliz". "A beleza é o canto dos pássaros". "A beleza é o sorriso de uma criança". 

A metodologia do projeto da Cris é ir além dos conceitos abstratos. Ela viaja pelo mundo para conversar com as pessoas sobre a beleza e ouvir o que elas têm a dizer sobre o assunto. Viaja  também para fotografar a beleza natural, que pode ser uma árvore ou uma montanha. 

Sem dúvida Quest for Beauty provoca a curiosidade. É um projeto bastante original e desafiador pautado em cima do axioma:"A deformidade do corpo não deixa a alma feia, mas a beleza da alma reflete sobre o corpo". 

 

E aqui, entra o meu papel. A Cris me incluiu entre as pessoas para falar sobre a beleza. Com certa preocupação e precaução, aceitei o desafio. 

 

O que penso sobre a beleza

 

Vou começar com algumas suposições, não necessariamente subjetivas. Se eu pegar uma tela de Van Gogh e levá-la a um grupo de professores da Universidade de Heidelberg para a avaliarem e pegar a mesma obra e colocá-la à frente de uma tribo indígena no interior da Amazônia, como esse quadro seria avaliado no critério de beleza?

Um pouco diferente, lembro os resultados da Semana de Arte Moderna em 1922 realizada no Teatro Municipal de São Paulo. Os quadros de Anita Malfatti foram ridicularizados. Monteiro Lobato chegou a destruir um deles a bengaladas. O impressinismo estava maduro na Europa, mas o Brasil não estava preparado para recebê-lo e muito menos entendê-lo. 

O conceito de beleza em torno do corpo feminino, por exemplo,  flutua no tempo e no espaço. No Antigo Egito a mulher bela era a que tinha cintura alta e rosto simétrico. Na Grécia Antiga a beleza do corpo ideal era a do homem, enquanto, as mulheres consideradas versões desfiguradas do masculino, tinham que ser encorpadas e com pele clara. Na Renascença Italiana, seios grandes e pouca cintura. Anos oitenta, era das supermodelos, corpo malhado, mas com curvas, alta e com braços torneados. Já a beleza "oficial" atual, barriga chapada, magérrima, coxas separadas. Mas um padrão na pauta de discussão e rejeição por aqueles que querem uma beleza aproximada com a beleza média natural das mulheres.  

O que se constata é a relatividade do conceito de beleza na arte, no corpo e em todas as áreas humanas. Isso vale para a moda, para a alta costura, que exibe roupas que dificilmente serão usadas na vida real. Alguém poderia simplesmente dizer com razão e propriedade:  "que mundo louco!"...

Nessa altura, preciso admitir que o meu "belo" pode não se enquadrar no padrão coletivo ou oficial. O sociólogo americano Peter Berger costumava definir a sociedade como um baile de máscaras. Junto com os outros, temos um tipo de gosto pelo belo. Na hora do pijama, nosso padrão pode ser bem diferente. É que na hora do pijama estamos apenas conosco e somos absolutamente sinceros com aquilo que apreciamos. Portanto, meu conceito de beleza, muitas vezes é aquele que eu escondo da opinião pública. 

A beleza é algo muito pessoal. A beleza tem que provocar uma emoção interna que os gregos chamavam de "aistesis", de onde vem a palavra estética, ou seja, aquilo que faz vibrar. Nesse caminho, a beleza pode ser achada nas coisas mais simples como o brotar solitário de uma pequena flor no meio das pedras de uma calçada. O trinar de um pássaro no meio dos arbustos, mesmo sem vê-lo. É enxergar uma criança abraçando um idoso. É o cavalheirismo diante da porta de um elevador, quando um homem através de um gesto me indica que eu tenho a preferência para entrar. Beleza é quando um jovem cede o lugar ao mais velho no metrô lotado. A beleza está na gentileza, na discrição, na humildade. 

As pessoas são belas quando não procuram ser a figura central no grupo. A discrição é um tipo de beleza.

A atriz Julia Roberts é bela não pelo seu corpo, pelo seu rosto, mas pelo seu largo sorriso e pela sua maneira suave de falar e pelo carisma que a ilumina por onde ela circula.

A beleza não é apenas para os olhos. É para o coração. Ela nos faz entrar numa espécie de estado de graça, provoca uma arrebatação. E esta é uma emoção muito pessoal.

Tudo isso vale também para o arrebatamento sob o contemplar de um céu cheio de estrelas no silêncio mais puro de um lugar solitário. Saint-Exupéry escreveu que o deserto é belo porque em algum lugar ele esconde um oásis. Que o império do homem é o interior. Assim um invisível oásis nos enche de encantamento. 

A beleza é aquela emoção que vem do fundo de mim mesma depois de enxergar algo que me tocou. A verdadeira beleza é aquela que me faz sentir bem.

Tudo o que nos enleva, tudo o que nos enche de íntima satisfação, isso é a beleza. Isso é beauty

 

Uma cena como essa que fotografamos na França, em Bayeux, em 2014, onde o economista Philippe Liger-Belair e  a sua esposa Anne-Laure brincam com  filhos Adrien, 5 anos e Martin, 4 anos, é uma cena de beleza. 

 

 Philippe Liger-Belair brincando com os dois filhos Adrien e Martin. Outro momento belo. 

Um momento belo no dia 6 de junho de 2014, no Cemitério Inglês, em Bayeux, uma menina pedindo um autógrafo ao veterano do Dia D. Há uma enorme beleza no olhar da menina e no contraste ente as duas idades, conciliando dois mundos distintos, a infância e a velhice. 

Eles já foram namorados, já foram moços, fizeram corridas juntos, agora, ele já não caminha mais, porém, o carinho e a ternura, que não envelhecem, não impedem que ambos não possam andar juntos nas ruas de Bayeux, na França. Uma lindíssimo momento de beleza. 

Cris Saur em um momento de gravação.

Uma cena de beleza no olhar de Cris Saur, clicada com a sua câmera. 

Cris em uma entrevista, buscando conceitos de beleza na sabedoria oriental. 

Uma linda cena de beleza clicada por Cris Saur. 

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