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O acaso

 

Uma característica recorrente da natureza humana é a tendência de enfatizar informações que confirmem nossas crenças. Mas no momento em que elas são questionadas, o confronto é inevitável.

 

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

O acaso e suas consequências

 

 

Dia desses fiquei impressionada sobre o que as pessoas acreditam. Li em um jornal esta afirmação: "O destino a gente não pode mudar. Ele já vem traçado. Cada um tem a sua hora".

Se alguém parar para refletir sobre a extensão e as consequências do real sentido da frase (frases que existem centenas de outras iguais, apenas em palavras diferentes), não nos restaria nada a fazer, senão cruzar os braços e nos entregarmos passivamente a corrente da força superior que selou os acontecimentos de cada um.

Sei que o meu assunto é polêmico. Ele entra no campo minado daquilo o que as pessoas acreditam e fazem de sua crença uma explicação de sua vida. Portanto, trata-se de um universo muito pessoal. Um universo no qual o cotidiano com todos os seus componentes está presente: "amar, sonhar, sofrer, procurar, perder, ganhar; ou sentimentos como saudade, remorso, culpa, inveja, ciúme, medo, tristeza; ou fatos como dor-de-cotovelo, amor-não-correspondido; circunstâncias como um homem bebendo na mesa do fundo de um bar, a perda de um ente querido". Essa é a abrangência do cotidiano, a vida em sua rotina diária de todas as pessoas normais.

Há os que vivem essas situações acreditando que tudo tem o seu tempo e a sua hora para acontecer: que o destino se encarregará de trazer o amor de sua vida; que o sucesso e a fortuna virão na sua hora. Logo, não é necessário se matar trabalhando, privar-se dos prazeres, cuidar-se dos vícios. "Se está traçado que eu fique na pobreza, não adiantarão os meus esforços; se está traçado que eu enriqueça, não preciso de sacrifícios".

A crença num destino traçado é uma forma de acomodamento. Os horóscopos e a crença na vontade soberana e determinante de alguma divindade, reforçam o acomodamento.  É uma maneira de não ser cobrado por um ato irresponsável, como dirigir embriagado, submeter cada minuto ao ímpeto do momento, sem frear o impulso inconsequente.

Hermann Hesse, escritor alemão, prêmio Nobel de 1946, em uma das páginas do livro Demian, deixa uma frase que define um ponto de vista bem racional a questão sobre a crença determinista: "O acaso não existe. Quando alguém encontra algo de que verdadeiramente necessita, não é o acaso que tal proporciona, mas a própria pessoa; seu próprio desejo e sua própria necessidade o conduzem a isso". 

Hermann Hesse

 

O médico e escritor indiano Deepak Chopra, radicado nos Estados Unidos, tem o mesmo ponto de vista: "O que for teu desejo, assim será tua vontade. O que for tua vontade, assim serão teus atos. O que forem teus atos, assim será teu destino." Curiosamente, a letra de uma música dos Titãs, tem essa interrogação: "O acaso me protegerá enquanto eu andar distraído?" O que dá para ampliar em outras variáveis como "se eu dirigir numa rodovia de alta velocidade discutindo pelo celular e ocorrer um desastre, ele será um resultado tão somente da minha imprudência". E minha imprudência poderá gerar uma cadeia de outros fatos. O que existe é uma cadeia de resultados advindos de uma causa e não de um destino predeterminado. São lances de circunstâncias conjugadas que podem atingir terceiros inocentes. Mas lances com origem clara, como ser atingido por uma bala perdida.

A colunista e escritora Martha Medeiros, da qual sou amiga, em sua obra Non Stop, comenta que "duas pessoas se unem e separam por motivos, que são consequências daqueles pequenos desgastes que vão minando, em silêncio a rotina doméstica".  

União e separação, não tem nada a ver com o encontro e desencontro de almas gêmeas, mas por causas muito pessoais, muito íntimas. Portanto, nenhuma relação com fatores extraordinários predeterminados.  

 

Há muitas formas de explicar um fato. Isso é inevitável. Pouco adianta discutir com quem acha que o raio que atingiu a casa foi um castigo divino. Os povos nativos na Polinésia explicam a fúria de um vulcão como a ira dos deuses, mesmo num mundo evoluído, onde os geólogos explicam um terremoto como o resultado do acomodamento da placas tecnônicas nas profundezas da terra. Hoje, qualquer pessoa esclarecida e desvinculada de dogmas, sabe que a razão e a lógica devem prevalecer na explicação de um fato.

A cultura popular, superficial e ingênua, com certeza é mais forte e prevalece, mesmo com todos os conhecimentos avançados. Segundo Thomas Kuhn, professor e cientista, "aquilo que um homem vê depende muito daquilo que a sua experiência visual e conceitual prévia o ensinaram a enxergar". Na Idade Média, em cada esquina de vilarejo, as pessoas enxergavam o diabo. Sua mente doutrinada projetava uma experiência visual de acordo com a crença. Ainda hoje, há regiões na Islândia, onde as pessoas com um smarthfone na mão, acreditam na aparição de pequenos homens conhecidos como duendes.

Crença não se discute, se respeita. A razão e a lógica podem contradizer crenças profundamente arraigadas no seio popular. Isso cria choques culturais e emocionais. Cria confrontos e até reações violentas.

Naquelas culturas onde as pessoas sabem que os seus atos constroem o seu destino e não o contrário; que as suas escolhas pessoais vão determinar o seu futuro, a prosperidade tanto pessoal como coletiva têm maior alcance.

Somos o que o cremos. Somos o que pensamos. A crença no acaso inevitavelmente produz consequências sociais prejudiciais para a pessoa e a sociedade. O filósofo e jornalista Jacob Petry afirma: "Você pode dizer que pode fazer o que quiser da vida, porque no final das contas, a sorte irá definir o que irá acontecer é confortável. Mas isso é perigoso, pois tira de você  a sua responsabilidade das escolhas".

Fico com o pensamento de Hermann Hesse e o transcrevo novamente. "O acaso não existe. Quando alguém encontra algo de que verdadeiramente necessita, não é o acaso que tal proporciona, mas a própria pessoa; seu próprio desejo e sua própria necessidade o conduzem a isso".

 

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