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Entrelaçamento de três histórias de vida

Entrelaçamento de três histórias de vida

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

Linda Alba Dutra, Adriana Ruschel Duval e eu numa experiência de memória de nossos avós.

Comigo, Linda Alba Dutra e ao lado, Adriana Ruschel Duval

 

Dizem que os acontecimentos conduzem as pessoas. Mas, também é correto dizer que são as pessoas que conduzem os acontecimentos. Fecha com uma clássica afirmação de Ortega y Gasset “Eu sou eu e a minha circunstância”. Assim, este parágrafo, me introduz ao texto.

Estava escrevendo o livro sobre o meu avô, Hermes Pereira de Souza, quando, as situações me conduziram a conhecer Adriana Duval e Linda Alba Dutra, duas pessoas, que de certa forma, fazem parte das circunstâncias da vida do meu avô. Jamais pensei que o livro me proporcionaria um desses encontros, no qual se entrelaçariam três histórias de vida.

Pois bem, o meu avô, Hermes, junto com o avô da Adriana, Joaquim Duval e, Tarso Dutra, o pai de Linda Alba, foram, durante muitos anos, amigos e companheiros políticos do antigo PSD. Em 1946, os três elegeram-se como deputados estaduais, pela mesma bancada, na ocasião da reabertura democrática do Brasil com o fim da ditadura de Getúlio Vargas. Um detalhe interessante, logo após a posse, Duval foi escolhido para primeiro vice-presidente e Hermes para primeiro secretária para a composição da mesa da Assembleia Constituinte Estadual.

A formação da primeira mesa para a Constituinte Estadual de 1947.

 

Em 1948 o avô de Adriana, Joaquim Duval, renunciou ao mandato para concorrer ao cargo de prefeito em Pelotas. E em 1950, Hermes Pereira de Souza e Tarso Dutra, foram eleitos para a Câmara Federal.

Uma vida nova começou a ambos, junto com outros gaúchos, Nestor Jost, Willy Fröhlich, Godoy Ilha, Daniel Faraco, Adroaldo Mesquita e Clóvis Pestana. Da capital provinciana foram residir na capital brasileira, o Rio de Janeiro como um dos mais belos cartões postais do mundo. Um esplendoroso lugar cheio de praias, coroado pela mágica Copacabana. Naquele tempo, a cidade ainda era um lugar seguro, um lugar glamoroso, um lugar alegre e bom para viver.

No Rio de Janeiro, Hermes e Tarso Dutra tornaram-se vizinhos no mesmo edifício na Rua Paisandu, 200. Ambos exerceriam três mandatos seguidos, de 1950 a 1962. Nesses 12 anos, vivenciariam profundas mudanças no Brasil: a volta do getulismo, a inauguração da Petrobras (sob o ufanismo nacionalista “o petróleo é nosso”), as primeiras imagens de TV, a inauguração do Maracanã e a fatídica derrota para o Uruguai na Copa de 1950, a industrialização do país, a mudança da capital para Brasília. Os anos 1950 foram o tempo de esplendor da revista Cruzeiro e da insurgente revista Manchete.

Rua Paissandu, no Rio de Janeiro, nos dias atuais.

 

Enquanto isso, na política, a esquerda conservadora opunha-se à entrada de empresas estrangeiras, considerando as multinacionais uma ameaça à soberania da nação, fruto de um nacionalismo radical e agressivo. Tudo motivou muitos debates no Congresso Nacional, sediado no Palácio Guanabara. Debates que se tornavam cada vez mais acirrados à medida que se pulverizava em denúncias o governo populista de Vargas. As muitas concessões ao funcionalismo público e a elevação insustentável do salário mínimo, fragilizava cada vez mais a agonizante economia brasileira. No Congresso, Hermes Pereira de Souza, e seus companheiros tornaram-se carta marcada pela esquerda radical. O jornalista Murilo Melo Filho escreveu uma consistente matéria sobre os oito gaúchos, que faziam combativa oposição ao getulismo populista, que estava arruinando as fontes pagadoras. O título do artigo caracterizou o grupo: “A reação começou nos Pampas”, na edição da revista Manchete, edição 76, de outubro de 1953. Seu foco mais incisivo recaiu sobre o meu avo: “Hermes Pereira de Souza é o mais valente. Tem sangue à flor da pele. Apesar de ser da Comissão de Diplomacia, não se afasta de um poderoso calibre 38” (...) “Hermes constituíra-se, assim, o líder dentro de um pequeno grupo de pessedistas, que não escondiam sua oposição ao governo. Aos poucos, o grupo contagiou uma boa parte de outros parlamentares”, escreveu Murilo.

