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A vida depois do amor

A vida depois do desapontamento

 

Por Themis Pereira de Souza Vianna

 

Acredito que escrever uma crônica sempre é um ato de confissão, que tem na ponta da narrativa algum tipo de sentimento motivador. Isso vale também para uma letra musical. O conteúdo pode revelar ambiguidades, como êxito ou desapontamento; alegria ou tristeza; sossego ou perturbação, alívio ou dor e por aí vai. Por exemplo, o escritor francês, Gustave Flaubert deixou testemunhos dos suores e perturbações nervosas que o acometiam enquanto escrevia. Havia uma espécie de parto. Sua obra Madame Bovary, uma ruidosa história de adultério que levou seu autor aos tribunais por escândalo de imoralidade, tem o seu meandro em algumas experiências pessoais frustrantes. Pelo menos, é que nos faz pressupor. O seu estilo de romancista profano revela os mitos, os lobos e os demônios carnais que habitavam os meandros de sua personalidade latente.

Portanto, uma crônica — uma crônica pura — tem as suas raízes na clausura das fantasias e dos desejos recônditos ou profundos desapontamentos. As motivações podem assemelhar-se a um vulcão ativo, do qual as lavas são jogadas para fora, para o alto, para todas as direções.

Desapontamentos profundos são fortes e resistentes. Basta alguma fragilidade do nosso dia a dia, e lá vêm eles, afloram e voltam a machucar. Há muitos exemplos práticos, mas quero focar as mulheres vítimas do machismo arrogante. Desprezadas e reduzidas a objetos de pancadas verbais e até físicas por homens boçais e vazios por dentro. Mulheres colocadas para baixo, lá onde a dor da amargura é mais sentida. Conforme pesquisa da Datafolha, há 16 milhões de mulheres que tiveram esse tipo de experiência. Luana Piovani foi para a Justiça contra o ator Dado Dolabella por agressão.

A bofetada é apenas um ato violento físico. Sua extensão, no entanto, é muito mais dolorosa na autoestima. E na maioria das vezes, não são necessários tapas. Bastam atitudes, palavras, desprezo e humilhação.

Nessa altura entra uma música cantada pela Cher, cuja letra retrata o tema Belive (Acredite). “No matter how hard I try. You keep pushing me aside”. “Não importa o quanto eu tente, você continua me empurrando para o lado” (o que sifnifica: fazendo pouco caso, menosprezando e machucando). Adiante, o refrão enfático: “Agora eu sei que posso ser mais forte / eu não preciso mais de você / eu não preciso mais de você”. 

As partes tiradas da letra mostram uma palavra de esperança às mulheres amarguradas pelo desprezo. Em sua decisão está o poder de livrarem-se dos “malas”. Há uma nova vida que as acena ao libertarem-se das algemas de um relacionamento de opressão. A liberdade é um horizonte amplo cheio de novas possibilidades.

Há feridas que não cicatrizam, mas podemos evitar que elas se reabram ou, pelo menos, amenizá-las.

A vida é curta demais para nos darmos por vencidas. Eu continuo acreditando em novos começos. Minha convicção é que a pessoa quando é forte, ela não se entrega ao fracasso.  Sim, eu acredito na vida depois do amor. 

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