Menos de um ano depois, Getúlio Vargas comete o suicídio, em face da insustentabilidade de sua linha política e alvo de uma oposição ainda mais radical, o lacerdismo.

Após a crise getulista, meu avô Hermes e o pai de Linda Albra, Tarso Dutra, elegem-se para um segundo mandato. Desta vez, volta um velho companheiro, Joaquim Duval, o avô de Adriana Duval, que havia renunciado a legislatura estadual para ocupar o cargo de prefeito em Pelotas, RS. De 1948 a 1951, foi prefeito municipal de Pelotas.  A vida dos três se entrelaçaria, novamente. Há um detalhe curioso, Joaquim Duval, ocupou a cátedra de direito administrativo na Faculdade de Direito da Universidade do Rio Grande do Sul, em Pelotas, aonde o meu avô estudou. Ali se conheceram. Pela terceira vez, as circunstâncias os colocam lado a lado no mesmo caminho.

Palácio Tiradentes que sediava na época a Câmara Federal.

 

Já a terceira legislatura federal, eles a vivenciaram durante o governo de Juscelino Kubitschek. Minha mãe conta que a amizade entre o meu avô Hermes e Juscelino era grande. “Ele fora um assunto muito frequente do interior da nossa casa, no Rio de Janeiro”, afirma ela. Outro detalhe curioso, os três foram os últimos parlamentares federais do Rio de Janeiro e os primeiros deputados federais em Brasília.

Hermes faleceu no dia 4 de janeiro de 1969 aos 58 anos. Joaquim Duval, no dia 7 de novembro de 1971, aos 67 anos e Tarso Dutra, dia 5 de maio de 1983, aos 69 anos, ainda no exercício do cargo de senador. Faleceram relativamente jovens.

No final dessa história, eu e a Adriana, temos uma desvantagem em relação à Linda Alba. Não conhecemos  pessoalmente os nossos avós. Nasci alguns anos após a sua morte e da mesma maneira a Adriana. Já a Linda Alba os conheceu e, em parte, conviveu.

Parte do conhecimento do meu avô veio a mim através da mãe e da  minha avó, com inúmeras e constantes alusões sobre ele. Essas alusões criaram em minha mente o perfil do livro. No entanto, o que me surpreendeu em relação ao livro, foram as várias manifestações positivas. E, como ponto alto, a descoberta da Adriana Duval e da Linda Alba Dutra, que me surpreenderam, pela linda história que temos em comum. O passado desses protagonistas nos entrelaçou no tempo presente.

Poucos dias atrás, Linda Alba postou no Facebook: “Sem brincadeira, teu livro foi um sucesso! Porque tiveste uma ideia excelente: contaste a história do teu ilustre avô, tendo como fundo todo um cenário da política e da história deste Brasil, hoje tão pobre de grandes vultos, como o teu avô Hermes Pereira de Souza e meu pai, Tarso Dutra. Mais Fernando Ferrari: os três amigos, colegas e vizinhos no prédio da Paissandu, 200. Onde ainda moravam Gregório, o famoso Anjo Negro de Getúlio; e o grande Tristão de Ataíde. Meu pai não tinha carro na época. Ia pra Câmara dos Deputados de ônibus e voltava de carona com o Carlos Lacerda (...)”.

Que lindo estímulo, essas palavras da Linda Alba!.

Adriana Ruschel Duval, por sua vez, me incentivou a conhecer São Borja, terra natal do meu avô, onde na Câmara de Vereadores, recebi uma menção honrosa pelo livro publicado, um insentivo protagonizado por ela. E pouco tempo depois, a Adriana me dá uma grata notícia, o nome Hermes Pereira de Souza virou nome de rua na sua cidade natal.

Adriana Duval ao meu lado e o  vereador Roque Langendolff Feltrin, que levou à Câmara Municipal e obteve a aprovação de uma menção honrosa a mim concedida.

 

Minha mãe Maria Tereza, presidente Juscelino e meu avô Hermes Pereira de Souza

 

Como percebem, a matéria se torna imensa e ainda deixa muitas lacunas abertas. O notório disso é que nós, Linda Alba, Adriana e eu, nos sentimos gratificadas nesse compartilhamento, resgatando memórias familiares. E acima de tudo, nos conhecemos e estabelecemos uma grande amizade. 

Além disso, somos uma extensão da vida desses homens ilustres: Joaquim Duval, Tarso Dutra e Hermes Pereira de Souza e temos muitas boas razões em nos espelharmos em suas vidas. 

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